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‘A pedra’: romance e mistério no Nordeste


O ‘Nexo’ publica trecho do primeiro capítulo do livro do pernambucano Yuri Pires. Ambientada no Nordeste, a obra traz a história de uma pequena cidade que se surpreende quando uma pedra misteriosa aparece na praça principal

Tinha tudo de um dia comum, mas não era. O sítio do Lajedo amanheceu debaixo de neblina, mansamente pousando, naquela sonolência característica da mata catingueira de antes de o sol estalar.

Ambrósio beijou a mãe, que coava o café. Mastigou um pão, deu de garra em uma lata meio amassada e rumou para o riacho, assobiando como um curió. Imitar o canto dos passarinhos era um hábito tão seu que sua avó vivia dizendo: esse menino é doido pra vender o bico, é uma propaganda só. Bituca fazia firula a seus pés, querendo agradar o dono. O riacho não era mais que um filete d’água quando passava atrás da casa do Lajedo, mas Ambrósio construiu uma pequena ponte de pedras para atravessá-lo em direção ao curral. Quem era doido de botar os pés naquela água gelada àquela hora do dia? Capaz de pegar uma friagem. Por isso as pedras enfileiradas.

Por menos barulho que fizesse, nem bem se aproximava da porteira, já ouvia os chocalhos batendo. Elas pressentiam. Um mugido grave e longo anunciava a chegada de Ambrósio.

— Galeguim da barba rala, uma porra! — Pensava.

— Queria ver aqueles bosta aqui, tirando leite de Juliana. Tudo criado na moleza da cidade, por isso que a barba cresce lá e neles.

Acarinhou a leiteira, hábito adquirido da mãe, que sempre dizia que o homem deve tratar os bichos melhor do que as pessoas tratam umas às outras.

— Bicho é gente sem maldade — ela dizia.

— Sem maldade também não, né, mãe? Juliana esses dias quase que mata Gecinha, não pegou porque vó viu e partiu pra cima dela.

— Issé do instinto dela — disse a mãe —, coisa de animal, tu é muito novo pra entender.

No tempo de ele ir ao curral e voltar com o leite, bem dizer, num pé e noutro, elas já tinham colocado o café na mesa, lavado as panelas, dado banho em Gecinha e pegado uma galinha que ia para o sacrifício pelo almoço. Mais ligeiro só Bituca, que, nem bem Marta virava as costas, já tinha roubado o pão da mão de Gecinha.

— Eita, Bituca safado, meu Deus. Leva esse peste pra fora, Zito! — Era Marta falando e Gecinha abrindo o berreiro.

— Talvez se mãe não tivesse dito nada, ela nem percebia a falta do pão.

De café tomado e camisa da escola estadual, Ambrósio se preparava para sair.

— Bença, vó, bença, mãe.

— Deus te abençoe, meu filho.

— Deus te crie para o bem — disse a avó.

Aí eram vinte minutos de sol torando, queimando a cabeça.

— Sarará, uma porra, se aqueles misera pegassem sol na moleira todo dia, queria ver se não ficava tudo pixaim também — esbravejava sozinho. Na escola, Ambrósio tinha sempre sido motivo de apelidos. Ele atribuía essa implicância ao fato de ser um dos poucos moradores da zona rural entre os colegas. Zito era um desses moradores de sítio que frequentavam a escola, talvez por isso logo tenha feito amizade com Felipe, gente de sua mesma condição.

A estrada de terra se interrompia na altura do grotão, justamente onde começavam as casas da cidade e o asfalto da rua que não tinha nem nome, tamanha a sua desimportância. Naquele dia, com tudo de normal, sem ser, um engarrafamento começava bem ali, a uns trinta metros do grotão.

— Oxente, e agora Lemuri deu pra cidade grande, foi? Engarrafamento? Vôte!

— Tá falando só, sarará?

— Sarará teu boga... — disse baixinho.

— Qué que tá dizendo aí, cabra?

