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‘Os discos do crepúsculo’


O ‘Nexo’ publica trecho inédito do novo livro de Cadão Volpato, que explora o ambiente musical a partir dos anos 80, em São Paulo e no mundo

Levamos um mundo novo em nossos corações

No encarte de “Amigos em Portugal”, o disco do Durutti Column gravado em 1983, há os seguintes dizeres em português: “Música escrita e interpretada por Vini Reilly.  Gravado e misturado nos estúdios Valentim de Carvalho de Paço-d’Arcos, por Tó Pinheiro da Silva e José Valverde. Retratos de Mark Warner e imagem de Miguel Esteves Cardoso. Obrigado, Miguel, Ricardo, Chico, Pedro,Tó e José”.

Poucas pessoas no mundo ouviram “Amigos em Portugal” (foram lançadas apenas 4 mil cópias em vinil). Não muitas pessoas no mundo conhecem The Durutti Column, a banda de Manchester inventada em 1978 por Tony Wilson, o fundador do selo Factory, o mesmo do Joy Division e de outras bandas que nasceram depois do show histórico dos Sex Pistols na cidade, em 4 de junho de 1976. “The Return of the Durutti Column” foi o primeiro lançamento da Factory.

O Durutti Column tem dois membros permanentes: o guitarrista Vini Reilly e o baterista Bruce Mitchell. Vini sofria de anorexia nervosa e estava muito doente quando gravou “The Return of the Durutti Column”. Bruce foi baterista de jazz e costumava se apresentar de terno claro e gravata borboleta. Tocava com vassourinhas, quase sempre de olhos fechados, e de vez em quando punha um cravo branco na lapela.  

“Vini continua doente do seu jeito proustiano... Às vezes você tem que falar com ele antes das cinco, porque é o horário em que ele come”.  Quem disse isso foi Tony Wilson, que o protegeu até morrer, em 10 de agosto de 2007.

O primeiro disco do Durutti Column vinha dentro de uma capa de papel de lixa. A ideia era destruir os vizinhos de prateleira. Tanto a capa quanto o título –“The Return of the  Durutti Column” – foram inspirados pela Internacional Situacionista, um agrupamento revolucionário de intelectuais de esquerda insatisfeitos com o marxismo ortodoxo. Foi fundada em 1957 e extinta em 1972.

A coluna em questão é a Coluna Durruti (não “Durutti”), de Buenaventura Durruti, o grande anarquista da Guerra Civil espanhola, morto de forma misteriosa no início do conflito. “Llevamos un mundo nuevo en nuestros corazones”, dizia Durruti, mecânico de profissão.

Ao morrer, atingido talvez pelo disparo acidental do fuzil-metralhadora que carregava, um velho “Naranjero”, Durruti deixou um binóculo, um par de alpargatas, duas pistolas e uma muda de roupas de baixo como herança. Nasceu em 14 de julho de 1896, em Léon, e morreu em Madri em 20 de novembro de 1936.

A música do primeiro disco do Durutti Column unia as guitarras sem distorção – afiadas mas contemplativas e melancólicas – de Vini Reilly, aos sintetizadores frios e baterias eletrônicas primitivas programados pelo produtor Martin Hannett.  

Esses dois mundos definiriam a música do DC nos quase trinta discos gravados nas décadas seguintes. No entanto, Martin nunca mais trabalhou com Vini.

O segundo disco do Durutti Column se chamaria “LC”, uma citação do grupo ultraesquerdista italiano Lotta Continua. Como no caso anterior, a revolução de Vini Reilly eram as guitarras (“Uma pequena e misteriosa nuvem branca, constituída de cristais de gelo em suspensão no oxigênio úmido, atravessando devagar a terra desolada e barulhenta do punk na companhia de um velho baterista de jazz e de algumas quinquilharias eletrônicas”, de acordo com a extravagante definição de um crítico da Mojo). Uma revolução de veludo. Paradoxalmente, Vini tinha sido guitarrista de uma banda punk. Agora, era melancolia em estado bruto.

“LC” foi gravado num porta-estúdio de quatro canais, depois da meia-noite, no quarto de Vini. A mãe dormia no aposento ao lado. Depois, Bruce adicionou as baterias e os ritmos eletrônicos, enquanto Vini colocava alguns vocais em parte do material. Em 48 horas, o “disco do quarto” estava pronto.

