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O professor e pesquisador Thiago Allis indica livros sobre mobilidades turísticas a partir de uma perspectiva sócio-histórica

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Falar de turismo, por um lado, pode parecer óbvio, tendo por referência experiências e desejos pessoais, representações midiáticas ou práticas comerciais. Ainda assim, o mundo das viagens e, em particular, do turismo, encobre um amplo conjunto de críticas, possibilidades e projeções, tanto como objeto de estudo acadêmico, quanto como prática social contemporânea.

Como pesquisador e professor, minha aposta tem sido reconhecer e tratar o turismo como uma entre as muitas manifestações das mobilidades – e também imobilidades! – de pessoas, objetos, imagens, mensagens, modelos, etc. Por isso, esta seleção de livros – acadêmicos ou não – oferece um fio de leitura sobre a constituição deste fenômeno numa perspectiva sócio-histórica e simbólica, mesmo para quem não é iniciado no assunto.

O olhar do turista: Lazer e viagens nas sociedades contemporâneas

John Urry (Trad. Carlos Eugenio M. Moura, Studio Nobel/SESC, 1996)

John Urry, com atenção de sociólogo viajante, dedicou-se a uma análise sobre a constituição do mundo dos lazeres na esteira da complexificação do capitalismo industrial e além dele. Nas suas três edições (1990, 2002 e 2011), a obra foi gradativamente ampliando um enfoque essencial: o “olhar de turista” produz e também resulta de um intrincado emaranhado de mobilidades – inclusive aquelas que parecem desconexas do mover-se por prazer, como as migrações. De maneira quase premonitória, a edição de 2011 traz um alerta-conselho: “precisamos repensar este ‘olhar exótico’ do turismo e [estimular um] ‘olhar local’, que mantenha as pessoas no lugar em vez de perambulando a esmo pelo mundo”. Para alguns, isso é um pensamento contraintuitivo sobre a própria natureza do turismo; para outros, uma advertência sobre os desdobramentos das explosivas mobilidades turísticas que herdamos do século 20.

Sociologia do turismo: Para uma nova compreensão do lazer e das viagens

Jost Krippendorf (Trad. Contexto Traduções, Aleph, 2001)

Quando falar em sustentabilidade ainda não era uma prática plenamente difundida, o economista suíço Jost Krippendorf sistematizou críticas contundentes à insustentável “maquinaria das férias”, especialmente nas sociedades industrializadas do norte global. Ainda que de maneira generalista, o livro também traz uma longa lista de “teses para a humanização das viagens”. Entre elas: “aprender a viajar” com consciência, conciliar necessidades de visitantes e visitados e, por mais que pareça contraditório, “viajar com menos frequência e até ficar em casa de vez em quando”. Tudo que, num mundo mergulhado em profunda encruzilhada climática, deveria se seguir sem mais demora.

L’idiot du voyage: Histoires de touristes

Jean-Didier Urban (Editions Payot & Rivages, 1993)

Numa primeira olhada, o livro pode insinuar uma crítica rasa à figura do turista moderno. Contudo o que se propõe é uma discussão sincera sobre a formação de gostos, vontades e práticas desse sujeito. Jean-Didier Urbain, pela vertente antropológica, ilumina debates sobre reações antiturismo (por vezes injustas), que invariavelmente recaem sobre a figura e a presença do próprio turista. Por seu turno, o “turista do interstício”, na busca de contornar a massificação, investe numa busca dos “prazeres da clandestinidade”, rechaçando, quase ingenuamente, sua própria condição de turista. A obra lamentavelmente não circulou muito no Brasil, mas, depois de quase 30 anos, ainda enseja reflexões absolutamente atuais sobre o turismo contemporâneo.

Livro de viagem

Fernando Pessoa (Guerra e Paz, 2009)

Gosto de acreditar que o mundo das viagens e do turismo pode ser adentrado, desfrutado e entendido a partir de uma ampla gama de referências – inclusive das literárias. “Livro de viagem” reúne parte de passeios ficcionais e existenciais, por onde Pessoa e seus heterônimos viajam e conduzem o leitor a (se) pensar em relação ao mundo. Viagens, afinal, não deveriam servir para isso? Pela verve literária, Pessoa conta de “viagens nunca feitas”, daquelas sem fim (“Cheguei a Lisboa, mas não a uma conclusão") ou de outras apenas sonhadas, afinal é “melhor e mais verdadeiro sonhar com Bordéus do que desembarcar em Bordéus”.

O turista aprendiz

Mário de Andrade (Itatiaia, 2002)

Em estilo narrativa de viagem, “Turista aprendiz” se constitui a partir de anotações e registros fotográficos de viagens feitas por Mário de Andrade ao Norte e Nordeste do Brasil na década de 1920. Na ânsia de encontrar as entranhas da brasilidade, o modernista empreendeu “viagens etnográficas”, cujos relatos são atravessados por um humor sagaz e detalhada observação de manifestações culturais. No prefácio do livro, consolidado apenas em 1943 e nem de longe na lista de suas principais obras, Mário adverte que estava “mais resolvido a escrever do que a viajar”. Muito se estudou sobre as múltiplas facetas de Mário de Andrade, mas sem dúvida sua postura de “antiviajante” é um ponto de partida curioso para quem se coloca na condição de aprendiz de turista.

Thiago Allis é docente e pesquisador da Escola de Artes, Ciências e Humanidades, da USP (Universidade de São Paulo), e se dedica aos temas de turismo, mobilidades e cidades. Como inspiração para tudo isso, pedala sempre e viaja o máximo que pode.

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