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‘Meios e Finais – Conversas em Princeton’


O ‘Nexo’ publica trecho da tradução inédita do livro de entrevistas de Ricardo Piglia. A publicação surgiu a partir de uma roda de conversa, que aconteceu em novembro de 2010, entre o autor argentino e os professores e críticos literários Paul Firbas, Pedro Meira Monteiro e Fermín A. Rodríguez, sobre temas como cinema, política, tecnologia, leitura e controle social

Ricardo Piglia Me interessa muito, em relação ao tema da velocidade, a relação com a leitura. Bem, com certeza vocês já me ouviram dizer isso. O que se acelerou foi a circulação dos textos, temos acesso de forma instantânea a um registro muito amplo de possibilidades de leituras. Mas digo, de brincadeira, que seguimos lendo na mesma velocidade que líamos no tempo de Aristóteles. Ou seja, quando se diz que uma imagem vale mais que mil palavras o que se quer dizer é que uma imagem é mais rápida que as palavras. Leva um tempo ler mil palavras, porque é preciso ler um signo, e outro signo, e outro signo. Ao passo que decifrar uma imagem é algo absolutamente imediato e instantâneo. Este é o ponto para mim. Por mais que haja, como sabemos, uma quantidade de informação e de textos que circulam na rede de maneira incrível, sempre haveremos de esperar o tempo necessário para ler uma página e depois outra. E não conseguiram fazer nada a este respeito, colocar-nos um chip. Vocês devem se lembrar da idiotice dos institutos de leitura dinâmica. Em Buenos Aires havia muitos. Tranquilamente te ensinavam a ler como Macedonio Fernández: um leitor salteado, você salta uma parte e vai mais rápido, mas isso não quer dizer nada.

Paul Firbas O leitor salteado, digamos, é muito eficiente agora com a máquina.

Ricardo Piglia É o leitor atual.

Paul Firbas Além do quê, o computador lhe permite saltar a lugares concretos. É assim que lemos todos quando estamos em busca de uma informação. Acho que já são poucos os que leem a página toda, é uma forma de ler que vai se perder. Macedonio se impôs.

Ricardo Piglia Quer dizer, poucos alteram a velocidade, se partimos da hipótese de que, não importa a quantidade de textos que leiam, a leitura lhes tomará um certo tempo, que é um tempo que depende do corpo e da relação entre a linguagem e a temporalidade. A linguagem nos ensina o que é o tempo, afinal nos ensina, antes de mais nada, a articulação verbal, e, portanto, trata-se de uma experiência com as relações que temos com a temporalidade; e, por outro lado, com o relato, que seria o próprio exemplo desse procedimento. Então, a relação entre o tempo e a linguagem pode ser acelerada ou mudar do ponto de vista da difusão, distribuição e circulação dos textos. Mas é muito difícil modificar a relação que podemos ter com a linguagem, em termos, para nós, da leitura.

Pedro Meira Monteiro Ricardo, quando você postula as coisas assim, isso significa que você se aproxima de uma sacralização da leitura, não é? De alguma forma, sigo com minhas preocupações pedagógicas. Às vezes, tenho a fantasia de que o que ensinamos, ou tentamos ensinar, é a ler, ou seja, tentamos oferecer aos alunos uma espécie de marco contra-ideológico da leitura, o que significa roubar tempo da máquina produtiva e dá-lo à leitura, à aula etc. E o que você propõe talvez seja uma sacralização deste espaço contra-ideológico, o que é um problema fascinante.

