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‘Mas você vai sozinha?’


O ‘Nexo’ publica trecho inédito do novo livro de Gaía Passarelli, que traz a perspectiva de uma mulher viajando sozinha pelo mundo a partir de relatos da autora

A primeira vez em que ouvi isso foi viajando em grupo para a Europa com a Tia Augusta, tradicional mochilão da classe média paulistana. Empolgada por estar na terra das minhas bandas favoritas, dispensava os passeios para explorar sozinha cidades que eu só conhecia de revistas. Em Londres, peguei o Tube, comprei roupas em mercados de rua em Portobello, tomei ecstasy pela primeira vez e mandei meu primeiro cartão-postal para casa. “E você foi sozinha?”, me perguntaram várias vezes. Sim, eu fui e continuo indo.

Algumas histórias deste livro têm companhia. Mas não estou só quando digo que não tenho, não quero e não preciso de companhia o tempo todo. Viajar sozinha é um grande negócio e tem até um nomegringo: “solo travel”.

É verdade que numa viagem solo a gente sente falta de ter alguém para rir junto, pedir opinião ou dividir uma taça de vinho. E dá muito valor quando tem uma pessoa ao seu lado depois. Mas também é verdade que a gente descobre que a nossa própria companhia, na maior parte das vezes, é mais do que suficiente: é ideal.

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A não ser que você tenha tempo de carreira suficiente, cobrir um festival de música para um canal de televisão não é exatamente ficar em hotéis chiques e ter um estoque infinito de Evian gelada à disposição. Na verdade, é comer tacos frios no food truck mais próximo e pedir recibos em branco para o taxista ao final da corrida.

Foi nisso que pensei enquanto lutava contra o sono lá pelas duas da manhã, num clube de striptease qualquer de Austin. Eu não dormia há umas trinta horas.

Meses antes, tinha investido minhas parcas economias em passagens, estadia e ingressos para o South by Southwest, festivalzão de cultura e tecnologia no sul dos EUA. Já tinha o esquema pronto: ingresso, passagens, hotel, mapas, contatos, documentos. Uma vez em Austin, veria shows durante o fim de semana principal do festival. Depois pegaria um carro e dirigiria até o deserto.

Mas, como acontece em viagens fechadas com antecedência demais, tudo mudou. Nos poucos meses entre pensar a viagem e viajar mesmo, eu tinha conseguido um novo emprego de apresentadora da MTV brasileira, e - no ímpeto de mostrar serviço - sugeri que a emissora me acompanhasse na jornada. Assim, minha viagem solo virou uma semana correndo atrás de bandas e explicando que no Brasil a MTV ainda tinha música na programação.

 A emissora selecionou a única pessoa louca o suficiente para encarar a viagem com uma apresentadora inexperiente cobrindo um festival de música do tamanho do SXSW: Mariana Metri, diretora, produtora, câmera, sonoplasta e terapeuta de VJ em tempo integral. Nós estávamos trabalhando juntas havia dois meses, criando o Goo MTV, programa de música alternativa da emissora. Não só fizemos amizade como também estávamos totalmente apaixonadas pelo trabalho - a MTV Brasil realizava esse feito de deixar as pessoas profundamente envolvidas na missão.

 O primeiro sinal de que eu não tinha a menor ideia do que estava fazendo veio já na entrada dos EUA, no aeroporto de Dallas Forth Worth. O agente da imigração quis saber por que duas garotas brasileiras estavam entrando no país com equipamentos de filmagem. Não era exatamente um setup discreto, mas sim uma porção de malas e cases com microfones, equipamentos de luz e afins. Ainda no Brasil, perguntei à emissora se era mesmo necessário levar tudo aquilo, mas só ganhei um “precisamos de qualidade de imagem” como resposta. Estava bom para mim, mas explicar a questão da qualidade de imagem para o agente da imigração era outra história. O logotipo da MTV em todos os cases dava uma espécie de respaldo profissional, mas também denunciava que estávamos nos EUA a trabalho. Precisaríamos de um visto específico. Improvisei, insistindo que a empresa era brasileira (verdade), que tínhamos as credenciais confirmadas (verdade de novo) e que não veicularíamos ou receberíamos pelo trabalho nos EUA (verdade também). Levou duas horas e uma crise de choro, mas deu certo.

No começo da manhã, pousamos em Austin com tempo suficiente para passar no hotel, lavar o rosto, montar o equipamento e correr para a primeira entrevista. Era um rapaz super tímido com óculos redondos, eminente destaque da cena “chillwave”. Deu mais ou menos certo, porque estávamos sem microfone. O resto do dia foi uma sequência de pequenos desastres similares, que eu e a Mariana contornamos com bom humor e boa vontade. Durante o papo com uma banda finlandesa de nove integrantes, o vocalista dançou em cima da mesa. Descemos ao subsolo de um boteco com uma artista gótica mexicana para conversar entre os barris de cerveja. Fumamos um baseado no terraço de uma casa de shows, com um grupo de rap latino-árabe-hispânico. E era só o primeiro dia.

