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A diretora e roteirista de documentários Fernanda Polacow indica cinco livros com temas que funcionariam bem em uma linguagem cinematográfica

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O documentário é um gênero cinematográfico fascinante, já que ao mesmo tempo que trata do real, é também o recorte e o olhar de quem está por trás da câmera. O debate sobre ser ou não o documentário uma realidade subjetiva segue infinito. Mas o importante é pensar que, uma vez feito e solto por aí, ele colabora para multiplicarmos possibilidades individuais e coletivas de interpretação da vida.

Eu, empregada doméstica: a senzala moderna é o quartinho da empregada

Preta Rara (Letramento, 2019)

Não é coincidência que seguidas gerações de mulheres negras sejam levadas a trabalhar como empregadas domésticas no Brasil. Isso é resultado do ranço colonial e de uma estruturação social que incorpora e mimetiza os tempos da escravidão. Hoje vemos, finalmente, uma quebra deste “destino” com mulheres que conseguiram cursar faculdades e traçar um novo caminho profissional. No entanto, romper este ciclo é superar uma série de opressões.

O livro de Preta Rara, ela mesma tendo sido trabalhadora doméstica por sete anos, nos leva a refletir sobre este suposto Brasil moderno e descolonizado. Olhar para este tema e buscar as vozes destas mulheres que seguem em relações de trabalho de abuso, racismo, machismo e preconceito de classe expõe contradições bem brasileiras. E a pergunta que fica é “será possível um país emancipado e justo enquanto for sempre uma mulher negra que limpa o seu banheiro?”.

O oráculo da noite

Sidarta Ribeiro (Companhia das Letras, 2019)

Os sonhos perderam espaço na mesa de jantar. Este é, para mim, o grande mote deste livro que investiga e explica a mágica que acontece no nosso cérebro quando não estamos em vigília. Ignorar boa parte do que se passa com a nossa mente, como se ela simplesmente apagasse durante tantas horas diariamente, é não olhar para as nossas próprias assimilações subjetivas e nossas memórias. A modernidade deixou de lado os sonhos e com isso perdeu um instrumento poderoso de interpretação e cura pessoal e coletiva. Não é à toa – como mostra o livro – que muitos povos sempre colocaram o sonho num lugar de extrema importância social.

Retratar como as experiências oníricas se refletiram na cultura ao longo da história é um caminho interessante para um filme. Nabucodonosor, o antigo rei da Babilônia, acreditava que sonhos eram a forma como os deuses revelavam suas vontades aos homens. Se continuarmos a não prestar atenção neles, a humanidade poderá se esquecer por completo que um dia eles chegaram a decidir o destino de impérios.

Luanda, Lisboa, Paraíso

Djaimilia Pereira de Almeida (Companhia das Letras, 2019)

A escrita diaspórica de Djaimilia é não só contundente como profundamente emocionante. Portuguesa descendente de angolanos, ela traz neste livro a realidade dos que vivem as relações pós-coloniais com ambiguidade e dor. Cartola é pai de Aquiles, ambos angolanos e que em certa altura da vida decidem emigrar para Portugal em busca de cura – física e não só. O que não imaginavam é que rumavam para um país que jamais os acolheria verdadeiramente. Muito tempo se passou desde as diversas independências dos países lusófonos. Como se relacionam aqueles que falam a mesma língua mas possuem sonhos tão díspares? Qual é a convivência possível? Como trabalhar, nos fluxos migratórios atuais, as trocas e possibilidades de vida? Quem são essas pessoas que seguem cruzando os mares, o que buscam e o que alcançam?

Calibã e a bruxa

Silvia Federici (Trad. Coletivo Sycorax, Elefante Editora, 2017)

Este livro traz uma abordagem inédita sobre as origens do capitalismo. A obra defende que, enquanto morriam nas fogueiras as bruxas perseguidas e acusadas, queimavam também as mulheres que, em sua época, representavam a resistência ao incipiente capitalismo. Eram mulheres que tinham acesso à terra, conheciam a natureza e tinham autonomia sobre seus corpos. O processo de caça às bruxas rompeu com esse protagonismo, estipulou a divisão sexual do trabalho, jogou as mulheres para serviços domésticos e contribuiu para o triunfo do capitalismo. Adoraria ver na tela esta investigação do passado chegar até o presente, buscando quem são as bruxas atuais, que seguem perseguidas em muitos países do mundo.

A literatura nazista na América

Roberto Bolaño (Trad. Rosa Freire d'Aguiar, Companhia das Letras, 2019)

Publicado há mais de 20 anos, esse livro poderia ter sido escrito hoje. É uma compilação de histórias de vida de vários escritores de extrema direita. No entanto, não passam de pessoas imaginárias, descritas por Bolaño num tom de paródia. E me parece que nada é mais atual no Brasil e no mundo do que o protagonismo que andam alcançando pessoas alinhadas com o pensamento extremista, que deveriam ter seus lugares apenas no mundo da comédia noir. Fica aqui o convite para descortinarmos a teia de personagens malucos e desavergonhados que trabalham incessantemente para criar um mundo pior.

Fernanda Polacow é roteirista e diretora de documentários e vive entre São Paulo e Lisboa. Atualmente dirige o documentário "Tarântula" com a banda As Bahias e a Cozinha Mineira. Escreveu o roteiro do filme "Mosquito", exibido na abertura do Festival Internacional de Filmes de Roterdã em janeiro de 2020, obra que oferece uma nova perspectiva sobre as colonizações europeias pelo mundo.

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