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A publicitária e ativista Neon Cunha indica livros que falam da exclusão social sofrida por mulheres a partir de um recorte de gênero e de raça

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Nenhum encontro é por acaso. Me interessei muito cedo pela leitura, como válvula de escape. Aos quatro anos já não podia falar e me expressar dentro de casa, meu comportamento denunciava a minha identidade de gênero. Afinal, o que era ser e se afirmar menina, uma menina não cisgênera, em 1974? Cresci buscando liberdade.

Foi na leitura que encontrei precocemente as possibilidades de compreensão dos marcadores da minha exclusão social, independente das normas que me impunham. Foi lendo e reconhecendo o papel das mulheres que pude trabalhar minhas subjetividades. Esse prazer se tornou um hábito, quase um vício, que me trouxe certezas para além das normas, possibilidades de rever processos de constituição de humanidades. Pensando nisso, selecionei livros/leituras/prazeres que se interseccionam na contribuição de mulheres que, assim como eu, colocam em questionamento os valores sociais impostos pela sociedade.

O nascimento de Joicy: Transexualidade, jornalismo e os limites entre repórter e personagem

Fabiana Moraes (Arquipélago Editorial, 2015)

Fabiana Moraes, jornalista premiada, negra e nordestina, escreve com muita sensibilidade a história da mulher transexual Joicy, ex-agricultora que procura o serviço público de saúde para realização da cirurgia de transgenitalização. O livro acompanha Joyci por um bom período, expondo o desafio das suas vivências, sobretudo em relação às suas condições de precariedade socioeconômica. Além disso, também relata o preconceito a que ela é submetida por não corresponder a um estereótipo idealizado da transexualidade. Fabiana defende um jornalismo mais subjetivo, mas neste livro-reportagem é a sua escrita sensível que nos faz entender a dimensão da responsabilidade da imprensa. Valor do qual ela se imiscui, ao transcrever uma narrativa preocupada em retratar Joicy de maneira digna.

O corpo da roupa: A pessoa transgênera entre a transgressão e a conformidade com as normas de gênero

Letícia Lanz (Transgente, 2017)

Letícia Lanz, psicanalista e mestra em sociologia, amplia nesta obra as reflexões sobre questões contemporâneas como transgeneridade, identidade, normas e expressão de gênero, transfobia, transição e passabilidade. O livro sensibiliza e traz uma vasta contribuição para o acolhimento e entendimento de inúmeras questões que, por muito tempo, estiveram ausentes das discussões tanto acadêmicas quanto sociais. Afinal, a transição é condição natural de todas as pessoas: estamos mudando constantemente, evoluindo. Mas apenas as pessoas divergentes a normas são questionadas. A evolução é um transicionar constante para todas as pessoas, sejam elas cis ou trans.

Por um feminismo afro-latino-americano

Flávia Rios e Márcia Lima (Org.) (Zahar, 2020)

Para justificar esta indicação, bastaria citar Angela Davis: “Leiam Lélia Gonzalez!”. Em miúdos: trata-se de uma coletânea de textos produzidos por Lélia González entre 1979 a 1994, além de ensaios, traduções inéditas e entrevistas que abrem espaço para reflexões e ações para enfrentar as desigualdades. Um dos maiores nomes do feminismo negro mundial, Lélia teve atuação decisiva no combate ao racismo e a questões associadas a gênero. O prazer dessa leitura é o mesmo de desfrutar das coisas simples da vida. Mas o que não é simples é lidar depois com toda a responsabilidade atrelada a entender a revolução no caminhar das mulheres negras da América Latina. Em especial no Brasil – óbvio que com muito Axé.

Vozes insurgentes de mulheres negras: Do século 18 à primeira década do Século 21

Bianca Santana (Org.) (Fundação Rosa Luxemburgo, 2019)

A sensação de ler este livro é a mesma de participar de uma roda de conversa com boa parte das principais mulheres negras a produzirem conteúdo nas últimas décadas. A leitura dos documentos reunidos com a sensibilidade de Bianca Santana flui como uma imersão de tomada de conhecimento. Para quem conhece a produção das autoras selecionadas, vale a pena conferir como elas ganham outra dimensão nesse conjunto. Para quem nunca viu ou sequer pensou em ver essas intersecções, vale o refrão do ponto cantado nos terreiros: “Quem nunca viu venha ver / Caldeirão sem fundo ferver”.

Diário de Bitita

Carolina Maria de Jesus (Bertolucci, 2007)

“Diário de Bitita” trata da infância, adolescência e início da vida adulta de Carolina Maria de Jesus. Publicado pela primeira vez na França, em 1982, o livro demorou muito até ser lançado no Brasil. Bitita era o apelido de infância de Carolina . Foi só quando começou a frequentar a escola, algo raro para as crianças negras da época, que a escritora descobriu seu verdadeiro nome. Desde então se manteve questionadora do universo em que vivia: “Os pretos tinham pavor dos policiais, que os perseguiam. Para mim aquelas cenas eram semelhantes aos gatos correndo dos cães. Os brancos, que eram os donos do Brasil, não defendiam os negros. Apenas sorriam achando graça de ver os negros correndo de um lado para outro. Procurando um refúgio, para não serem atingidos por uma bala.” “Diário de Bitita” é a visão atual de mais uma mulher negra, pobre e desfavorecida a respeito de uma sociedade que falhou com ela e com suas semelhantes nas mais diversas formas. Um livro essencial na luta antirracista.

Neon Cunha é uma mulher, negra, ameríndia e transgênera, 51 anos, questionadora da branquitude e cisgêneridade tóxicas. Uma das mais reconhecidas vozes da despatologização das identidades trans no Brasil e primeira pessoa trans a denunciar presencialmente violências na OEA (Organização dos Estados Americanos). Integra diversas iniciativas e espaços como ativista independente, dentre elas a Marcha das Mulheres Negras de São Paulo e como patrona da Casa Neon Cunha, espaço de acolhimento LGBTQIA+ do ABC Paulista.

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