Foto: Luiz Pinto/Divulgação

O escritor e doutor em teoria literária indica cinco obras que demonstram as possibilidades ficcionais em fragmentos

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O conto curto é uma modalidade onívora, um gênero da ficção em que tudo cabe. As fábulas, os aforismas e os epigramas precedem a prosa curtíssima, mas há um marco histórico crucial para a ficção mínima, escrito em um híbrido de poesia e prosa: os pequenos fragmentos de Baudelaire reunidos em “O spleen de Paris”, livro que ganhou recentemente nova tradução para o português. Na forma breve, é possível experimentar, condensar, explodir os limites dos gêneros para chegar a outras modalidades da ficção – ou nunca abandonar a brevidade, caso de alguns mestres como Dalton Trevisan.

O spleen de Paris

Charles Baudelaire (Trad. Samuel Titan Jr., Editora 34, 2020)

“O spleen de Paris”, que reúne poemas em prosa de Charles Baudelaire, não é exatamente um livro de ficção. Os textos combinam o impulso realista e o registro factual do momento histórico com alegorias surpreendentes e imagens míticas que permanecem atuantes. Personagens da cidade, estados de alma e situações de rua configuram um novo lugar para o poeta e o artista: o anonimato, a sensibilidade cultivada na multidão, a poesia feita em ato. O artista, assim como a obra de arte, começa a perder a sua aura de eleito e inspirado pelas musas ou pelos deuses.

Histórias de cronópios e de famas

Julio Cortázar (Trad. Gloria Rodriguez, Civilização Brasileira, 1964)

Além de contista, Cortázar é autor de ensaios que procuraram definir algumas linhas de força da prosa curta. Seus textos sobre o conto, reunidos em “Valise de cronópio”, são incontornáveis. E esta coleção de pequenas pérolas protagonizadas pelos cronópios, famas e esperanças é desconcertante. Além dos pequenos contos do título, há também as “Estranhas ocupações”, textos a um só tempo narrativos, memorialísticos e líricos, e os contos indefiníveis que abrem o livro, “Manual de instruções”, com recomendações de como subir escadas, chorar ou matar formigas em Roma.

Região

Zulmira Ribeiro Tavares (Companhia das Letras, 2012)

O volume reúne os principais livros de ficção curta de uma das escritoras brasileiras mais interessantes da segunda metade do século 20 – que também foi grande romancista –, autora de “O nome do bispo” e “Café pequeno. “Região traz textos até então inéditos e os contos “Termos de comparação”, “O japonês dos olhos redondos”e “O mandril”. Na forma brevíssima de alguns dos contos da autora é possível sentir a ironia cortante herdeira de Machado de Assis e Oswald de Andrade.

Pico na veia

Dalton Trevisan (Record, 2002)

O autor já era um dos nossos maiores contistas quando publicou este “Pico na veia”, com mais de 200 pequenos fragmentos narrativos. O livro atualiza (e exaspera) algumas das suas principais questões literárias e o ataque ao conservadorismo hipócrita da província, em sua mistura bem brasileira e bem atual: consumismo, religião, machismo, reificação. Tanto os temas como as formas ganham novas experimentações, e a própria natureza da forma se define em uma formulação que chama a atenção para o efeito da ficção no leitor: “um bom conto é pico certeiro na veia”.

Tipos de perturbação

Lydia Davis (Trad. Branca Vianna, Companhia das Letras, 2013)

A extensão dos textos da contista e tradutora Lydia Davis vão de uma única linha (com título, que faz parte do conto) a várias páginas. O conto, assim, na obra da autora, pode condensar toda uma existência em poucos caracteres ou desdobrar as possibilidades narrativas de personagens e situações. Os contos muitas vezes tematizam ou tangenciam a própria arte da escrita, mostrando que a forma curtíssima também é um campo autorreferente e reflexivo, que testa justamente os limites da literatura e das possibilidades da ficção.

Bruno Zeni é escritor, editor e doutor em teoria literária. É autor de "O fluxo silencioso das máquinas" (Ateliê Editorial, 2002), "Você é minha notícia secreta” (Quelônio, 2014) e “Sinuca de malandro – Ficção e autobiografia em João Antônio” (Edusp, 2016).

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