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O geógrafo e escritor Jailson de Souza e Silva indica livros que exploram a temática amorosa além da sua concepção universal e homogênea

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Ocorre um fenômeno interessante sobre o amor: ao mesmo tempo em que é considerado um sentimento sublime, aquele que mais dá sentido à vida do indivíduo, ele é tratado, em geral, como uma experiência restrita ao âmbito da subjetividade e do privado. Em verdade, diante de seu impacto sobre as nossas vidas, das representações e formas que adquire nas relações sociais, melhor seria entendê-lo como uma instituição – um elemento mediador das relações do sujeito com o mundo social. Como todas as outras instituições, o amor tem um caráter histórico – já que suas formas se transformam no tempo/espaço – e estruturante, impactando todos os campos sociais. Mesmo em sua expressão aparentemente mais íntima, ele manifesta diversos tipos de marcadores – raciais, culturais, políticos, sociais, econômicos etc.

Outro ponto importante na definição do amor é reconhecê-lo como uma emoção primária que está na base de uma relação amorosa. Ele é um ponto de partida que gera as condições para a construção do vínculo amoroso, que pode ser estabelecido entre duas pessoas ou mais. Todavia, em geral as pessoas não têm essa percepção. Para muitas, o amor é o único elemento substantivo da relação: se ele existe, não é necessário cuidar de mais nada; basta ser fiel ao sentimento, fidelidade geralmente manifesta através do controle e da exclusividade sexual. Isso ocorre porque o amor, na idealização que as pessoas fazem a seu respeito, é representado como uma emoção “total”, que pode sobreviver mesmo sem outros componentes que o sustentem. Para piorar, ele é percebido como uma “coisa”, algo que existe em si, passando por um processo de reificação que interdita sua compreensão sobre aquilo que realmente é: uma relação intersubjetiva e social, experimentado de forma distinta de acordo com a sociedade, com os valores dos sujeitos e com o espírito dominante em cada época histórica.

A fim de contribuir na constituição de outras formas de conceber e experimentar o amor, indico alguns livros que rompem com os juízos mais comuns que se fazem a respeito desse sentimento aparentemente universal e homogêneo.

Por que amamos: o que os mitos e a filosofia têm a dizer sobre o amor

Renato Nogueira (Harper Collins, 2020)

Em seu livro, Renato Nogueira, um pensador negro que constrói sua obra a partir do diálogo com as epistemologias africana e ocidental, mostra de forma sintética e ensaística os “caminhos do amor”. Para isso, ele nos apresenta mitos e eventos que nos permitem olhar para esse sentimento a partir de uma pluralidade de possibilidades. A partir desses “caminhos”, que fornecem vários elementos de reflexão, ele conclui o livro com perguntas: “Por que amamos? Qual o segredo da arte de amar? Existe um jeito certo de amar”. Seguramente, a leitura dessa obra permite que cada pessoa possa buscar suas próprias respostas e esse é o seu grande mérito.

O livro do amor: da pré-história à renascença e do iluminismo à atualidade

Regina Navarro Lins (BestSeller, 2018)

A autora percorre um longo trajeto, que começa na pré-história e segue até os dias de hoje, para buscar compreender como o fenômeno amoroso foi se constituindo no tempo, as diferentes representações que foi assumindo na história e seu papel na vida humana. Sua conclusão fundamental, que domina especialmente o segundo volume (iniciado com a experiência do amor no Iluminismo), é de que o amor em sua versão “romântica” se tornou um instrumento de coerção da liberdade dos indivíduos e um gerador de neuroses, frustrações e dores. A partir dessa consideração, Regina Navarro conclui seu livro apresentando novas formas possíveis de amar, que podem permitir atualizar esse sentimento de modo que ele atenda às necessidades maiores dos seres individualizados.

Elogio ao amor

Alain Badiou e Nicolas Truong, (Trad. Dorothée Bruchard, Martins Fontes, 2013)

Um dos mais respeitados e conhecidos filósofos contemporâneos, Badiou faz uma profunda inovação na filosofia atual quando apresenta o amor como um dos quatro elementos centrais do pensamento filosófico – ao lado da matemática, da arte e da política. Editado a partir de uma entrevista feita por Nicolas Truong, este livro trata dos riscos que atingem o “verdadeiro” sentimento do amor nos tempos atuais, mostra como inúmeros filósofos trataram desse tema, a sua vinculação com a política e, especialmente, valoriza conceitos como os de duração e diferença na construção de formas inovadoras, eticamente comprometidas e emancipadas de viver o amor na atualidade.

Poder e amor: teorias e práticas da mudança social

Adam Kahane (Trad. Nina Albuquerque, Senac São Paulo, 2010)

A novidade do livro é a forma como conecta dois termos tradicionalmente vistos como apartados. O canadense Adam Kahane considera o poder um processo de autorrealização, o impulso de tudo que se vive para a própria realização e a consecução de objetivos. O amor, por sua vez, seria o impulso para a união do que está separado, a força que reconecta e integra o que se tornou fragmentado. A partir dessa concepção geral, ele parte do princípio que a transformação social rumo a uma sociedade mais igualitária exige que esses dois eixos centrais da existência sejam levados em conta de forma indissociável. Quando isso ocorre, ambos se tornam generativos. O contrário ocorre quando um está subordinado ao outro. Com essa reflexão, o autor busca contribuir na construção de soluções duradouras e globais para o enfrentamento dos principais problemas sociais da atualidade.

Bruxas e bruxos da cidade: personagens da revolução do contemporâneo

Jailson de Souza e Silva (Babilônia e Observatório de Favelas, 2015)

“O que é a revolução nos dias de hoje? Quem seria revolucionário? Por que você pensa como pensa? Por que você age como age? Você é bruxa? Você é bruxo?” A partir dessas questões, busco discutir os caminhos para a construção de uma sociedade de sujeitos emancipados – que designo como bruxas e bruxos. Essa emancipação passa pela superação das formas tradicionais que sustentam a relação entre os indivíduos e as instituições. Nelas, tradicionalmente, os primeiros se fazem objetos das segundas, que existem como um fim em si, sem serem canalizadas para atenderem os interesses das pessoas – seja ela o Estado, o mercado, a Igreja, o casamento etc. E o amor tradicional – que defino como “narcísico” – é uma das instituições que mais produzem violências na vida cotidiana. Uma alternativa a ele seria a construção do amor na diferença, que defino posteriormente como “amor altruísta”.

É mais uma entre as diferentes formas de definir o amor e pensar seu lugar no contemporâneo. É possível se identificar com as possibilidades que apresentei nesta seleção, ou com outras mais. O que não é mais possível é considerar esse sentimento como algo secundário ou de foro apenas íntimo no mundo atual. Mais e mais ele se fará presente, como conceito, experiência e método, em todos os aspectos de nosso mundo social.

Jailson de Souza e Silva é geógrafo, doutor em sociologia da educação, ex-secretário de Educação de Nova Iguaçu, ex-subsecretário de assistência social e direitos humanos do estado do Rio de Janeiro, fundador do Observatório de Favelas e diretor geral do Instituto Maria e João Aleixo. Escreveu várias obras, tais como: “Por que uns e não outros?” (Contraponto, 2003), “Favela: alegria e dor na cidade" (Senac Rio, 2005) e "O novo carioca” (Mórula, 2012).

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