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O professor e pesquisador da Universidade de Pernambuco indica cinco livros para entender o racismo estrutural brasileiro

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2020 certamente será lembrado como um dos períodos mais difíceis, conturbados e tristes da nossa história recente. Uma época em que a própria noção de humanidade que optamos por construir revelou-se um voo cego rumo a um abismo sem redenção, com o prêmio principal sendo dividido entre perdedores e derrotados — ainda que, obviamente, existam lugares mais luxuosos a partir de onde se pode assistir ao apocalipse: eis a aposta suicida de certos grupos cujo privilégio consiste exclusivamente na possibilidade de escolher a hora e o lugar do próprio fim. De todo modo, um projeto de (não) existência absolutamente insustentável, sob qualquer aspecto que se pretenda encarar a miragem inscrita no conceito de humanidade.

2020 foi também um ano particularmente doloroso para a comunidade negra. Miguel Otávio, João Pedro, João Alberto, George Floyd e tantos outros dos nossos, vítimas do projeto de extermínio que alguns desavisados insistem em chamar de pacto civilizatório, e que só se sustenta a partir dessa concepção restritiva de humanidade. Um ano em que a “sociedade de bem” e o “povo da destruição” reafirmaram que, de sua perspectiva deturpada, vidas negras não só não importam como sequer deveriam existir.

Mas 2020 foi também um ano particularmente potente, caso o encaremos da perspectiva ancestral de uma história recontada em verde e rosa: história dentro da história, avesso do mesmo lugar. A perspectiva dos povos da diáspora e da luta de seus descendentes por todo o planeta. Um ano em que a comunidade negra não apenas elevou ainda mais a sua voz, como gentilmente ofertou ao planeta um conjunto de ensinamentos pelos quais todos têm buscado ansiosamente: lições de resistência e sobrevivência. O caminho ofertado pelos ensinamentos de Omolu não é suave nem tranquilo, mas é radical em seu trabalho silencioso e contínuo, que se confunde com o próprio tempo.

Racismo estrutural

Silvio Almeida (Jandaíra, 2019)

Em sua dimensão mais conceitual, uma dessas lições da comunidade negra é a compreensão cada vez mais acurada do caráter orgânico e estrutural do modo de funcionamento do racismo no Brasil. Não por acaso, o livro “Racismo estrutural” se tornou um pequeno clássico contemporâneo, não só pela qualidade e densidade de um pensamento que se articula com a clareza e generosidade própria dos grandes mestres, mas também por aquilo que nele se deixa capturar do espírito (negro) de nossa época: um conjunto de sabenças que se inscrevem nas encruzilhadas daquilo que continuamente se transforma para permanecer sempre o mesmo, seguindo em travessia. O trabalho de Silvio Almeida tem tornado o Brasil um pouco mais consciente de que o racismo não é um resquício anacrônico do período colonial, que os homens de boa vontade almejam um dia eliminar, mas sim a própria condição estrutural que torna possível ao país existir enquanto tal.

Dialética radical do Brasil negro

Clóvis Moura (Anita Garibaldi, 2020)

Nome silenciado na história do pensamento intelectual brasileiro, como tantos outros pensadores e militantes negros que poderiam integrar essa lista (como Lélia Gonzalez Guerreiro Ramos ou Neusa Santos Sousa), Clóvis Moura é um nome fundamental quando se trata de compreendermos de que maneira a transição de um modelo social escravocrata para a forma republicana moderna se deu no país a partir de uma série de mecanismos cujo objetivo final foi a bem sucedida perpetuação dos negros em condição de subalternidade. Ou seja, o fracasso do país enquanto nação sempre foi um projeto das nossas elites.

Na “Dialética radical do Brasil negro”, Clóvis Moura adentra o núcleo do racismo estrutural brasileiro, que toma forma na passagem para um modo de produção que, ainda que “livre” da escravidão, depende estruturalmente da exclusão do negro do campo da cidadania, chamando a atenção para a dimensão de racialização fundamental que se inscreve no nosso modelo de modernização conservadora e, no limite, no cerne do capitalismo global. Além disso, Moura sempre se esforçou por restituir a dignidade do povo negro no campo da historiografia, a partir de uma perspectiva contra hegemônica que recupera a importância dos quilombos e da agência negra nos processos de luta pelo fim da escravidão, não reduzindo-a às rearticulações do capitalismo a partir da Inglaterra, ou da “modernização” do pensamento das elites proprietárias locais.

