Foto: Rodrigo Erib/Divulgação

O escritor, roteirista e jornalista indica cinco livros clássicos para conhecer a literatura de humor

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. A maior parte de nossos conteúdos são exclusivos para assinantes, mas esta seção é de acesso livre sempre. Aproveite para experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

A narrativa longa de humor é das coisas mais complicadas da literatura. O problema é manter o fôlego e a graça. Na crônica, é fácil. É set up, desenvolvimento e punch line, como se fosse uma anedota mais elaborada. No livro, no romance, tudo muda. O primeiro risco é que a “piada” perca a graça. O segundo é que a estrutura da história acabe comprometida para encaixar episódios cômicos. Apesar dessas dificuldades, a narrativa longa de humor inclui gente de peso como Rabelais, Swift e Cervantes, entre dezenas de outros. Listar apenas cinco livros foi difícil. Deixei propositalmente de fora “O guia do mochileiro das galáxias”, de Douglas Adams, que se encaixa melhor em outra categoria, a das “narrativas fantásticas de humor”. Mas isso é conversa pra outra hora.

Furo!

Evelyn Waugh (Trad. Roberto Perosa, Companhia das Letras, 1989)

O editor do jornal inglês The Daily Beast confunde um repórter de guerra chamado William Boot com um cronista provinciano chamado John Boot e envia o homem errado para cobrir a guerra civil da Ismaélia, país fictício na África Central. John Boot não tem a mínima ideia do que está fazendo, mas ele não é o único. Os outros correspondentes de guerra passam o dia inteiro no hotel, inventando conflitos que não existem. O governo do país mente o tempo todo e os supostos guerrilheiros estão tão embrenhados na selva que ninguém sabe se eles são reais. Apesar de todos os desacertos, Boot consegue o que ninguém tem: um furo de reportagem. Waugh, que também foi jornalista, trata a profissão com o sarcasmo e a ironia que ela merece.

Obrigado, Jeeves

P.G. Wodehouse (Trad. Cassio de Arantes Leite, Editora Globo, 2005)

So sorry, mas o segundo escritor também é inglês. Os nativos da Pérfida Albion são muito bons em narrativas cômicas e Wodehouse é um dos mais divertidos entre eles. Ele escreveu 14 livros com o aristocrata decadente Bertie Wooster e seu mordomo Jeeves, um faz-tudo que vive resolvendo as confusões que o patrão cria. As tramas se passam sempre em casas de campo enormes, com casais se desentendo por motivos bestas e velhas tias endinheiradas se metendo em tudo. Todos os livros são divertidos e esquecíveis, mas muito bons para tardes preguiçosas. “Obrigado, Jeeves” é igual a todos os outros, mas tem Bertie Wooster com uma barbicha insolente e um banjo insuportável, o que irrita o mordomo de tal maneira que ele é obrigado a pedir demissão. É uma sitcom em forma de literatura. Breve e leve como um episódio de Seinfeld.

The Mouse That Roared

Leonard Wibberley (Createspace Independent Publishing Platform, 2015)

O americano Wibberley escreveu mais de 50 livros para adultos e crianças, mas sua “série do rato”, uma sátira à Guerra Fria, é a mais popular. Esse romance de 1955 se passa no ducado de Grand Fenwick, um minúsculo país europeu (fictício como a Ismaélia de Waugh) próximo aos Alpes. A economia local depende de um único produto, o vinho Pinot Grand Fenwick. Tudo vai bem até que os americanos da Califórnia roubam o mercado com uma versão “pirata”, o Pinot Grand Enwick, levando o país à bancarrota. Sem alternativa, o condado declara guerra aos Estados Unidos com a intenção de ser derrotado, para que um Plano Marshall o salve da recessão. O problema é que o pequeno exército de 20 arqueiros vence a guerra. Pior ainda: Grand Fenwick se torna uma potência nuclear, ao lado dos Estados Unidos e da União Soviética. Wibberley escreveu cinco livros dessa série, nenhum deles traduzido para o português. Em 1959, o livro virou filme com Peter Sellers em vários papéis.

O púcaro búlgaro

Campos de Carvalho (José Olympio, 2008)

Depois de ver um púcaro búlgaro num museu da Filadélfia, o obstinado narrador anônimo decide organizar uma expedição à Bulgária, para comprovar se o país de fato existe. Ele coloca um anúncio no jornal e fica à espera de desbravadores voluntários, que acabam aparecendo. O livro não tem uma trama exatamente linear: é um diário pormenorizado dos preparativos para a viagem, que só começa no último capítulo. Nada disso importa, porque o humor de Campos de Carvalho é baseado no nonsense, em especulações filosóficas e no mais puro besteirol. Ele é um dos nossos maiores escritores, mas nós somos sérios demais para admitir isso.

Ardil 22

Joseph Heller (Trad. A. B. Pinheiro de Lemos, Best Seller, 2010)

Joseph Heller divide com Kurt Vonnegut o título de melhor satirista antibelicista do século 20. Mas Vonnegut quase sempre desliza para a depressão, enquanto Heller mantém o humor mesmo sob tiroteio. “Ardil 22” conta a história de Yossarian, um completo maluco que é tripulante de um avião bombardeiro durante a Segunda Guerra Mundial. A trama circular vai crescendo em horror e absurdo até que a própria guerra se transforma num subproduto do mercado negro administrado pelos oficiais americanos. “Ardil 22” foi leitura obrigatória entre os ativistas que protestavam contra a guerra do Vietnã e é considerado um dos livros mais subversivos da literatura americana. O que, aliás, guarda uma lição importante: humor ou é subversivo ou não serve pra nada.

Edson Aran é escritor, roteirista, jornalista e cartunista. É autor de 11 livros de ficção e não-ficção. O mais recente é o livro de humor “Histórias jamais contadas da literatura brasileira” (Revista Bula), que também é ilustrado por ele. Como roteirista, Aran trabalhou na reformulação do humorístico “Zorra”, da TV Globo. Escreveu para o “Vai que cola” (Multishow), Drª. Darci (Multishow), “A culpa é do Cabral” (Comedy Central), para a animação infantil “História das invenções” (Pulo do Gato Animação) e criou a série de vinhetas “History Drink” (History Channel). Como jornalista, foi diretor das revistas Vip, Sexy e Playboy, a segunda maior edição dessa revista no mundo.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.