Por volta das dez da noite, o cansaço bateu. Só que ainda precisávamos encarar uma última entrevista antes de voltar ao hotel. A essa altura, a locação distante e a falta de táxi disponível parecia razão suficiente para esquecer o assunto e mandar um e-mail falando “mal aí, não deu”. Mas não para Mariana. “Nunca. Isso não se faz.”

Andamos por dezesseis quadras enfrentando o vento gelado. O tal último bar da noite aparentemente era o último bar da cidade e ficava fora da região do festival, numa área quase residencial. Era uma casa de esquina, de aparência suspeita, com as luzes apagadas. Chegamos cedo demais, claro. Mas demos a sorte de encontrar o entrevistado na porta: Sean Tillman, o Har Mar Superstar. Ao contrário da maior parte dos artistas que estávamos conhecendo no SXSW, Tillman já tinha uns bons dez anos de carreira, três discos lançados e apresentações em festivais grandes na Europa. E nem se abalou ao dar entrevista para duas brasileiras cansadas e meio bêbadas no meio da calçada. Com barriga proeminente, a minha altura e cabelos ralos, Tillman é a essência da discrição e gentileza. Mas na época, sua persona de palco, o Har Mar Superstar, era outra história: um cara lascivo, pronto para tirar o roupão, jogar cerveja no próprio peito e cantar sobre conquistas sexuais. O show tinha dançarinas. Ele prometeu cenas de sexo no palco. Não podíamos ir embora sem filmar.

Uma vez lá dentro, o local era exatamente o que você espera de um puteiro capenga, incluindo carpete nas paredes, banquinhos dourados e néon. Pedimos duas cervejas e esperamos. Sean/Har Mar sumiu atrás do palco, que não estava montado. Não havia ninguém na casa. De alguma forma, conseguimos mais umas cervejas. Passou uma hora e chegaram alguns gatos pingados com cara de amigos da banda. A equipe começou a montar o setup, que consistia em luzes e um boom box para Har Mar cantar por cima. Retoquei o batom, pensando que o dia seguinte seria mais ou menos igual e que a primeira entrevista era por volta das dez da manhã, num parque ao ar livre em outra parte de Austin. Troquei a cerveja por uísque. Chegou mais gente. De repente o local perdeu o clima caído e se tornou uma casa noturna intimista, brilhante e animada, com um monte de gente rindo e dançando. Faltava a estrela da noite subir no palco.

Mas Har Mar Superstar não daria o ar da graça até o lugar estar lotado, mesmo que tivesse que esperar até as duas da manhã. Foi o que fez. E por que seria diferente? Ao contrário da repórter cansada, a chance era de que nenhuma daquelas pessoas tivesse saído de São Paulo com parada na segurança do Dallas Forth Worth e entrevistado artistas independentes de nacionalidades variadas durante todo o dia. Nem teria que repetir a experiência no dia seguinte. Eu só queria dormir, mas esse problema era só meu.

Só meu mesmo, porque Mariana nem se abalou. A mulher era a heroína do esforço de reportagem. Andava pelo lugar com a pesada câmera de televisão no ombro, experimentando planos e fazendo amizade com as pessoas. Meia hora antes de Har Mar dar o ar da graça, ela já estava pronta para filmar. Eu, que não precisava aparecer no vídeo, me arrastei até o lugar que parecia mais discreto e protegido da loucura “kitsch” vigente: um cantinho entre a beira do palco e uma mesa. No chão. Com a cabeça em cima da mochila e fazendo a jaqueta de cobertor. O cansaço, depois de um certo ponto, faz a gente perder o medo. Qualquer canto serve para dez minutos de cochilo, mesmo que um homem careca e peludo vestindo uma diminuta sunga verde brilhante esteja a meio metro de você, cantando sobre amor verdadeiro para duzentas pessoas suadas.

Meio dormindo debaixo da mesa, com a maquiagem borrada e com vergonha do próprio desânimo, entendi que meu novo trabalho requereria muito mais jogo de cintura do que eu tinha imaginado. Essa semana em Austin seria uma lição prática sobre contornar dificuldades, não quebrar sob pressão e, claro, aprender a me manter acordada sem usar drogas.

Voltei para casa com vinte entrevistas, um par de botas de cowboy velhas, ressaca para uma semana e os dedos das mãos tatuados: “true grit”.

 

Gaía Passarelli é escritora de viagem e tem uma longa carreira na mídia brasileira. Vinda do jornalismo musical, foi VJ da “MTV Brasil” por três anos e continuou como apresentadora em projetos para o “Google”, “Rede Cultura” e “grupo Abril”. Atualmente,  é uma das hosts do canal sul-americano “3 Travel Bloggers” no YouTube. Como articulista, Gaía escreve para publicações como “Matador Network” e “Revista TPM”. Seu principal projeto é o “How To Travel Light”, seu blog sobre solo female travel, literatura de viagem e roteiro cultural de São Paulo.

 

MAS VOCÊ VAI SOZINHA?

Gaía PassarelliIlustrações de  Anália MoraesGlobo Livros176 páginasLançamento previsto para setembro

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