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A tradutora e revisora indica cinco livros de estreia brasileiros que falam sobre questões atuais sem deixar de lado a inovação na forma

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Sobre o que escrevem os autores brasileiros hoje? Que linguagem adotam e quem são os personagens que contam suas histórias? Se ler os clássicos é quase obrigatório para leitores avançados ou iniciantes, ler autores brasileiros estreantes é essencial para formar o rico panorama da literatura sendo produzida no país hoje.

Esta seleção traz cinco autores estreantes que falam sobre questões atuais como racismo, corrupção e violência, mas não deixam de lado a poesia e a inovação na forma – como se vê no belíssimo “O peso do pássaro morto”, de Aline Bei. Em todos eles, a linguagem refletirá a experiência de seus personagens, sejam eles a malfadada elite brasileira; uma mãe lidando com a perda e violência; uma criança traumatizada; moleques de uma comunidade do Rio de Janeiro; ou uma mulher negra em busca de suas raízes.

As sobras de ontem

Marcelo Vicintin (Companhia das Letras, 2020)

Com carreira no mercado financeiro, Marcelo Vicintin é uma voz nova na literatura brasileira. Se não são capazes de causar empatia, seus personagens nos levam mais para dentro de uma realidade que a maioria de nós só conhece pelo jornal: a da elite envolvida em corrupção, viagens luxuosas, banquetes e jogos de relacionamentos. O livro se divide entre dois personagens, Egydio e Marilu, que habitam esse mundo em polos diferentes. O primeiro, vem de uma família rica e foi condenado por corrupção na condução de sua empresa; a segunda é valorizada por sua beleza e ávida por subir na hierarquia social. Ambos vão descobrir de jeitos traiçoeiros o quanto as aparências são enganosas.

O quarto branco

Gabriela Aguerre (Todavia, 2019)

Publicada pela Todavia e finalista na categoria estreantes do Prêmio São Paulo 2020, a estreia de Gabriela Aguerre aborda maternidade e violência quando a protagonista, Gloria, volta ao seu Uruguai natal após sofrer um aborto. O luto experimentado pela protagonista se dá não apenas em relação à gestação interrompida, mas também à morte de sua irmã gêmea ainda quando crianças e principalmente, à perda (e tentativa de redescoberta) de sua identidade. Apesar do tema duro e pesado, Aguerre escreve com delicadeza, num romance bonito de se ler.

O sol na cabeça

Geovani Martins (Companhia das Letras, 2018)

Os 13 contos da aclamada estreia de Geovani Martins retratam jovens dos morros e bairros periféricos do Rio – como o próprio Martins, nascido em Bangu e morador do Vidigal, com um talento literário despertado em oficinas de escrita na comunidade. Desde o lançamento de “O sol na cabeça”, o autor se tornou uma das vozes da literatura brasileira às quais prestar atenção, em especial porque esse livro de contos descortinou para grande parte dos leitores brasileiros um mundo que muitos só conheciam de forma estereotipada: o das favelas do Rio de Janeiro.

Por cima do mar

Deborah Dornellas (Patuá, 2019)

Embora já tivesse publicado poemas, Deborah Dornellas fez sua estreia como romancista com “Por cima do mar”, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e vencedor do Prêmio Casa de Las Américas em 2019. Publicado pela independente editora Patuá, o livro traz uma reflexão sobre o racismo nas memórias da protagonista Lígia Vitalina na Ceilândia, periferia de Brasília e, anos mais tarde, em Angola. Indispensável para pensar a representação da mulher negra na literatura.

O peso do pássaro morto

Aline Bei (Nós, 2017)

O livro de estreia da jovem autora, finalista do Prêmio São Paulo de 2018, relata as mudanças na vida de uma mulher dos oito aos 52 anos – segundo Bei, é uma história sobre perdas, que surgiu a partir de uma experiência da infância, quando um canário morreu em sua mão. A poesia desse romance curtinho se revela tanto no conteúdo quanto na forma, já que se trata de um romance escrito em versos. E a escolha de palavras de Bei é sempre cirúrgica, como só poderia ser um romance dedicado a dores, perdas e afetos como aquele entre mãe e filha.

Laura Folgueira é tradutora, preparadora e revisora de textos de algumas das maiores editoras do país, como Companhia das Letras, HarperCollins e Planeta. É mestre em estudos da tradução pela USP (Universidade de São Paulo) e e especialista em literatura brasileira pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). É autora de “Eu e não outra: a vida intensa de Hilda Hilst” (Tordesilhas, 2018).

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