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‘Mulheres, cultura e política’: discursos e artigos de Angela Davis


O ‘Nexo’ publica trecho do novo livro da filósofa e ativista americana. A publicação, com tradução de Heci Regina Candiani, reúne a produção de Davis sobre as mudanças políticas e sociais pelas quais o mundo passou em relação à igualdade racial, sexual e econômica

O conceito de empoderamento não é novo para as mulheres afro-americanas. Por quase um século, temos nos organizado em grupos voltados a desenvolver coletivamente estratégias que iluminem o caminho rumo ao poder econômico e político para nós mesmas e para nossa comunidade. Ao longo da última década do século 19, após serem repetidamente rechaçadas pelo racialmente homogêneo movimento pelos direitos das mulheres, as mulheres negras formaram seu próprio movimento associativo. Em 1895 – cinco anos depois da fundação da General Federation of Women’s Clubs [Federação Geral de Agremiações de Mulheres], responsável por consolidar um movimento associativo que refletia as preocupações das mulheres brancas de classe média –, cem mulheres negras de dez estados se reuniram na cidade de Boston, sob a liderança de Josephine St. Pierre Ruffin, para discutir a criação de uma organização nacional de agremiações de mulheres negras. Em comparação com suas colegas brancas, as mulheres afro-americanas que instituíram esse movimento associativo nacional articularam princípios de natureza mais evidentemente política. Elas definiram como função primordial de suas agremiações a defesa ideológica e militante das mulheres negras – e dos homens negros – contra os danos causados pelo racismo. Quando o encontro foi convocado, as participantes declararam enfaticamente que, ao contrário de suas irmãs brancas, cujas políticas organizacionais eram seriamente maculadas pelo racismo, elas idealizavam um movimento aberto a todas as mulheres:

Nosso movimento de mulheres é um movimento de mulheres no sentido de que é conduzido e dirigido por mulheres pelo bem de mulheres e homens, pelo benefício de toda a humanidade, que é maior do que qualquer uma de suas ramificações ou divisões. Nós queremos, nós pedimos o interesse ativo de nossos companheiros e, além disso, não estabelecemos limites de cor; nós somos mulheres, mulheres estadunidenses, tão intensamente atraídas por tudo o que nos diz respeito quanto todas as outras mulheres estadunidenses; não queremos alienar nem afastar, estamos apenas assumindo a linha de frente, dispostas a nos unir a quaisquer outras pessoas no mesmo trabalho e cordialmente convidando e dando as boas-vindas a todas que se unirem a nós.Gerda Lerner, Black Women in White America

No ano seguinte foi anunciada a criação da National Association of Colored Women’s Clubs [Associação Nacional das Agremiações de Mulheres de Cor]. O lema escolhido pela associação foi “Lifting as we climb” [“Erguendo-nos enquanto subimos”].

O movimento de mulheres do século 19 também era contaminado pelo preconceito de classe. Susan B. Anthony se perguntava por que seu apelo às mulheres da classe trabalhadora na questão do voto era tão frequentemente recebido com indiferença. Ela indagava o motivo pelo qual essas mulheres pareciam muito mais preocupadas em melhorar sua situação econômica do que em conquistar o direito ao voto. Por mais essencial que a igualdade política fosse para a campanha mais ampla pelos direitos das mulheres, aos olhos das trabalhadoras afro-americanas e brancas isso não era sinônimo de emancipação. O fato de que as estratégias de luta se baseavam conceitualmente na condição específica das mulheres brancas das classes privilegiadas colocava tais estratégias em desacordo com as percepções de empoderamento das mulheres da classe trabalhadora. Não surpreende que muitas delas tenham dito à sra. Anthony: “Mulheres querem pão, não voto”. Eventualmente, óbvio, as trabalhadoras brancas, bem como as afro-americanas, reformularam essa luta em termos conceituais, entendendo o voto não como um fim em si mesmo – não como uma panaceia que curaria todos os males relacionados à discriminação baseada no gênero –, mas sim como uma arma importante para a continuidade da luta por salários mais altos, por melhores condições de trabalho e pelo fim do risco onipresente de linchamentos.

Hoje, quando refletimos sobre o processo de empoderamento das mulheres afro-americanas, nossas estratégias mais eficazes continuam sendo aquelas guiadas pelo princípio adotado pelas mulheres negras do movimento associativo. Precisamos nos esforçar para “erguer-nos enquanto subimos”. Em outras palavras, devemos subir de modo a garantir que todas as nossas irmãs, independentemente da classe social, assim como todos os nossos irmãos, subam conosco. Essa deve ser a dinâmica essencial da nossa busca por poder – um princípio que deve não apenas determinar nossas lutas enquanto mulheres afro-americanas, mas também governar todas as lutas autênticas das pessoas despossuídas. Na verdade, a batalha geral por igualdade pode ser profundamente intensificada pela adoção desse princípio.

