Foto: Divulgação

A atriz Maria Manoella indica livros de autoras da América Latina que tratam de temas como maternidade, pobreza e questão racial em suas obras

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Nos últimos dois anos, tive um amplo período de exílio ao emendar a maternidade ao cotidiano pandêmico. Nessa fase não por acaso busquei vozes femininas na literatura que me fizessem companhia como as amigas próximas que não pude encontrar como antes. Me conectei profundamente lendo essas autoras, e embora suas escritas por vezes soassem duras, me emocionei e me reafirmei como artista, mãe e filha, mas, sobretudo, como mulher.

Temporada de furacões

Fernanda Melchor (Trad. Antônio Xerxenesky, Mundaréu, 2021)

A partir da morte da personagem Bruxa, polêmica curandeira que é encontrada boiando no rio da cidade de La Matosa, a narrativa acompanha diferentes pontos de vista a cada capítulo. Narrada em terceira pessoa, a história mistura passado, presente e fluxo de consciência, em ritmos e vozes distintas. Com uma trama impiedosa, a mexicana Fernanda Melchor, finalista do International Booker Prize 2020, discorre sobre homofobia, violência, superstição e pobreza, evocando os furacões frequentes na região, através de personagens vertiginosos. Definitivamente o meu tipo de livro.

Contra os filhos

Lina Meruane (Trad. Paloma Vidal, Todavia, 2018)

Nesse divertido e polêmico ensaio, que remete a uma espécie de palestra, a chilena Lina Meruane questiona o atual modelo de maternidade: voltado ao retorno da mulher ao lar e que retoma moldes antigos e conservadores equivalentes a recuar dez casas em um jogo de tabuleiro. Um livro sobre o retrocesso.

Morra, amor

Ariana Harwicz (Francesca Angiolillo, Instante, 2019)

Aqui, a argentina Ariana Harwicz também parte do mote da maternidade e do casamento para conduzir sua prosa, levando o leitor a um lugar de tormento e ruptura da liberdade, convertendo o ideal de família numa prisão claustrofóbica. A protagonista vive na zona rural da França com seu marido, filho e cachorro, e tem uma clara inaptidão para a vida familiar. Além da questão da maternidade, o livro discute mais profundamente a temática do estrangeiro inadequado em sua nova morada.

Os tais caquinhos

Natércia Pontes (Companhia das Letras, 2021)

A autora cearense Natércia Pontes entrega uma narrativa de dor e secura sobre o amor entre duas irmãs, e suas jornadas rumo à vida adulta. Uma obra sobre construção de memória e afeto entre baratas, jornais velhos e acúmulos. Um livro sobre o doloroso processo de adolescer num ambiente onde sobram mágoas, lixo, e a escassez é profunda.

Cartas a uma negra

Françoise Ega (Trad. Vinícius Carneiro e Mathilde Moaty, Todavia, 2021)

Após ler um trecho do diário da escritora Carolina Maria de Jesus numa revista francesa, a antilhana Françoise Ega se encoraja e começa a escrever cartas para a brasileira. Apesar de nunca enviá-las, Ega narra nas correspondências a sua vivência como faxineira e costureira na cidade francesa de Marselha. Comovente e lírico, o livro discute questões racistas e classistas, e se destaca por tratar de conceitos como alteridade e empatia. Uma joia.

Maria Manoella é atriz de teatro, cinema e TV. Em seus trabalhos no cinema, destacam-se “A mulher invisível”, “A vida invisível” e “Vermelho russ”o. Atualmente está no ar na novela “Além da Ilusão” (Globo) e acaba de filmar o longa-metragem “Enterre seus mortos”, baseado no livro de mesmo nome de Ana Paula Maia, com direção de Marco Dutra.

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