Foto: Carolina Rigo/Divulgação

A escritora e professora de criação literária indica cinco livros para ajudar quem quer escrever ficção

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Ninguém espera que uma pianista ou um pintor descubram, sozinhos, tudo sobre seus ofícios. Por que seria diferente na literatura? A primeira oficina de criação literária do Brasil tem mais de 35 anos. Porém, apenas na década de 2010 é que esse tipo de ensino se tornou comum no país, junto com a percepção de que quem escreve obras ficcionais pode aprender técnicas, como qualquer outro tipo de artista. Escolhi cinco livros que desmistificam a crença (um pouco elitista, talvez) de que escrever romances e contos não se aprende na escola.

Escrever ficção: um manual de criação literária

Luiz Antonio de Assis Brasil (Companhia das Letras, 2019)

Criador da mais antiga e mais célebre oficina de criação literária brasileira, por onde passaram grandes nomes da literatura contemporânea do país, Luiz Antonio de Assis Brasil transformou em livro as experiências acumuladas em 34 anos (1985-2019) ininterruptos de trabalho com sua oficina de criação literária e com a pós-graduação em escrita criativa da PUC-RS. Segundo o autor, a obra reproduz os conteúdos de suas aulas e pode ser lida como um manual, mas também como um percurso de reflexões sobre a escrita, sob a perspectiva de um ficcionista (com 20 livros publicados) falando para outros ficcionistas. O livro, que teve colaboração do escritor e ex-aluno da oficina, Luís Roberto Amabile, apresenta, na contracapa, o testemunho de Carol Bensimon, Daniel Galera, Luisa Geisler, Michel Laub e Paulo Scott, todos igualmente egressos das turmas de criação literária de Assis Brasil. Ao longo dos capítulos, aborda-se os elementos narrativos (personagem, conflito, enredo, focalização, tempo, espaço) e usa-se, como exemplos de construção de tais elementos, casos debatidos em sala de aula, bem como dezenas de passagens de obras literárias, dos clássicos ao contemporâneo. O capítulo final contém um excelente roteiro para a escrita de um romance. Como bem lembra Assis Brasil, o manual não apresenta fórmulas e “jamais substituirá a leitura constante de obras literárias, a principal fonte para a formação de um escritor”.

Oficina de escritores: um manual para a arte da ficção

Stephen Koch (Trad. Marcelo Dias Almada, Martins Fontes, 2008)

Stephen Koch foi professor de escrita criativa nas universidades de Columbia e Princeton durante mais de 20 anos. Nesse período, leu dezenas de milhares de originais nos mais diversos estágios. Editou, discutiu, orientou, ajudou alunos a enfrentarem todo tipo de problema de técnica literária. Segundo Koch, a longa e completa imersão no ensino de criação literária proporcionou a ele “um senso bastante apurado do que pode ou não ser ensinado sobre a produção de um texto narrativo”, bem como a convicção de que escritores não precisam descobrir “sozinhos, meio por acaso e sem nenhuma ajuda, os métodos mais elementares” de escrever.

Nesse livro, chamado “guia para escritores, e não para leitores” pelo próprio autor e publicado originalmente em inglês em 2003, Koch tentou reunir aquilo que parece ser um consenso entre quem escreve a respeito da arte de escrever. Ao longo da obra, são citadas opiniões de grandes nomes da literatura mundial, retiradas de entrevistas, cartas, biografias, conversas à mesa, a respeito dos tópicos abordados em cada capítulo. No pós-escrito, há uma lista com várias obras clássicas sobre o ofício da literatura. Como qualquer bom professor de criação literária, Koch esclarece que ensina técnicas, mas que “não há regras. Por favor, lembre-se disso. No momento em que um ou outro preceito obstruir seu caminho em vez de abri-lo, você deve deixá-lo de lado. No momento em que alguma opinião sufocar seus trabalho em vez de estimulá-lo, você deve destituí-la”.