— Nada não, seu Chico.

— Ah, bom, pensei que tinha dito.

— E o que havera de dizer do senhor? Pode me chamar do que quiser, né o dono do mundo?

— Deixe de ser atrevido, moleque ruim — disse o velho.

— Mas o senhor sabe dizer que folia é essa de engarrafamento em Lemuri? — Desconversou Ambrósio.

— Sou fuxiqueiro não... quiser saber, assunte com outro.

Seu Chico do grotão tinha um gênio muito forte. Pudera, para domar aquela terra braba do grotão, só alguém de pulso. De pulso só não, tinha que ter queixo, meter os peitos, desafiar a terra seca. Ele ligava? Nem por isso. Ninguém nunca o vira queixoso ou lamuriento.

Biu Lapada era o contrário. Todo dia, quem por ali passasse — como acontecia com Ambrósio naquele dia —, dava de cara com Biu, parado defronte de sua venda, braços cruzados na altura do peito, bico estirado e os olhos do mesmo jeito.

— Biu, que diabéisso aí embaixo?

— Invenção desse povo besta! Tu não sabe comé o povo daqui? Só quer um pezinho!

— E que pezinho foi esse, que causou até engarrafamento?

— E eu lá fui ver? E eu não tenho o que fazer não, menino besta?

— Eita, Biu, também é uma delicadeza... — Queixou-se Ambrósio.

— Quer delicadeza, vá em Filó, a venda aqui é pra quem quer comprar; quiser informação, vá na prefeitura! Bem que Ambrósio queria ir à casa de Filó, mas e coragem? Uma vez, saindo da cidade em direção à casa de seu amigo Felipe, tinha passado por perto e tirado uma graça com uma das meninas. Só escutou a voz, lá de dentro, gritando:

— Carminda, deixe o menino ir! Não tá vendo que é o sarará de Mocinha? É menino ainda. Mocinha merece menino dela em cabaré não!

Sarará era o cacete, pensava Ambrósio. Pois essa mesma menina de Filó era uma das primeiras da multidão que ele avistou à frente dos carros parados. Voltada para o centro da praça, a multidão burburinhava. Ambrósio foi furando fila, abrindo caminho, deu bom dia a Carminda, acotovelou-se com Furiba, bêbado local, e logo chegou ao centro da Praça Voluntários da Pátria.

No centro da praça, pousada no jardim de grama que o prefeito cultivava ali, uma enorme pedra preta reluzente. Lisa, não havia nenhum acidente no seu quase metro e meio de altura por metro e tanto de largura. Ninguém chegava muito perto. Estavam excitados, mas cheios de medo. Quem arriscasse uns passos em direção à pedra via-se refletido na superfície.

Ambrósio mirou seu nariz enorme, do tamanho de uma batata doce graúda, embaixo de uns olhinhos miúdos, sem branco, tudo preto. O cabelo espichado feito cabelo de milho, duas orelhas pequenas e redondas, e uns dentes menores que a cabeça dos dedos dele. Tocou-se, tentando identificar se aquela monstruosidade era, de fato, o seu rosto. Era sim, e as mãos mastodônticas eram dele também.

— Eita, pedra mentirosa da gota! Eu não sou feio desse jeito não!

Oxe, tu tás bonito — disse Felipe —, olha pra minha desgraça.

Ambrósio não via diferença em Felipe. Feio igual sempre fora. Ele é que estava transfigurado, parecendo a besta-fera. Todo mundo se espantava com a própria feiura espelhada na pedra, mas via a feiura dos outros na mesma de sempre.

 

Yuri Pires nasceu em 1986 na cidade do Recife, em Pernambuco. Cursou História na UFRPE (Universidade Federal Rural de Pernambuco). É autor dos livros” O Homem e o Seu Tempo” (2014), “Fábrica de Heróis” (2015) e “Artifício” (2016).

 

A pedra

Yuri Pires136 páginasEditora Lote 42Lançamento em agosto

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