Foto: Reprodução/Arquivo pessoal

A atriz Amanda Lyra indica cinco livros protagonizados por mulheres que fogem do clichê

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Houve um tempo em que as mulheres eram excluídas do centro da ação na ficção, relegadas a papéis secundários. Isso mudou: com o interesse crescente do público por escritoras mulheres, naturalmente as mulheres ficcionais passaram a protagonizar mais e mais livros. Fugindo dos clichês da sociedade patriarcal, ganhamos personagens complexas, dúbias, de caráter duvidoso, independentes de padrões de comportamento. Personagens donas de si, com atitude, que fogem do padrão da mulher frágil, jovem e bonita, dependente do homem para agir no mundo.

A leitura desta seleção de livros escritos por grandes escritoras contemporâneas me proporcionou, como mulher e atriz, o deleite de conhecer e de investigar os possíveis caminhos de construção dessas personagens que fogem dos estereótipos morais e de feminilidade. Personagens que não dependem da minha empatia e identificação, mas que me atraem e instigam a minha imaginação e subjetividade justamente por não serem exemplares.

Açúcar Queimado

Avni Doshi (trad. Adriana Lisboa, Dublinense, 2021)

“Eu estaria mentindo se dissesse que o sofrimento da minha mãe nunca me deu prazer”. Assim Antara, a protagonista deste livro finalista do Booker Prize, inicia o relato sobre a relação conturbada com sua mãe, Tara. A narrativa une um passado em que Tara abandonou o marido para morar com a filha criança na comunidade liderada pelo guru Osho e um presente no qual sofre de demência. Uma doença que pode fazer com que suas ações caiam no esquecimento, ajudando (ou não) a dar fim aos conflitos e dores dessa relação.

A pediatra

Andréa del Fuego (Companhia das Letras, 2021)

Cecília é o contrário do que se espera de uma pediatra. Ela não gosta de crianças, não tem nenhum espírito maternal, não tem a menor empatia com os pais e mães que frequentam seu consultório. Despreza com todas as forças o parto humanizado, as doulas, as parteiras e ioga para gestantes. Para completar, Cecília começa a ter um caso com um homem casado, cujos filho e esposa são seus pacientes. Del Fuego conta tudo isso com muita ironia e humor.

Garota, mulher, outras

Bernardine Evaristo (trad. Camila Holdefer, Companhia das Letras 2020)

Esta obra vencedora do Booker Prize retrata as vivências e histórias de 12 personagens com raízes de países africanos e caribenhos. O pano de fundo é uma Londres dividida e hostil logo após a votação do Brexit. Evaristo consegue construir uma pluralidade de mulheres interessantes, sem temer tocar em assuntos complexos e dolorosos. Alguns deles pouco explorados na literatura de maneira geral, como relacionamento abusivo entre duas mulheres, não binaridade, triângulo amoroso entre mãe e filha, hiper sexualização de mulheres negras e a sexualidade daquelas que já passaram da chamada meia-idade.

Não aceite caramelos de estranhos

Andrea Jeftanovic (trad. Luis Reyes Gil, Mundaréu, 2020)

Quase todos os 11 contos do livro são estruturados em torno de personagens complexas e ambíguas, que desconstroem sensos comuns e noções morais. A literatura desta escritora chilena se insere num espaço entre o familiar e o incômodo, aproximando os dois por meio das pulsões de sexo e morte de seus personagens. Essas forças atravessam todos os contos em diversas manifestações, como incesto, traumas, abusos e solidão, mas também se expressam em forma de amor, ternura e desejo.

Olive Kitteridge

Elizabeth Strout (trad. Sara Grünhagen, Companhia das Letras)

Prêmio Pulitzer de Ficção em 2009, o livro entrelaça 13 histórias em uma cidade pequena na costa leste norte-americana. Olive Kitteridge, professora de matemática aposentada, nem sempre está no centro da ação, mas é o elo entre todas as histórias. Ela é ríspida com a família e, principalmente, com a futura nora. “Você sempre consegue fazer as pessoas se sentirem terríveis”, ouve do próprio filho. Ao mesmo tempo, Olive tem compaixão por pobres coitados e se ressente da distância que criou com a família. Uma mulher que poderia ser odiável, mas com quem nos identificamos numa mistura de atração e repulsa que diz muito sobre as relações sociais contemporâneas.

Amanda Lyra é atriz de teatro, cinema e televisão. Formada pela Escola de Arte Dramática da USP, foi indicada aos prêmios Shell, APCA, APTR(RJ) e Aplauso Brasil. Ganhou o Prêmio Questão de Crítica (RJ) com o espetáculo Quarto 19. Em seu trabalho no teatro destacam-se, além do monólogo Quarto 19, as peças Língua Brasileira, direção de Felipe Hirsch com músicas de Tom Zé, Mãe Coragem, com direção de Daniela Thomas e Fim, também dirigida por Felipe Hirsch. Seu último trabalho no cinema foi o longa metragem Tia Virgínia, dirigido por Fábio Meira, com estreia prevista para o segundo semestre de 2022.

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