Palavra por palavra: instruções sobre escrever e viver

Anne Lamott (Trad. Marcello Lino, Sextante, 2011)

“Cedo ou tarde – geralmente cedo – todo escritor sentirá sua habilidade atacada pelo velho e conhecido medo”, diz Stephen Koch quando opina que as questões relacionadas à confiança em escrever não podem estar separadas das questões técnicas. Em seguida, Koch sugere o livro de Anne Lamott, cuja primeira edição data de 1994, dizendo ser uma das melhores obras para ajudarem na recuperação da autoestima do escritor. A autora explora tópicos desde o começar a escrever até a publicação. Segundo ela própria, o livro contém o que ela aprendeu ao longo de sua carreira de escritora e de professora de criação literária: há citações e exemplos de outros escritores, há coisas ensinadas a ela por amigos escritores, há pequenas coisas que podem não estar em nenhum grande livro sobre criação literária, mas que ela compreendeu no dia a dia da escrita. Sobre as experiências pessoais contidas na obra, Lamott explica que o livro “é mais pessoal, mais parecido com minhas aulas. Aqui está quase tudo que sei sobre escrita até o dia de hoje”.

Cartas a um jovem escritor

Mario Vargas Llosa (Trad. Regina Lyra, Elsevier, 2008)

Em “Cartas a um jovem poeta” (1929), Rainer Maria Rilke escreve, de forma magistral, a um jovem que deseja ser poeta, mas que não sabe por onde começar. Inspirada no livro de Rilke, a série “Cartas a um jovem...”, lançada mundialmente em vários idiomas, chama especialistas nas mais diversas áreas para escreverem cartas a jovens imaginários em início de carreira. A ideia foi trazida ao Brasil pelo selo Campus da Editora Elsevier e não se restringe à literatura.

Em “Cartas a um jovem escritor”, publicado originalmente em espanhol em 1997, o Nobel da Literatura Mario Vargas Llosa escreve cartas em resposta a um suposto jovem que está iniciando na escrita. Cada carta trata de um tópico diferente, relacionado à vida de escritor e ao funcionamento interno da ficção: a vocação literária, a escolha do tema sobre o qual escrever, o poder de persuasão necessário na escrita, os níveis de realidade, a opção por um dos tipos de narrador, a construção do tempo e do espaço narrativos. Usando de toda a maestria com a qual escreve suas obras ficcionais, Vargas Llosa fala de questões técnicas com leveza, precisão e lirismo.

Escrevendo com a alma: liberte o escritor que há em você

Natalie Goldberg (Trad. Camila Lopes Campolino, Martins Fontes, 2019)

Segundo Natalie Goldberg, nem todos pretendem escrever a obra literária do século, mas qualquer pessoa sonha em poder contar suas histórias. Neste livro, considerado um clássico sobre a arte de escrever e que já vendeu mais de 1 milhão de cópias desde sua primeira publicação em 1986, a autora enfoca em três eixos principais: 1) a disciplina de escrever, com dicas de como organizar a rotina de escrita; 2) o combate ao bloqueio criativo, propondo exercícios dos mais variados, como, por exemplo, falar sobre sua comida preferida, sobre a primeira lembrança de sua vida, sobre a luz que entra pela janela; 3) a autoconfiança necessária para se expressar por meio da escrita, eixo dentro do qual estimula aspirantes a escritores a terem confiança no próprio intelecto, na experiência própria, no “eu” interior, e a não cederem às vozes (internas ou externas) que tentam os desestimular. Os capítulos foram elaborados como unidades independentes, então, o livro pode ser lido na sequência do início ao fim ou em qualquer outra ordem desejada por quem lê. Goldberg dedica o livro a todos os alunos antigos, atuais e futuros. A todos os leitores diz: “não fique apenas na leitura. Escreva”. “Confie naquilo que você ama, e o amor levará você aonde for preciso”. “Se você realmente se aprofundar no ofício de escrever, ele o levará a qualquer lugar”.

Leila de Souza Teixeira estudou escrita criativa na PUC-RS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul), e tem mestrado em teoria e história da arte pela UnB (Universidade de Brasília). Desde 2014, mantém oficinas de criação literária que, em 2020, passaram a ser feitas online para todo o país. Seu livro “Em que coincidentemente se reincide” (2012) foi finalista do Prêmio Apca 2012 na categoria Contos.

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