‘A pedra’: romance e mistério no Nordeste


O ‘Nexo’ publica trecho do primeiro capítulo do livro do pernambucano Yuri Pires. Ambientada no Nordeste, a obra traz a história de uma pequena cidade que se surpreende quando uma pedra misteriosa aparece na praça principal

Tinha tudo de um dia comum, mas não era. O sítio do Lajedo amanheceu debaixo de neblina, mansamente pousando, naquela sonolência característica da mata catingueira de antes de o sol estalar.

Ambrósio beijou a mãe, que coava o café. Mastigou um pão, deu de garra em uma lata meio amassada e rumou para o riacho, assobiando como um curió. Imitar o canto dos passarinhos era um hábito tão seu que sua avó vivia dizendo: esse menino é doido pra vender o bico, é uma propaganda só. Bituca fazia firula a seus pés, querendo agradar o dono. O riacho não era mais que um filete d’água quando passava atrás da casa do Lajedo, mas Ambrósio construiu uma pequena ponte de pedras para atravessá-lo em direção ao curral. Quem era doido de botar os pés naquela água gelada àquela hora do dia? Capaz de pegar uma friagem. Por isso as pedras enfileiradas.

Por menos barulho que fizesse, nem bem se aproximava da porteira, já ouvia os chocalhos batendo. Elas pressentiam. Um mugido grave e longo anunciava a chegada de Ambrósio.

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