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A tradutora Flora Thomson-DeVeaux indica livros que mostram como funciona o seu ofício

Depois que publiquei um ensaio na revista piauí sobre o processo pelo qual traduzi “Memórias póstumas de Brás Cubas” para o inglês, muita gente me procurou — tanto tradutores felizes de ver as minúcias da profissão sendo debatidas quanto leigos fascinados pelos detalhes. Pensando nisso, elenquei alguns livros que refletem sobre a arte da tradução, escritos ou organizados por tradutores. Peço perdão de antemão pela forte presença anglófona na lista, mas acaba que muitas leituras que me marcaram ainda não têm tradução para o português (fica a dica para os colegas e editoras).

Ah, e não venham com “tradutore, tradittore”, que essas obras mostram que a coisa é muito mais complexa.

A tradução vivida

Paulo Rónai (José Olympio, 2012)

Um dos meus trechos preferidos vem logo no começo, em que Rónai — húngaro de nascimento, tradutor de, entre outras coisas, Balzac para o português e “Memórias de um sargento de milícias” para o francês — passa várias páginas desfilando as mais variadas metáforas e comparações que têm sido usadas para definir o trabalho de um tradutor. Nesta pequena citação, a diversidade de opiniões fala por si só: “Kenneth Rexroth considera o tradutor um bom advogado ao serviço do autor, antes que o bastante procurador deste; Meyer-Clason chama-lhe um advogado de dois clientes, um corretor de câmbio na bolsa de dois idiomas — bem mais generosos do que Mme. de La Fayette, que encarava o mau tradutor (ainda bem que só o mau!) como um criado bronco que repetia às avessas uma mensagem importante que lhe fora confiada, ou Lope de Vega, que assemelhava o tradutor tout court a um contrabandista de cavalos”. O livro passa do geral para o muito específico, discorrendo tanto sobre os desafios da tradução poética como a discreta expressividade das aspas.

A tradução literária

Paulo Henriques Britto (Civilização Brasileira, 2012)

Outro livro “short and sweet” por outro tradutor prolífico, íntimo tanto de Elizabeth Bishop quanto de Thomas Pynchon (para não esgotar o parágrafo listando nomes). Vale a leitura pelos comentários cortantes — contra aqueles que desistem da tarefa alegando a imperfeição inevitável, ele observa que nem pela inevitabilidade de acidentes aéreos os técnicos desistem de desenvolver medidas de segurança —, pelos exemplos fascinantes que ele apresenta nas discussões de traduções de poesia. As reflexões sobre a oralidade no português brasileiro e o olhar crítico sobre o funcionamento da linguagem jogam luz não só sobre a tarefa do tradutor, como também sobre a maneira como a gente vive e se expressa no Brasil. E assino embaixo disso aqui: “É lamentável que ainda não exista uma prática institucionalizada de crítica de traduções — uma crítica séria, responsável, fundada em argumentos concretos. E a avaliação de traduções, fundada em critérios relativamente objetivos, é um aspecto relativamente pouco explorado no campo dos estudos da tradução.”

Nineteen Ways of Looking at Wang Wei

Eliot Weinberger e Octavio Paz (W.W. Norton & Company, 2016)

‘O corvo’ e suas traduções

Ivo Barroso (Sesi-SP, 2018)

Poema de sete faces

Carlos Drummond de Andrade (Companhia das Letras, 2011)

Vou roubar feio aqui e indicar três livros, mas os três são finos — inclusive fisicamente. O que os une é a ideia de apresentar as várias traduções de um único poema, acompanhadas de uma introdução que comenta tanto os desafios únicos do texto quanto as abordagens dos tradutores. Wang Wei, um poema chinês brevíssimo do século 8, é apresentado em 19 traduções para o inglês; com “O corvo”, temos a oportunidade de ler as rimas sinistras de Edgar Allan Poe em traduções feitas por Mallarmé e Machado de Assis; em “Poema de sete faces”, recomendo vivamente a experiência de ler o poema de Drummond em seis línguas além do português. Os tradutores podem pegar ideias, e os não-tradutores podem observar como um único texto pode desabrochar dos jeitos mais diferentes. Os organizadores, naturalmente, são escritores e tradutores: Eliot Weinberger e Octavio Paz, Ivo Barroso, e Davi Arriguci Jr, que assina o posfácio da edição de Drummond.

The Poetics of Translation: History, Theory, Practice

Willis Barnstone (Yale University Press, 1995)

O livro de Barnstone, que é responsável por traduções várias de línguas várias — Borges, Safo, Rilke, o Novo Testamento — cumpre o que promete no título. Dá um bom resumo histórico, teórico e prático dos eternos debates que assombram os tradutores há séculos, como o valor do literalismo e o quanto o tradutor deve trabalhar para aproximar o texto do leitor, ou vice-versa. Essas questões são apresentadas com forte lastro na história: vão desde detalhes biográficos do santo padroeiro dos tradutores, o irascível Jerônimo, até relatos de tradutores para quem produzir uma nova versão da Bíblia acabou sendo — literalmente — uma missão suicida. Ainda na pegada teológica, Barnstone propõe que revisitemos a palavra grega “angelos”, anjo, que também pode ser traduzida como “arauto” ou “mensageiro”, e que, por um mero acidente etimológico, não acabou não se tornando também a palavra que usamos para designar o “tradutor”.

The Subversive Scribe: Translating Latin American Fiction

Suzanne Jill Levine (Dalkey Archive Press, 1996)

O “Subversive Scribe” já tem tradução para o espanhol, porque Levine é uma das principais tradutoras vivas da literatura latino-americana de língua espanhola para o inglês — ela tem trabalhado mais recentemente com a obra da argentina Silvina Ocampo. Enquanto eu traduzia Machado de Assis, li com inveja as descrições de Levine do que ela chama de “closelaborations” (colaborações próximas, ou íntimas) com alguns autores enquanto eles estavam vivos, entre eles os cubanos Guillermo Cabrera Infante e Severo Sarduy e o argentino Manuel Puig. No caso do romance “A traição de Rita Hayworth”, Puig chegou a passar trechos não publicados no original em espanhol para que Levine pudesse entender alguns dos diálogos e traduzi-los para o inglês.

Flora Thomson-DeVeaux é escritora, tradutora e diretora de pesquisa na Rádio Novelo. É responsável pela nova tradução para o inglês de "Memórias póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis, lançado nos EUA em 2020.

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