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O jornalista Victor Matioli indica livros que tratam dos impactos sociais e econômicos da comida

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A comida sempre esteve no centro da experiência humana. Como fonte de energia e nutrientes, claro, mas principalmente como mediadora da vida social. Tenho certeza que algumas das suas melhores lembranças foram construídas na cozinha — ou ao redor da mesa de jantar. A comida serve para matar a fome, é verdade, mas também dá prazer, demonstra afeto e sustenta mais famílias do que você imagina.

Comecei a pensar e escrever sobre alimentação há apenas dois anos. Tempo suficiente para perceber que o tema é disputado. Todo mundo tem uma opinião para dar e muita gente lucra com a confusão. Nesse cenário, acessar informações de qualidade é libertador em vários sentidos. Listo aqui cinco livros que mudaram minha visão sobre a comida.

Regras da comida: Um manual da sabedoria alimentar

Michael Pollan (Trad. Adalgisa Campos da Silva, Intrínseca, 2010)

“Regras da comida” foi provavelmente o primeiro livro sobre alimentação que li. Devorei as 150 páginas numa viagem de avião e pousei decidido a pesquisar mais sobre o assunto. O jornalista Michael Pollan lista 64 pontos fundamentais para repensar nossa relação com a comida. A leitura é leve e rápida. É uma ótima porta de entrada para drogas mais pesadas de Pollan, como “O dilema do onívoro” e “Em defesa da comida”, ambos recomendadíssimos também.

Nutricionismo: A ciência e a política do aconselhamento nutricional

Gyorgy Scrinis (Trad. Juliana Leite Arantes, Elefante, 2021)

Scrinis é um dos responsáveis por moldar a visão de Michael Pollan sobre alimentação — e um autor obrigatório para quem quer se aprofundar um pouco no tema. Em “Nutricionismo”, ele discute como algumas interpretações simplistas da ciência da nutrição geraram uma visão reducionista sobre os alimentos. Muitos nutricionistas (e seus pacientes, por consequência) foram levados a acreditar na existência de superalimentos, nutrientes superiores e dietas milagrosas. Scrinis desmonta essa ideia — que, vale ressaltar, enriqueceu muita gente — e afirma a importância de olhar para os alimentos inteiros, em toda sua complexidade.

Donos do mercado: Como os grandes supermercados exploram trabalhadores, fornecedores e a sociedade

Victor Matioli e João Peres (Elefante, 2020)

Sim, sou coautor. Mas não cometeria a deselegância de indicá-lo se não acreditasse que é um livro importante para repensar a maneira como compramos comida. João Peres e eu investigamos, durante mais de um ano, o estabelecimento dos supermercados como ambientes preferenciais para a compra de alimentos. Descobrimos que o gigantismo das maiores redes gera uma teia complexa de impactos econômicos e sociais. Entre o campo e a prateleira, há um rastro de exploração laboral, abuso de poder econômico e apagamento de culturas alimentares.

Pão nosso: Receitas caseiras com fermento natural

Luiz Américo Camargo (Senac, 2015)

Um livro de receitas? Sim, mas ele é mais do que isso. O crítico gastronômico Luiz Américo Camargo compartilha técnicas ótimas para quem se interessa por panificação — uma delas é um jeito infalível de cultivar fermento natural em casa. Mas o livro está recheado de textos que transcendem a cozinha. Camargo faz paralelos interessantes entre os pães e a vida. Nem sempre temos tudo sob controle: é preciso estar atento aos sinais que a massa nos dá. E até é possível fazer um pão rápido para matar a fome, mas, se você quiser tirar o melhor dos ingredientes, é necessário respeitar o tempo deles. Livro ótimo para ler com calma, na bancada da cozinha, enquanto o pão cresce.

Cozinha confidencial: Uma aventura nas entranhas da culinária

Anthony Bourdain (Trad. Beth Vieira e Alexandre Boide, Companhia de Mesa, 2016)

Minha leitura mais recente. O chef estrela Anthony Bourdain conta causos vividos dentro e fora de algumas das cozinhas mais famosas do mundo. Como alguém que se interessa especialmente pelo papel social da alimentação, não sou um grande admirador da alta gastronomia que Bourdain representa. Mas este é um bom livro para sentir um pouco de nojo, um pouco de raiva e dar algumas risadas — mantendo a comida no centro da história.

Victor Matioli é jornalista formado pela ECA/USP (Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo), repórter do site O Joio e O Trigo e apresentador do podcast Prato Cheio. Já colaborou com UOL, The Intercept Brasil, CartaCapital, Le Monde Diplomatique Brasil e outros.

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