“Amigos em Portugal” é o quarto LP do grupo, gravado pelo selo Fundação Atlântica nos estúdios Valentim de Carvalho. O escritor Miguel Esteves Cardoso era um dos sócios da Fundação Atlântica. O nome de uma das músicas, “Sara e Tristana”,  vem das filhas gêmeas de Miguel Esteves Cardoso, que tinham mais ou menos 2 anos na época. Esteves Cardoso escreveu que Vini era uma “escultura fraturada de Giacometti”.

O engenheiro de som Tó descreveu assim  a gravação: “Vini Reilly, esse puto frágil que parecia a ponto de se quebrar, chegou ao estúdio perto das nove da noite. Saiu às duas da manhã com um álbum inteiro pronto. Ninguém acreditou no que viu. Ele emendava os temas um após o outro, músicas maravilhosas que pareciam ter saído do País das Coisas Perdidas”. 

O disco tem um lado de canções com títulos em português e outro de canções com títulos em inglês, dedicadas a Jaqueline, namorada de Vini na época. “Amigos em Portugal”, “Menina ao Pé duma Piscina”, “Lisboa”, “Sara e Tristana”, “Estoril à Noite”, “Vestido Amarrotado” e “Saudade” são as canções com título em português.

Amigos e namoradas dão nomes às músicas de Vini. São pessoas que gostaríamos de conhecer: Pauline, Jaqueline, Katharine, Madeleine, Zinni (a filhinha de Bruce Mitchell), Frazier, Danny, Paul, Patty, Mimi (a professora de violão), Collette, os amigos belgas e os amigos em Portugal. “Otis” é Otis Redding, o cantor de soul, sampleado numa das canções mais famosas do Durutti Column.

Os olhos azuis de Vini Reilly poderiam ter feito dele um astro dos adolescentes, se fosse pela vontade de Tony Wilson.

“Aprendi artes marciais com três amigos das forças especiais de Israel. Eles me ensinaram coisas que são usadas apenas no exército. Eu tinha uma arma (uma pistola 8 mm). Era perigoso”.

Vini sofria de depressão desde os 15 anos. Para fazer os shows, era arrastado por Bruce. “Aqueles 70 minutos no palco consistiam do seguinte: Vini mudando a ordem das músicas que a gente havia ensaiado; brigando com a afinação dos instrumentos e com as máquinas; rindo da bagunça que estava causando; mas sempre tocando aquelas peças com guitarra e teclado que estavam muito além de qualquer coisa que eu já tivesse ouvido”.

Um homem-criança de cabelos de Beatle. Um antigo arruaceiro de Manchester. Unhas pintadas de azul. Três tentativas de suicídio. 

Em janeiro de 2013, um sobrinho de Vini Reilly apareceu na internet pedindo donativos para o tio. Vini precisava de dinheiro para alimentação, água e eletricidade.

Num mesmo dia foram arrecadadas três mil libras. A bondade de estranhos o comoveu.  “Tirou o peso do mundo dos meus ombros”. Ainda assim ele pediu que parassem de mandar dinheiro, pois já era suficiente.

Tinha sofrido três derrames. Comer sempre fora uma dificuldade. Nos tempos antigos, tomava Prozac e Stellazin, um tranquilizante pesado. Fez a terapia do grito primal, chorando e gritando durante horas. Agora, em decorrência dos derrames, havia perdido todos os dentes.

“Tem alguma coisa que eu possa trazer pra você?”, pergunta o velho Bruce, que cuida dele até hoje.

“Sim, uma namorada”.

O Durutti Column fez uma breve última aparição em 2014, tocando diante de um vitral, no que parecia ser uma igreja. Caiu bem, são anjos. Era uma noite de sábado. Vini não solou, mas seus acordes ainda pertenciam a outro mundo. Bruce usou um tapa-olho, e as vassourinhas.

 

Cadão Volpato é escritor, músico e desenhista. Fez seis discos com o Fellini, um com o Funziona Senza Vapore, outro solo. Cinco livros de ficção. Uma série de desenhos que ainda vai acabar numa galeria: Deslocamentos.

 

OS DISCOS DO CREPÚSCULO

Cadão VolpatoNuma Editora190 páginas Lançamento previsto para janeiro

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