Machado de Assis afrodescendente

Org. Eduardo de Assis Duarte (Malê, 2020)

Durante muito tempo Machado de Assis foi considerado um escritor elegante e refinado, alheio às principais questões sociais do seu tempo, interessado que estava em desenvolver a mais fina prosa de salão de sua época. Seu principal talento consistiria na capacidade magistral de adequar o rigor metafísico dos grandes clássicos ao justo senso do tamanho fluminense, dotando de interesse local assuntos de ordem universal. Aos poucos, essa percepção foi sendo substituída por outra, mais interessante e produtiva: Machado foi o autor que melhor compreendeu, descreveu e decompôs em seus aspectos mais elementares o tragicômico teatro da sociedade brasileira em um dos mais importantes momentos de sua história, atravessando Independência, Abolição e República. Com isso, nos legou uma obra que apresenta em profundidade o DNA violento, mesquinho, profundamente perverso e frequentemente sádico sob o qual se fundou a moderna sociedade brasileira. Ou seja, no momento em que esta se constituía, Machado já revelava sua inviabilidade mediante a dissecação de suas inconfessáveis “causas secretas”.

Mais recentemente vivemos um momento em que parte da crítica se propõe a considerar Machado de Assis como um autor dotado de uma escrita negra. Não propriamente um autor negro, mas um negro autor, orientado por Exu a fazer da branquitude seu cavalo. Destaca-se assim a incrível capacidade de Machado em desvelar o sistema de pactos narcisistas elaborado por nossas elites brancas, tão bem representada por figuras como Brás Cubas e Bento Santiago. A escritura terrorista de Machado revela-se assim como um dos mais complexos mecanismos de mapeamento e decomposição em detalhes das formas como a branquitude se organiza enquanto dispositivo de poder e efeito do racismo.

Quarto de despejo

Carolina Maria de Jesus (Ática, 2014)

Carolina Maria de Jesus é um dos maiores fenômenos literários da história do Brasil. Autora de romances, contos, poemas, letras de canções, dentre outros estilos, tornou-se internacionalmente conhecida a partir da publicação de seu fabuloso diário “Quarto de despejo”, traduzido para mais de 13 idiomas e publicado em mais de 40 países. A despeito dos números impressionantes e do reconhecimento internacional, superior a muitos de seus “pares”, Carolina teve que lutar ao longo de toda a vida pelo simples direito de ser reconhecida pela intelligentsia brasileira como escritora. Isso porque Carolina era mulher, negra, favelada e catadora de papel, e o sistema literário nacional se organiza a partir da negação sistemática de cada um desses modos de existir. Os esforços empreendidos pela intelectualidade branca letrada para negar a Carolina sua condição de escritora são um excelente exemplo do aspecto de banalidade ornamental perversa que pode assumir a literatura brasileira, ao perpetuar o mesmo padrão excludente de matriz colonial. Por outro lado, ao tomar essa identidade para si, Carolina oferta um gesto de amor profundo ao literário, compreendido enquanto forma de vida e possibilidade de afirmação de uma existência para além das próprias cicatrizes, para além da fome. Uma desapropriação amorosa, que conduz a literatura brasileira a um lugar de dignidade, ao fazer dela, um outro, a salvo de si mesma.

Sobrevivendo no inferno

Racionais MC’s (Companhia das Letras, 2018)

Aqui tomo a liberdade de realizar uma pequena manobra, citando não um texto, mas o disco “Sobrevivendo no inferno”, aproveitando que as letras do álbum clássico dos Racionais MC’s foram lançadas no formato de livro em 2018. Acredito, contudo, que a manobra se justifique plenamente, pois o conjunto da produção artística do grupo constitui, hoje, um dos mais importantes instrumentos para a compreensão dos modos de articulação do racismo brasileiro na contemporaneidade. Além disso, trata-se de um dos principais registros das novas formas de organização cultural e política da resistência negra a partir das periferias, que acabaram por dar sentido e forma a um novo tipo de subjetividade que reconfigura em profundidade a percepção do que seja o modo de ser periférico. Em suma: não é possível compreender a história da luta negra no país a partir da década de 1990 nem compreender nosso ciclo histórico mais recente sem passar pela produção artística dos Racionais, que alterou de forma radical a maneira como o país compreende e representa a si próprio. Ouvir atentamente a “Sobrevivendo no inferno” é absolutamente essencial para se compreender as maneiras como o racismo brasileiro se articula em sua complexidade para dar forma a nosso experimento social genocida

Acauam Oliveira é professor da Universidade de Pernambuco, atuando na graduação e no mestrado profissional em letras. Doutor em literatura brasileira pela USP (Universidade de São Paulo), sua área de pesquisa envolve os campos da literatura, música popular e crítica cultural, bem como questões relacionadas a afrodescendência e relações étnicorraciais. É autor da introdução ao livro “Sobrevivendo no inferno”, dos Racionais MC’s.

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