Foto: Mari Caldas/Divulgação

A pesquisadora e tradutora indica cinco livros para ampliar a percepção sobre plantas e jardins

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Ao iniciar um processo de observação das plantas, você estabelece um caminho irreversível na relação do olhar com o ambiente. O cerne dessa novidade vai muito além de discernir os matizes de verde. Você aprende que algumas espécies despontam no meio da vegetação e podem ser reconhecidas a grandes distâncias, mantendo relações de proximidade e de sobrevivência e escondendo históricos, características, temporalidades de dispersão e de crescimento que também variam em função da geografia, da interferência climática, da mão do homem. Em plano macro, as formações nativas passarão a se revelar complexas, formadas por mistérios, sons e acontecimentos que nos escapam, revelando-se esfinges que nos cobram decifração. Em plano micro, aos que manuseiam a horta informal, a jardinagem caseira — seja ela selvagem ou mais acurada e minuciosa —, o desafio é também estético, mas exige conhecimento. O exercício de compreensão das plantas é digno da ciência, dos biólogos, mas também dos curiosos, amadores, camponeses e agricultores. Que ele se estenda aos poetas: nada mais natural — a aventura é toda feita de nuances.

Árvores brasileiras

Harri Lorenzi (Plantarum, 2016)

Publicada em três volumes, a série coordenada pelo engenheiro agrônomo Harri Lorenzi, traz um vasto repertório das principais árvores brasileiras, totalizando mais de 1.000 espécies. A edição é ilustrada e oferece excelentes imagens das árvores, sempre com os detalhes de suas folhas, sementes e caule. Acompanham os descritivos informações sobre o tipo de madeira, seus prováveis usos como matéria-prima, ocorrência em regiões do Brasil e também dicas de obtenção de sementes e preparo de mudas. Chamo atenção aqui para esse tipo de pesquisa em material enciclopédico, que supõe caminho inverso ao que hoje praticamos em buscas virtuais (via Google, por exemplo), onde primeiro pesquisamos algo pelo nome para depois descobrirmos seu correspondente em imagem — não considero aqui os aplicativos de reconhecimento de plantas, que, por enquanto, ainda deixam a desejar. Muitas vezes, ao folhear esses livros, reconhecemos uma árvore com a qual temos familiaridade e não sabíamos: a árvore da rua, a árvore que avistamos diariamente da janela e que até então não passava de uma árvore. Ao descobrir que se trata um guapuruvu, um mulungu, um jatobá, uma quaresmeira, um cedro, você nunca mais vai olhar para um exemplar dessa espécie sem deixar de reconhecê-lo.

Plantas Alimentícias Não Convencionais (Panc) no Brasil

Valdely Ferreira Kisupp e Harri Lorenzi (Plantarum, 2014)

Suco de picão, geleia de flor de begônia, canapé de kalanchoe, omelete de urtiga, churrasco de nopal são alguns dos pratos que eu experimentei e que estão sugeridos no livro. Se você tiver a oportunidade de frequentar o campo ou áreas de abundante vegetação, esse é um guia indispensável. Tudo — ou quase tudo — que parecia mato ao seu redor pode virar comida, de improvável sabor e cores surpreendentes. A edição do livro é extensiva e cuidadosa, com ilustrações, características das plantas, e sempre três receitas de pratos. É gostoso folhear página a página e irmos reconhecendo as espécies com as quais temos alguma proximidade, mas para as quais nunca pensamos outros usos a não ser os estéticos.

Nos jardins de Burle Marx

Jacques Leenhardt (Perspectiva, 2006)

Organizado pelo filósofo e sociológico Jacques Leenhardt, grande conhecedor da cultura e da arte brasileira, o livro reúne ensaios de teóricos sobre a produção paisagística de Roberto Burle Marx. Um texto, porém, merece especial atenção. Trata-se do que abre o livro, “Jardins possíveis”, de Roger Caillois, tradutor, sociólogo e crítico literário francês. Sempre volto a esse texto e ele sempre me emociona. Caillois estabelece aí, com pleno domínio do seu assunto — porque, diferenciando o jardim e a floresta, compara a prática de jardinagem à produção artística, de forma geral: jardins italianos, franceses, japoneses e, claro, a exuberância do jardim tropical, cujo mestre Burle Marx é uma das maiores referências em todo o mundo. Vale a pena atentar nesse texto para o interessante emprego do vocabulário, rico, pontual, nomeando as plantas, os tipos de declives de um jardim e as ações do jardineiro, seus critérios, escolhas e ferramentas.

O livro dos jardins

Ana Martins Marques (Quelônio, 2019)

Em direção alternativa às minhas recomendações anteriores, baseadas em esclarecedoras classificações científicas, os poemas de Ana Martins Marques propõem uma leitura transversal das plantas e jardins. Exaltam reminiscências e recordações, e sugerem que a fluência das plantas recorre a zonas que independem de método e monitoração. A proposta, muitas vezes metalinguística, sugere uma leitura que não deveria passar despercebida aos amantes dos jardins — aquela intermediária, sensível, que reverbera o que escapa à ciência e que amplia ao infinito a possibilidade de nomeação.

Grafts

Michael Marder (Univocal, 2016)

Professor de filosofia na Universidade do País Basco, Marder trabalha noções de política, filosofia e comportamento contemporâneo tomando as plantas como exemplo. O autor considera as plantas dotadas de subjetividades próprias, capazes de nos dar lições de ética por meio do que ele considera ser um tipo de filosofia vegetal. Nesse livro, conforme o título, a demonstração, sempre metafórica, parte do enxerto (“graft”, em inglês) — termo entendido aqui como possibilidade de novas perspectivas resultantes de formas de contato pela diferença, ou seja, por zonas de intersecção de uma planta com outra.

Marcela Vieira é pesquisadora, tradutora, fundadora do site de artes aarea e editora da Revista Rosa. É doutoranda em semiótica e tradução pela Universidade Paris 8 em cotutela com a Universidade de São Paulo. Como coordenadora editorial, acaba de lançar o livro “O Sítio Roberto Burle Marx”, resultado de uma parceria entre a Expomus e o Sítio Roberto Burle Marx.

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