As afro-americanas trazem ao movimento de mulheres uma forte tradição de luta em torno de questões que as vinculam politicamente às causas progressistas mais cruciais. Esse é o sentido do lema “Erguendo-nos enquanto subimos”. Tal abordagem reflete as aspirações e os interesses frequentemente desarticulados de massas de mulheres de todas as origens raciais. Milhões de mulheres estão hoje preocupadas com empregos, condições de trabalho, salários mais altos e violência racista. Elas estão preocupadas com o fechamento de fábricas, com a falta de moradia e com a legislação migratória repressiva. Estão preocupadas com a homofobia, o idadismo e a discriminação contra pessoas com deficiências físicas. Estamos preocupadas com a Nicarágua e a África do Sul. E compartilhamos com nossas crianças o sonho de que o mundo de amanhã esteja livre da ameaça de um onicídio nuclear. Essas são algumas das questões que devem ser incluídas na luta geral pelos direitos das mulheres, caso exista um compromisso sério com o empoderamento daquelas mulheres que têm sido historicamente submetidas à invisibilidade. Essas são algumas das questões que devemos considerar se queremos erguer-nos enquanto subimos.

Ao longo desta década, testemunhamos um empolgante renascimento do movimento de mulheres. Se a sua primeira onda começou nos anos 1840, e a segunda, nos anos 1960, então, nestes últimos dias da década de 1980, estamos nos aproximando da crista de uma terceira onda. Será que, quando historiadoras feministas do século 21 tentarem resumir a terceira onda, vão ignorar as grandiosas contribuições das mulheres afro-americanas, que têm atuado como líderes e ativistas de movimentos frequentemente restritos a mulheres de minorias étnicas, mas cujas realizações levaram invariavelmente a avanços nas causas das mulheres brancas? Será que as políticas excludentes do movimento de mulheres dominante – desde sua concepção até o presente –, que com frequência têm obrigado as mulheres afro-americanas a conduzir sua luta por igualdade fora de suas fileiras, continuarão a resultar na omissão sistemática de nossos nomes da lista de lideranças proeminentes do movimento de mulheres? Continuarão a existir dois “continua” distintos desse movimento de mulheres, um visível e outro invisível, um reconhecido publicamente e outro ignorado – exceto pela consciência das mulheres que descendem daquelas que moldaram esse "continuum" oculto – negras, latinas, indígenas, asiáticas e brancas da classe trabalhadora? Se essa pergunta for respondida de modo afirmativo, isso significa que a busca das mulheres por igualdade continuará a ter sérias falhas. O potencial revolucionário do movimento de mulheres ainda não terá sido realizado. Influenciados pelo racismo, os defeitos da primeira e da segunda ondas terão se tornado uma herança para a terceira onda.

Como podemos garantir que esse padrão histórico se rompa? Enquanto defensoras e ativistas dos direitos das mulheres de nosso tempo, devemos começar a fundir esse duplo legado a fim de criar um “continuum” único, que represente de modo sólido as aspirações de todas as mulheres da nossa sociedade. Devemos começar a criar um movimento de mulheres revolucionário e multirracial, que aborde com seriedade as principais questões que afetam as mulheres pobres e trabalhadoras. Para mobilizar tal potencial, devemos desenvolver ainda mais aqueles setores do movimento que estão se ocupando dos problemas que atingem as mulheres pobres e da classe trabalhadora, como empregos, equidade de salários, licença-maternidade remunerada, creches com subvenção federal, abortos subsidiados e proteção contra esterilizações forçadas. Mulheres de todas as raças e classes se beneficiarão enormemente de uma abordagem como essa.

Angela Davis é filósofa, professora emérita do departamento de estudos feministas da Universidade da Califórnia e ícone da luta pelos direitos civis. Integrou o Partido Comunista dos Estados Unidos, tendo sido candidata a vice-presidente da República em 1980 e 1984. Próxima ao grupo Panteras Negras, foi presa na década de 1970 e ficou mundialmente conhecida pela mobilização da campanha “Libertem Angela Davis”. Autora de vários livros, sua obra é marcada por um pensamento que visa romper com as assimetrias sociais.

Mulheres, cultura e política

Angela DavisTradução de Heci Regina CandianiEditora Boitempo200 páginasLançamento previsto para 8 de julho

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