Ricardo Piglia Lembrei agora de algo que dizia Bellow e que confirma o que você está dizendo. A arte é uma pausa, um momento de pausa, e por isso se parece à oração, dizia ele. Há algo disso, no sentido do tempo que faz falta, essa espécie de tempo pessoal, diria; porque é possível achar muitas relações nesse momento em que a leitura ocupa um espaço determinado. Por um lado, está o que também Benjamin percebeu muito bem, o que ele chama de “percepção distraída”, o modo de percepção do sujeito contemporâneo. Não é que nós não funcionemos com a percepção distraída. Sempre conto que, quando fui ver Manuel Puig, ele estava na cozinha de sua casa vendo uma telenovela, escrevendo e falando com sua mãe, que estava cevando um mate para ele, uma cena totalmente contrária à cena de escrita que encontramos em Flaubert, em Faulkner, em Hemingway ou em quem quer que seja. Estava na escritura distraída. Minha ressalva é que, se pudéssemos deixar claro que a leitura da literatura supõe um – não sei bem como chamá-lo – artesanato, uma qualidade que também permite ler bem qualquer outro texto, sem que nos detenhamos ao registro literário, mas que existe aí uma forma particular de decifrar o sentido, se o que ensinamos é este procedimento de leitura, o sujeito poderá ler muito bem a publicidade, os discursos políticos, tudo o que está na rede. Esse seria o modo mais elegante, mais sutil, de praticar esta arte de uma temporalidade pessoal que não faz outra coisa que repetir uma experiência de longuíssima duração que consiste em ler um signo depois de outro, e que é algo que não foi possível mudar, seja quando lemos um e-mail ou qualquer outro tipo de texto.

Fermín A. Rodríguez Não há aí uma utopia de um tipo de palavra capaz de intervir no presente, como uma pontada de duração? E volto à questão da assinatura, que seria o momento em que a escrita toca o presente, quando a matéria da escrita é o presente da presença. Não há aí uma relação do romance ou da escrita com o presente, e a velocidade da escrita que, na verdade, só poderia dizer no presente: “eu, aqui, agora, escrevo-assino”?

Ricardo Piglia Sim. Isso é a lírica. A lírica é “eu estou aqui e vejo”, e podemos dizer também “e escrevo”. Ela trata de captar o presente. Este é outro assunto. A relação com o presente, eu a vejo mais, se me perdoam a citação, na linha do intempestivo de Nietzsche. Está no presente aquele que não está no presente, aquele que tem com o presente uma relação de distância e de pensamento. Do contrário, seria fácil estar no presente. Das duas uma: ou estar no presente é uma condenação que não podemos evitar, e certamente é assim, então somos sempre homens do presente ainda que queiramos evitá-lo, como muitos amigos que tratam de ser aristocratas do século 18 – conhecemos vários deles –, que tratam de ver se podem ser considerados homens finíssimos, que funcionam em um tempo próprio; ou há aqueles que tratam de mudar rapidamente para ver se o presente não lhes escapa. Este seria um modo espontâneo de estar no presente. Ou então teríamos de pensar o que significa estar no presente. César Aira, por exemplo: você acha que Aira está no presente? Agora sou eu quem lhe pergunta, Fermín, agora eu o interrompo, falo de suas referências.

Fermín A. Rodríguez A fuga para a frente dos romances de Aira e esse mito de escrita do escritor que “não corrige”, dissolvendo, relaxando a mediação da forma, parece que tem a ver com essa velocidade da escrita – uma aceleração que, distanciando-se da “lentidão” reflexiva, busca a utopia de parear escrita e pensamento. Estou pensando que sua resposta nos anos 1980 à questão de relatar os fatos, de forma tática, foi: não é possível, é preciso fazê-lo de outro modo, construir mediações, dar-lhes forma. Me pergunto se você ainda daria essa mesma resposta.

Ricardo Piglia nasceu em Adrogué, na província de Buenos Aires, em 1940. Foi professor de filosofia na Universidade de Londres e professor emérito da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, além de crítico literário e ficcionista, reconhecido internacionalmente como um dos maiores nomes da literatura contemporânea. Faleceu em 2017.

 

Meios e Finais – Conversas em Princeton

Ricardo PigliaOrganização e prefácio de Paul FirbasTradução de Marina BedranEditora e-galáxiaSelo Peixe-elétrico Ensaios68 páginasLançamento previsto para 16 de março

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