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O jornalista e documentarista indica cinco livros sobre a arte de fazer filmes de gênero

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O documentário está em toda parte. Difícil imaginar que alguma pessoa com acesso à internet, televisão ou streaming não recorra ao recurso audiovisual para conhecer um evento ou acontecimento do passado, ouvir e ver mais sobre um assunto, pesquisar algum tema ou mesmo se entreter e viajar numa boa história, seja ela grande ou pequena, velha ou nova, de um assunto mais ou menos específico, próximo ou bem distante.

Nesses tempos em que estamos todos pregados nos filmes e séries que se acumulam para nosso consumo caseiro, vale listar alguns livros para pensar um pouco mais sobre os tipos, as formas e os porquês dos documentários, gênero de difícil definição – talvez more aí sua grande graça.

Eduardo Coutinho

Org. Milton Ohata (Cosac Naify, Edições Sesc, 2017)

Impossível ignorar Eduardo Coutinho em qualquer imersão em documentários. Suas andanças e conversas não resultaram só em filmes marcantes: o diretor também legou reflexões sobre o ato de documentar tão inspiradoras quanto suas obras-primas, como “Cabra marcado para morrer” e “Edifício Master”.

Essas ideias aparecem em textos escritos por ele, em falas preparadas para eventos, nas entrevistas e na extensa crítica deixada por quem estuda e observa sua obra ao longo dos anos. Uma cabeça pensante rara e inquieta.

“Eu não sou especialmente simpático com as pessoas”; “ninguém me contará uma coisa na câmera que já tenha me contado fora”; ”o transe do cinema ocorre nesse momento [da filmagem], nem antes, nem depois”; “não me interessa o plano curto, eu quero a dimensão temporal das coisas”: essas são algumas frases que surgem numa rápida passada por essa vasta coleção de reflexões de Coutinho.

Mulheres atrás das câmeras – As cineastas brasileiras de 1930 a 2018

Orgs. Luiza Lusvarghi e Camila Vieira da Silva (Estação Liberdade, 2019)

Não é nenhuma novidade que as mulheres são minoria no comando dos filmes. Só uma mulher levou o Oscar de melhor direção em 92 edições do prêmio, num total de só cinco indicadas (até 2020). Já entre os documentários, é notável que, quando a brasileira Petra Costa foi à cerimônia no ano passado com seu “Democracia em vertigem”, ela estava entre quatro produções com mulheres na direção, num total de cinco finalistas para a categoria.

Além dela, Maria Augusta Ramos, com “O processo”, Suzanna Lira, com “Torre das donzelas”, e agora Anna Muylaert, com “Alvorada”, também tocaram projetos que passam pela figura de Dilma Rousseff, única mulher a se tornar presidente do Brasil, exemplo de um dentre vários temas contemporâneos brasileiros tão bem cobertos por realizadoras.

Esse livro nos leva a conhecer melhor a produção de pioneiras como Helena Solberg, do icônico “A entrevista”, de 1966, traçando uma cronologia da presença delas no gênero. Uma viagem às mulheres que nos contam as histórias.

Filmar o que não se vê – Um modo de fazer documentários

Patricio Guzmán (Edições Sesc, 2017)

O chileno Patricio Guzmán, consagrado como um dos grandes documentaristas da atualidade, oferece uma obra única. Não se trata de um olhar sobre os próprios filmes, tampouco um texto exatamente teórico, mas uma espécie de raio-x da feitura de um documentário.

As páginas que ele chama de “método” são uma aula magna para jovens cineastas. Ao tratar dos dispositivos, Guzmán organiza as formas de se impulsionar e de se contar uma história. Mais adiante, ele também detalha os elementos que compõem a montagem, amparando a imensidão da ilha de edição.

Para os mais cinéfilos, Guzmán ainda compartilha uma série de resenhas de documentários aos quais ele assistiu nos últimos anos. Nas palavras do próprio autor, um livro que trata do “coração artístico de um filme”. Uma delícia de leitura para decifrar o que se vê.

Introdução ao documentário

Bill Nichols (Trad. Mônica Saddy Martins, Papirus Editora, 2016)

Modo poético, modo expositivo, modo observativo, modo participativo, modo reflexivo e modo performático. Esses são os seis principais tipos de documentário na definição de Bill Nichols, que oferece um verdadeiro manual sobre a arte.

Num texto daqueles para grifar e tirar anotações, o professor passeia pelas próprias definições do gênero, contornando suas contradições e aprofundando debates sobre conceitos como “pessoas reais” e ”algo que realmente aconteceu”.

Um livro que é na verdade um curso, um guia geral para detalhar os filmes. E nunca mais assistir a um doc do mesmo jeito.

A verdade de cada um

Org. Amir Labaki (Cosac Naify, 2015)

Amir Labaki, fundador da principal janela de documentários no país, o festival “É Tudo Verdade”, organiza ensaios, manifestos e depoimentos de grandes diretores e diretoras de todo o planeta. De uma viagem à história num texto de Robert Flaherty - para muitos o “pai” do documentário ao lançar “Nanook, o esquimó” em 1922 - até chegar na contemporaneidade de um João Moreira Salles, em plena atividade.

Nas suas notas aos jovens documentaristas, Alberto Cavalcanti crava: "não tratem sobre temas gerais; vocês podem escrever um artigo sobre a organização dos correios, mas, se fazem um filme, deverão pegar apenas uma carta como assunto".

Páginas à frente, vem Jean Rouch, com seu texto sobre o filme etnográfico, refletindo sobre a capacidade de uma obra do tipo: “só o cinema é capaz de produzir esse milagre”, ele diz ao tratar do encontro entre espectador e registros fílmicos de ambientes e eventos nunca presenciados por quem assiste, mas que promovem uma imersão, ainda que sem a mediação de nenhuma legenda ou explicação.

Cada um a seu estilo (uns mais práticos, outros mais teóricos) dando num mosaico interessantíssimo dos conceitos. Uma espécie de almanaque de reflexões de documentaristas.

Paulo Junior é jornalista e documentarista. Diretor de “O Acre existe”, “Largou as botas e mergulhou no céu”, “Meu amigo alemão” e “Gerais da pedra”, além de filmes e séries para internet. Autor dos livros “O Acre existe” e “São Bernardo sitiada”. Trabalha com produção de podcasts (Central Cine Brasil, Meu Time de Botão, Rádio Companhia, Golaço) e também atua no jornalismo esportivo (Goal Brasil).

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