Foto: Laura Del Rey/Divulgação

O jornalista e escritor indica cinco livros que mergulham no passado para recuperar grandes narrativas

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Se não tivesse me tornado jornalista, seguramente teria estudado história. Gosto de pesquisar em arquivos, de papéis antigos, de mapas. De entender as implicações de determinados atos no destino de países e de pessoas. Por um acaso profissional, passei alguns anos dirigindo a revista Aventuras na História, onde pude misturar os dois interesses. Há um ramo historiográfico relativamente recente, batizado de “história das mentalidades”, que é um velho conhecido da literatura: a descrição precisa de hábitos, de modos e comportamentos que acabam moldando gerações, presentes e futuras. Isso pode ser encontrado em abundância no chamado “romance histórico”

Em anos recentes, tenho me dedicado à literatura. Meu primeiro livro, “Lampião & Maria Bonita – Uma história de amor e balas”, está na caixa da não ficção, mas muito da vida do casal de cangaceiros foi além do registro documental e se tornou parte da mitologia sertaneja do Nordeste. Ao escrever, decidi incorporar os mitos da dupla como parte da história oficial por entender que a projeção do casal também faz parte de suas biografias. Vivi a experiência oposta com meu primeiro romance, “Demerara”. Nele, a ficção se escora em acontecimentos reais, a chegada da gripe espanhola ao Brasil, a imigração e a industrialização de São Paulo, mas tais cenários servem para impulsionar a narrativa — nunca para conduzi-la. Abaixo, indico alguns livros que apoiam meu processo criativo.

O nome da Rosa

Umberto Eco (Trad. Ivone Benedetti, Record, 2019)

Eco foi um grande medievalista na Universidade de Bolonha, onde pesquisou e publicou sobre a estética da Idade Média e São Tomás de Aquino. Depois se tornou semiólogo e tem pelo menos dois livros fundamentais sobre comunicação: “Obra aberta” e “Apocalípticos e integrados”. Quando resolveu se aventurar na ficção, voltou às origens intelectuais e nos brindou com uma obra espetacular: “O nome da Rosa”. O livro tem a sofisticação erudita do autor — citações em latim, discussões teológicas, a descrição dos dias regidos pelos horários das preces — emprestada ao romance policial.

O enredo se passa em 1327, quando o frade franciscano William de Baskerville chega a uma abadia beneditina no norte da Itália para investigar uma morte misteriosa. O narrador é o escudeiro de Baskerville, Adso de Melk, que decide registrar suas memórias antes de morrer. Eco voltaria à Idade Média em “Baudolino”, seu quarto livro de ficção, com seres mitológicos e personagens de lendas europeias e asiáticas.

Memórias de Adriano

Marguerite Yourcenar (Trad. Martha Calderaro, Nova Fronteira, 2019)

A história de “Memórias de Adriano” já seria suficiente para um grande livro. Yourcenar começou a escrevê-lo na década de 1920, aos 20 anos de idade, e depois de cinco anos destruiu os manuscritos. O trabalho foi retomado entre 1934 e 1937 e logo abandonado outra vez. Após vários manuscritos, de perder os originais, voltou ao livro em 1948 e enfim lançou sua obra prima em 1951.

O livro é uma coleção epistolar, cujo destinatário é o ainda jovem e futuro imperador Marco Aurélio. Além do absoluto rigor histórico, a grandeza da obra é o mergulho profundo nas reflexões de Adriano depois do suicídio do amor de sua vida, o grego Antínoo, afogado no rio Nilo aos 19 anos. Em seu caderno de notas sobre o livro, Yourcenar — a primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Francesa, em 1980 — registrou: “Se optei por escrever estas ‘Memórias de Adriano’ em primeira pessoa, foi com o fito de eliminar o máximo possível qualquer intermediário, inclusive eu”.

O homem que amava os cachorros

Leonardo Padura (Trad. Helena Pitta, Boitempo, 2015)

Leonardo Padura estava em transição do jornalismo para a literatura quando visitou a casa onde foi assassinado o líder da Revolução de 1917, Leon Trotsky, na Cidade do México. O tal “homem que amava os cachorros” é o cubano Iván Cardenas Maturell, veterinário aspirante a escritor. Narrador do livro, ele se dizia amigo do catalão Ramón Mercader, que matou Trotsky com um picador de gelo, foi capturado, cumpriu pena e passou seus últimos anos em Cuba.

A cada encontro com Mercader, dono de dois galgos russos da raça borzói, o veterinário Iván sente-se mais certo de estar diante do assassino do revolucionário. Padura, com destreza, intercala a história pessoal das figuras históricas com a vida em seu país no início do século 21, e contrapõe a busca por uma utopia e a desilusão com ela — uma inquietação que nasceu quando visitou a casa de Trotsky em Coyoacán em 1989, antes de pensar em ser escritor. Ele repetiu a fórmula em “Hereges” e “O romance da minha vida”, também dois ótimos livros.

A muralha

Dinah Silveira de Queiroz (Instante, 2020)

Quando eu tinha sete anos, havia uma hora da noite em que minha casa parava. Mãe, irmãs, às vezes acompanhadas de meu pai sentavam diante do aparelho ABC, a Voz de Ouro, uma pesadona TV preto e branco, para assistir “A muralha”, novela da extinta TV Excelsior de São Paulo adaptada do livro do mesmo nome. Fui conhecer a obra de Dinah Silveira de Queiroz só no ano passado, na ótima edição da editora Instante.

A obra foi uma encomenda para o aniversário dos 400 anos de São Paulo, em 1954, e desfila indígenas, traições e triângulos amorosos, tendo como pano de fundo o tempo dos bandeirantes. Dinah também constrói personagens femininas fortes, assim como em seu outro livro de sucesso, “Floradas na Serra”.

M, o filho do século

Antonio Scurati (Trad. Marcello Lino, Intrínseca, 2020)

O italiano Antonio Scurati cola em Benito Mussolini para contar a ascensão do líder fascista na Itália pós-Primeira Guerra. O livro é incômodo, mas as suas 812 páginas magnetizam o leitor, que mergulha na trajetória do futuro Duce, que começou seu grupo político arregimentando gente briguenta e rancorosa — tal como ele, um renegado do Partido Socialista. Exceto a origem partidária, paralelos com o Brasil atual são inevitáveis. “Tenho à minha frente apenas a trincheira, a borra dos dias, a área dos combatentes, a arena dos loucos, (...) os facínoras, os deslocados, os delinquentes, os genialoides, os ociosos, os playboys pequeno-burgueses, os esquizofrênicos, os negligenciados, os desaparecidos (...)”, pensa o personagem Mussolini em 1919, antes de dirigir a reunião de fundação dos Fasci di Combattimento — brigadas paramilitares que apoiaram sua ascensão ao poder. Primeiro volume de uma série, o livro ganhou o prestigiado Prêmio Strega, na Itália, e foi lançado há pouco por aqui. A editora Intrínseca prepara o lançamento da continuação, que acompanha Mussolini de 1925 a 1932.

Wagner G. Barreira é jornalista, autor de “Lampião & Maria Bonita – uma história de amor e balas” (Planeta, 2018) e “Demerara” (Instante, 2020). Foi professor de técnicas de reportagem e teoria do jornalismo na PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo, primeiro diretor de mídias digitais da Editora Abril e atualmente é consultor da Prodigioso Volcán, de Madri.

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