Foto: Arquivo pessoal

A professora e escritora Maria Betânia Amoroso indica livros sobre o intelectual italiano Pier Paolo Pasolini

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Para a maioria, Pasolini remete a filmes memoráveis como o lírico “Gaviões e passarinhos” ou o terrível “Saló ou os 120 dias de Sodoma”. É verdade que o Pasolini cineasta veio primeiro, mas o Pasolini escritor vem sendo traduzido e publicado no Brasil desde 1968. Poeta, filólogo, romancista, cineasta, crítico literário e de cinema, entre outras atividades, foi também jornalista. Suas intervenções em jornais, que já foram chamadas “ensaísmo político de emergência”, marcaram especialmente os últimos 20 anos de sua vida, transcorrida entre polêmicas que resultaram num isolamento crescente do intelectual até sua morte em 1975 (ele completaria 100 anos em 2022). Reflexões extremamente críticas sobre as formas assumidas pela modernidade e pela modernização, tanto na Itália como fora dela, suas obras vêm assumindo um caráter mais próximo ao da filosofia política – é o que se vê na inclusão de um capítulo sobre Pasolini, no livro do filósofo italiano Roberto Esposito “O pensamento vivente”. São dele expressões como “mutação antropológica” (o aniquilamento de culturas como a do camponês e do subproletário, canceladas e substituídas pela cultura do consumo e do dinheiro), “burguesia como doença” (a redução da experiência e da vida a um único modelo) e ‘Novo Poder’ (o comando do Estado não pelas instâncias clássicas da política mas pelo poder econômico e transnacional). Todas elas modos de figurar as transformações radicais da sociedade que ocorrem desde os anos 60 do século passado.

Indico abaixo cinco livros para a literatura e o ensaísmo de Pasolini. Para outros gêneros e linguagens, vale conferir esta edição de 2017 da Revista Humanitas da Unisinos.

Ensaios corsários

Pier Paolo Pasolini (Trad. Maria Betânia Amoroso, Editora 34, 2020)

O livro, organizado pelo próprio autor, reúne textos escritos para jornais e é uma espécie de confissão pública. Nela, Pasolini se declara vítima daquilo que ele nomeou, e tentou descrever, como o “Novo Poder neocapitalista e neofascista” –, e, ao mesmo tempo, intervém contra esse poder.

Pier Paolo Pasolini

Maria Betânia Amoroso (Cosac Naify, 2002)

O livro é uma pequena biografia intelectual de Pasolini. Acompanhou a retrospectiva de seus filmes apresentada na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em 2002. Complementa a biografia esta entrevista à revista Bravo.

Poemas

Pier Paolo Pasolini (Trad. Maurício Santana Dias, Cosac Naify, 2015)

Foi como poeta que Pasolini surgiu na vida cultural da Itália, na década de 1940, escrevendo em dialeto friulano. Foi uma operação experimental e política que criou um registro escrito para uma variante linguística até então só oral do norte da Itália, num momento histórico, o fascismo, no qual o nacionalismo do regime proibia o seu uso. Este livro traduz poemas dessa época e de outros momentos de sua vida.

Pier Paolo Pasolini: estudos sobre a figura do intelectual

Vinícius Nicastro Honesko (Intermeios, 2018)

Coletânea de ensaios que giram ao redor da figura pública de Pasolini. Essa dimensão de interventor marca de modo impressionante toda a circulação do conjunto da obra de Pasolini contemporaneamente.

Pasolini: retratações

Davi Pessoa e Manoel Ricardo de Lima (7 Letras, 2019)

São pequenos ensaios que exploram algumas derivas, poéticas e políticas da enorme produção de Pasolini.

Maria Betânia Amoroso é livre-docente e professora-colaboradora da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), dedicando-se aos estudos de literatura comparada. Entre seus interesses maiores estão o poeta brasileiro Murilo Mendes e o autor italiano Pier Paolo Pasolini. Sobre o primeiro, escreveu o livro “Murilo Mendes: o poeta brasileiro de Roma” (Editora Unesp, 2013). Sobre Pasolini, publicou os livros “A paixão pelo real: Pasolini e a crítica literária” (Edusp, 1997), “Pier Paolo Pasolini” (Cosac Naify, 2003), e o ensaio “Nós e ele: Pasolini no Brasil”, publicado como posfácio a “Pier Paolo Pasolini, Poemas, Alfonso Berardinelli e Maurício Santana Dias (orgs.), São Paulo, Cosac Naify, 2015. Participou também do livro “Pier Paolo Pasolini, Os jovens infelizes: antologia de escritos corsários” (organização de Michel Lahud, tradução de Maria Betânia Amoroso e Michel Lahud, São Paulo, Brasiliense, 1990). Organizou, ainda, a coletânea de ensaios do crítico italiano Alfonso Berardinelli “Da poesia à prosa” (Cosac Naify, 2007).

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