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O teólogo Ronilso Pacheco indica cinco livros que discutem a relação entre capitalismo, racismo e escravidão

A racialização e a escravidão foram fundamentais para a consolidação e sobrevivência do capitalismo. A segregação imposta pela Europa entre povos “nascidos” para dominar e os “nascidos” para serem dominados foi determinante não apenas para estabelecer o continente como centro do mundo, mas o capitalismo como seu sistema e sua estrutura. Aqui, indico cinco obras que me ajudaram a compreender esta relação e suas diversas manifestações, bem como seus efeitos nos sujeitos negros e demais racializados, um conhecimento tão necessário hoje.

Capitalismo e escravidão

Eric Williams (Trad. Denise Bottmann, Companhia das Letras, 2012)

Publicado em 1944, este ainda é um dos trabalhos mais importantes e referenciais sobre o assunto, escrito por um historiador de Trinidad e Tobago. As origens da escravidão negra, o capitalismo britânico e da Era Industrial são alguns dos temas levantados por Williams. O autor nos ajuda a entender como não apenas o sistema se beneficiou da escravidão e do racismo, mas sobretudo como o capitalismo seria impensável sem a manutenção desta estrutura. Ao tratar a escravidão negra e o tráfico de escravizados como fundamentais para a Revolução Industrial na Inglaterra, o historiador lança luz sobre a presença da herança colonial e escravocrata na atualidade.

Como a Europa subdesenvolveu a África

Walter Rodney (Trad. Edgar Valles, Serra Nova, 1975)

Um dos mais brilhantes intelectuais de sua geração, Walter Rodney teve uma intensa vida de pensamento e militância. Nascido na Guiana, desenvolveu a maior parte das suas atividades na Tanzânia, onde lecionou e atuou. Este é um dos seus últimos livros, publicado antes de seu assassinato em 1980. Rodney define o desenvolvimento como a capacidade para um crescimento autossuficiente, onde a economia pode registrar avanços que promovam o progresso social. Neste sentido, ele trata da expropriação europeia sobre o continente africano, concentrada entre os séculos 15 e 19. E a conclusão de sua obra não chega a ser surpreendente: todos os países do mundo identificados como “subdesenvolvidos” são explorados por outros, de diversas maneiras, e há muito tempo. E todos os países identificados como “desenvolvidos” o foram como legado da exploração colonialista, imperialista e (hoje) capitalista. Livro crucial, que carece urgentemente de uma edição brasileira.

A integração do negro na sociedade de classe

Florestan Fernandes (Editora Ática, 1978)

Chegamos a um compatriota, autor fundamental para nos ajudar a entender os efeitos da escravidão no Brasil e na formação das classes sociais econômicas no Brasil. Florestan tem o importante trabalho, nesta obra, de desconstruir dois mitos: tanto aquele da democracia racial quanto o equivocado imaginário da relação harmoniosa das etnias no Brasil. O “complexo de privilégios de comportamento e valores de uma ordem social arcaica” identificado por ele continua presente e vivo no Brasil contemporâneo. Florestan era um entusiasta da tese de que, quanto mais fosse inserida e protagonizasse a classe trabalhadora, mais bem sucedida seria a população negra na sua luta por direitos e emancipação. Uma tese, no entanto, que elimina a separação entre raça e classe, um debate que carece de discussão e reflexão atualizadas. No entanto, o que faz de Florestan um pensador fundamental é a oportunidade de entender como a herança de uma economia escravista e escravocrata entra na formação econômica da sociedade brasileira e na condição marginal da população negra.

Ontological Terror

Calvin L. Warren (Duke University Press, 2018)

Poderoso tratado filosófico, o livro de Warren se insere nas discussões atuais nos Estados Unidos sobre o chamado “afropessimismo” e as suas diversas implicações sobre a subjetividade negra. Uma destas implicações pode ser os efeitos do capitalismo e seu fundo de exploração, sujeição e escravismo, que faz com que ele enquanto sistema atinja de maneira mais aguda as pessoas negras, estejam elas conscientes ou não disso. Mesmo sem tradução para o português, incluo Warren nesta lista exatamente por suas duras provocações. Para ele, certas reivindicações do povo negro, como reconhecimento de dignidade, direito, inclusão na estrutura de poder e igualdade não tem lugar na realidade. Isso porque a violência antinegra, na qual o capitalismo se funda, é parte de uma organização de mundo segundo a qual o negro não é um sujeito político. É este o “terror ontológico” ao qual Warren se refere: o medo de se reconhecer sem lugar em uma estrutura criada e organizada para não permitir lugar ao ser negro.

Racial Ecologies

Leilani Nishime e Kim D. Hester Williams (University of Washington Press, 2018)

Esta indicação é para que não se perca de vista que o capitalismo e seu instinto de exploração e sujeição não marca apenas os corpos negros e subalternos, mas também altera profundamente o meio no qual vivemos. É bem verdade que no Brasil, estamos mais familiarizados com o debate sobre “racismo ambiental” e, claro, a gentrificação. Estas definições, no entanto, muitas vezes ficam restritas às reflexões sobre os corpos negros urbanos. A ideia aqui é mostrar como a identidade escravista e extrativista do capitalismo tem afetado profundamente o meio ambiente como um todo, empurrando populações inteiras, em especial as populações negras e indígenas, para as piores condições de sobrevivência. É uma coletânea de artigos que pretende dar conta de assuntos diversos: a contaminação das águas do Missouri com chumbo industrial, a violência policial contra afro-americanos, a favelização, a resistência maori na Nova Zelândia contra a exploração de combustíveis fósseis.

Ronilso Pacheco é teólogo pela PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), pastor auxiliar na Comunidade Batista em São Gonçalo, ativista e escritor. É pesquisador e mestrando no Union Theological Seminary, da Columbia University, em Nova York. Autor de "Teologia negra, o sopro antirracista do Espírito", “Profetismo, utopia e insurgência” e "Ocupar, resistir, subverter: igreja e teologia em tempos de violência, racismo e opressão”. É fellow da Ford Foundation Global Fellowship.

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