Foto: Talita Duvanel/Divulgação

O jornalista Tiago Rogero indica cinco livros de autores negros que tratam de fatos históricos e novas formas de escrever em seus romances

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Há uns cinco anos, decidi que só leria livros escritos por pessoas negras, ou por pessoas brancas que trabalhem bem a questão da branquitude. Isso pode soar um pouco "agressivo" ou "radical" – e radicalidades são importantes, afinal geram tensões e mudanças , mas foi motivado sobretudo pela conclusão de que, até àquele momento da minha vida, fosse por meio da escola, da faculdade ou pelas recomendações de "boas leituras" da mídia tradicional, eu praticamente havia lido somente autores brancos. E isso, sim um mercado editorial que por tanto tempo ignorou a produção intelectual negra , é radical e agressivo. E pouco inteligente. Não por acaso, é o arrebatador sucesso de autoras e autores negros (como Djamila Ribeiro, Chimamanda Ngozi Adichie, Itamar Vieira Junior e Lázaro Ramos) que, nos últimos anos, tem sido a salvação desse mesmo mercado.

Então minha decisão de ler somente obras de pessoas negras foi simplesmente para recuperar o tempo perdido. E que delícia tem sido descortinar esse novo mundo. Embora eu tenha uma queda por biografias, é com os romances que gosto de passar meus momentos de descanso. E abaixo listo cinco que me tocaram profundamente.

Um defeito de cor

Ana Maria Gonçalves (Record, 2006)

Quando recomendo o livro de Ana Maria Gonçalves para alguém (e o faço com frequência), costumo dizer que é "a aula de história que nunca tivemos". Embora seja um romance histórico , a pesquisa tão detalhada nos transporta para um Brasil que definitivamente não conhecemos. Tive o prazer de ler a obra quando já havia tido boa parte das aulas de uma especialização que fiz em história e cultura africana e afrobrasileira. E cada vez em que me deparava na sala de aula com algo que havia aprendido no livro, eu literalmente ficava arrepiado. É uma viagem não só ao passado, mas para dentro de nós mesmos. E ajuda a entender como chegamos, como país, a este momento.

Nada digo de ti, que em ti não veja

Eliana Alves Cruz (Pallas, 2020)

Sou suspeito para falar de Eliana Alves Cruz porque não há uma vírgula produzida por ela que eu não consuma maravilhado (seja nas redes sociais, nas colunas ou nos livros). Entre as obras literárias, acho difícil escolher uma favorita ("Água de barrela", por exemplo, tem todos os predicados de "Um defeito de cor"), mas "Nada digo de ti, que em ti não veja" me pegou de um jeito diferente. Também um romance histórico e, como outro de Eliana, "O crime do Cais do Valongo", um thriller, o livro segurou minha atenção da primeira à última palavra, com direito a saborosas surpresas.

Garota, mulher, outras

Bernardine Evaristo (Trad. Camila von Holdefer, Companhia das Letras, 2020)

Gosto muito de livros que me fazem imaginar novas formas de escrever, de organizar palavras. Lembro de ter sentido isso pela primeira vez ao ler, adolescente, "Eu sou o mensageiro", de Markus Zusak. Foi quando "descobri" que era "permitido" escrever parágrafos de só uma frase. Às vezes, de só uma palavra.

Assim.

E, muitos anos depois, fui experimentar a mesma sensação com esta obra da britânica Bernardine Evaristo, que, não por acaso, é professora universitária de escrita criativa. À primeira vista, choca a ideia de um livro sem pontos finais, aspas; mas qualquer estranheza é dissipada logo nas primeiras páginas, com um texto fluido, envolvente e brilhante ao apresentar tantos pontos de vistas diferentes de garotas, mulheres, outras.

A dança da água

Ta-Nehisi Coates (Trad. José Rubens Siqueira, Intrínseca, 2020)

Para começar, foi a obra que me apresentou, logo na epígrafe, à frase do escritor abolicionista estadunidense Frederick Douglass (1818-1895): “Meu papel foi contar a história do escravo. Para a história do senhor não faltam narradores". Uma frase que por muito tempo tem norteado meu trabalho, mesmo antes que eu a conhecesse. Embora essa seja a única participação direta (porque indireta há muitas, vide que foi e é um dos principais intelectuais dos EUA) de Douglass no livro, outra figura histórica abolicionista, importantíssima na História do país, está na obra mas aqui não revelarei quem, para não dar spoilers. Uma das coisas que mais admiro na produção midiática dos EUA é a capacidade (possibilitada por acervos e documentos históricos mais bem preservados do que por aqui) de retratar e ressignificar figuras do passado. E isso "A dança da água" o primeiro livro de ficção de Ta-Nehisi Coates faz com maestria.

Marrom e amarelo

Paulo Scott (Alfaguara, 2019)

Não me esqueço de ler uma pesquisa sobre consumo de podcasts, nos EUA, que dizia que o motivo principal pelo qual as pessoas ouviam um programa era para "aprender/conhecer" algo. Não sei se com livros também funciona assim, e nem é o que particularmente procuro ao começar uma leitura, mas sempre acho extremamente prazeroso terminar uma obra sentindo que aprendi; seja um fato histórico, uma informação ou um ponto de vista. E "Marrom e amarelo" me trouxe (eu, um homem negro de pele clara criado na periferia de Belo Horizonte e que, há 10 anos, mora no Rio de Janeiro; ou seja, com uma experiência bem sudestina) vários desses momentos, com uma crítica e cativante visão sobre algumas vivências de negritude em Porto Alegre, no Sul e no Brasil de uma maneira geral.

Tiago Rogero é jornalista. Idealizador e apresentador dos podcasts narrativos Vidas Negras (original Spotify produzido pela Rádio Novelo) e Negra Voz (pelo jornal O Globo). Vencedor do 42º Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog (2020) com o Negra Voz. Foi repórter de O Globo, O Estado de S. Paulo e BandNews FM. Em 2019, foi fellow do ICFJ (International Center For Journalists), nos EUA, com foco na produção de podcasts.

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