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O jornalista e editor Bruno Rodrigues indica livros de escritores aclamados que abordaram o esporte em suas obras

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“Olá, boa tarde. Onde fica a seção de futebol?” Feita a pergunta ao entrar na livraria, somos guiados a algum canto poeirento, próximo aos banheiros, no qual será preciso agachar e curvar o pescoço para poder ler as lombadas dos livros. Ou ainda, como aconteceu comigo em Montevidéu, ser levado para trás do balcão onde fica o caixa, justamente no lugar onde fica postado o operador da máquina.

Não adianta, futebol ainda é visto como literatura menor. Mas engana-se quem pensa, por desconhecimento ou preconceito, que a qualidade do que se publica a respeito dele é ruim. Tentar convencer alguém disso com autores de nicho, conhecidos apenas dos iniciados, talvez não seja o melhor argumento. Mas e se eu disser que autores que vocês talvez já tenham lido escreveram (e muito bem, por sinal) sobre o esporte?

Abaixo, minha singela contribuição à seção “Favoritos” do Nexo. Que desfrutem das leituras.

O futebol

António de Alcântara Machado, Lima Barreto e Mário de Andrade (Edições Barbatana, 2016)

Sim, pois é. Três baluartes da literatura brasileira emprestando suas rubricas ao relato do esporte bretão. Nesta antologia, a Barbatana Edições extrai de “Brás, Bexiga e Barra Funda” contos de António Alcântara Machado a respeito do tema – um deles narra uma vitória do Corinthians sobre o Palmeiras nas primeiras décadas do século 20. De Mário de Andrade, há o trecho em que discorre sobre o futebol em “Macunaíma”, além de uma bela crônica, publicada no Estado de S. Paulo, na qual relata uma derrota do Brasil para a Argentina em 1939.

Lima Barreto também se presta a falar dofootball”, mas, fato a se lamentar, era um opositor do que depois se chamou de paixão nacional. Em seus textos, é notável a disposição com que maldiz o nobre esporte inventado pelos ingleses.

Entre os vândalos

Bill Buford (Trad. Júlio Fischer, Companhia de Bolso, 2010)

Muito antes de desbravar o interior das cozinhas francesas, como no livro “Cinco anos em Lyon”, o escritor norte-americano Bill Buford nos brindou com a intimidade de um grupo violento de torcedores de futebol. Na obra “Entre os vândalos”, publicada em 1992, o autor, infiltrado, investiga os motivos que levam os jovens ingleses a se tornarem hooligans e seus comportamentos enquanto coletivo.

A conclusão foi que, ao lado dos colegas de arquibancada, o torcedor deixa seu caráter individual e passa a formar parte da massa, o que lhe dá uma presumível sensação de anonimato. Ótima literatura e fundamental para o entendimento do hooliganismo, fenômeno que esteve no centro da pauta do futebol inglês nas décadas de 1980 e 1990.

Dios es Redondo

Juan Villoro (Anagrama, 2006)

Celebrado como um dos principais escritores mexicanos de sua geração, Juan Villoro é simplesmente doente por futebol. Nesta coletânea que reúne sua rica produção futeboleira, o autor discorre sobre essa religião laica que enche os estádios pelo mundo e que, apesar de praticada há mais de um século, ainda produz estranhamento em quem teima negar sua importância social.

Os textos de “Dios es Redondo” exploram diversos momentos da carreira de Villoro, como: o período em que foi correspondente na Copa do Mundo de 1998, na França; uma homenagem ao jogador Diego Armando Maradona; crônicas sobre o futebol espanhol do início deste século (escritas no período em que o autor viveu na Espanha e se encantou pelo Barcelona); e uma deliciosa entrevista com o ex-jogador Jorge Valdano.

Febre de bola

Nick Hornby (Trad. Christian Schwartz, Companhia das Letras, 2013)

O leitor que não é aficionado por futebol talvez conheça Nick Hornby por “Alta fidelidade”. A obra, publicada em 1995, foi um sucesso de vendas e teve êxito também em sua adaptação para as telonas, estrelada por John Cusack. Contudo, quando publicou “Alta fidelidade”, Hornby já era um autor best-seller graças ao seu primeiro livro, “Febre de bola”, romance autobiográfico de 1992 que deu início à sólida carreira do autor.

Fanático pelo Arsenal, Hornby conta como essa paixão foi o fio condutor de boa parte de sua vida, a ponto de torcer para que casamentos, comemorações de família ou qualquer outro evento social não conflitassem com o dia de jogo da equipe. Se quem leu a obra não futebolística do autor gosta de sua escrita, não há razão para não gostar de “Febre de bola”. Afinal, Hornby é um autor consagrado porque escreve bem, mas lembrem-se: ele escreveu primeiro sobre futebol.

Home and Away: Writing the Beautiful Game

Karl Ove Knausgaard e Fredrik Ekelund (Farrar, Straus and Giroux, 2017)

Se o norueguês Karl Ove Knausgaard tivesse escrito um livro sobre a vida das baleias cachalotes no mar que banha a cidade de Tromso, norte da Noruega, o título provavelmente já teria sido publicado em uma série de idiomas e, claro, em português. Sua obra futeboleira, contudo, é apenas um sinal distante em meio às turbulentas águas do mundo editorial.

Em “Home and Away”, Knausgaard troca cartas (e-mails, na verdade) com Fredrik Ekelund durante a Copa do Mundo de 2014, sediada pelos brasileiros. Sueco, Ekelund é um apaixonado pelo Brasil, tendo inclusive publicado um livro sobre nosso futebol. Profundo conhecedor do país, ele escreve do bairro carioca Botafogo, da casa de um amigo que o hospeda durante a disputa do Mundial, enquanto Knausgaard escreve da Suécia, onde vivia com a família na época.

Ao trocarem mensagens, os dois compartilham não apenas impressões interessantes sobre o torneio ou sobre o futebol em geral, mas discutem a vida e a morte, depressão e bipolaridade, a política brasileira, paternidade, o feminismo sueco e uma série de outros assuntos interessantes que, colocados de forma leve ao longo das cartas, oferecem uma leitura prazerosa que percorre a última Copa disputada no Brasil. Knausgaard, surpreendentemente, torceu pela Argentina, que para uma alegria quase geral por aqui (da qual não comungo), perdeu a final no Maracanã.

Bruno Rodrigues é jornalista. Formado pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), é repórter na Folha de S.Paulo e editor na Grande Área, editora especializada em livros de futebol.

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