Foto: Divulgação

O jornalista e escritor Carlos Marcelo indica cinco romances policiais que surpreendem o leitor com observações sociais, políticas e existenciais

O assassinato de Roger Ackroyd

Agatha Christie (Trad. Renato Rezende, Globo Livros, 2014)

Esta história de Hercule Poirot é narrada em primeira pessoa por um médico, Dr. Sheppard, que auxilia o detetive belga na investigação do assassinato de um industrial em uma cidadezinha do interior da Inglaterra. Além da mordacidade na exposição das dissimulações e contradições da sociedade britânica da primeira metade do século 20, Agatha Christie lança mão de um recurso narrativo engenhoso que influencia grandes autores até hoje — como Olga Tokarczuk, Nobel de Literatura, em “Sobre os ossos dos mortos”. A leitura do último capítulo, “Apologia”, ainda provoca sorriso e espanto.

Um lugar perigoso

Luiz Alfredo Garcia-Roza (Companhia das Letras, 2014)

Um professor universitário confessa crime que não sabe se cometeu. Eis o ponto de partida de uma das mais surpreendentes histórias de Espinosa, o ético delegado que protagoniza a série de romances policiais do psicanalista carioca Luiz Alfredo Garcia-Roza. Entre as andanças em seu bairro, Copacabana, Espinosa precisa investigar a memória traiçoeira (“estrada malconservada, com grande quantidade de buracos”) do investigado, que não consegue se livrar da imagem do corpo desmembrado de uma mulher.

Assassinos sem rosto

Henning Mankell (Trad. Beth Vieira, Companhia das Letras, 2001)

No boom de romances policiais escritos por autores nórdicos, o sueco Mankell soube se diferenciar por inserir, de forma harmoniosa, tensões e impasses sociais contemporâneos em suas tramas. Em “Assassinos sem rosto”, há mortes violentas, pistas falsas e reviravoltas, um investigador carismático (Kurt Wallander), tudo como convém ao gênero. Mas também há a atmosfera sombria provocada pela xenofobia, que acentua o clima de permanente desconfiança em um lugarejo no sul da Suécia, onde “envelhecer é viver com medo”.

A cada um o seu

Leonardo Sciascia (Trad. Nilson Moulin, Alfaguara, 2007)

Com tramas ambientadas no pós-guerra italiano, Sciascia fazia questão de misturar política e polícia em seus romances. O conluio do Estado com o crime organizado e a deterioração do tecido social são o pano de fundo das histórias ambientadas na Sicília, onde a morte é “uma formalidade” e a investigação de um assassinato não implica, necessariamente, na punição dos culpados. Qualquer semelhança com o Brasil não é mera coincidência. Em registro menos sisudo, mas igualmente atento ao contexto político e social, vale conhecer os casos investigados pelo inspetor Salvo Montalbano na série de romances do prolífico Andrea Camilleri.

A transparência do tempo

Leonardo Padura (Trad. Monica Stahel, Boitempo, 2018)

Qualquer um dos quatro volumes da tetralogia Estações Havana pode funcionar como eficiente porta de entrada para o universo do investigador cubano Mario Conde. Nos livros mais recentes, no entanto, Padura vai mais fundo. Sem pressa e com minúcia de historiador, ele transforma a missão de seu personagem — recuperar a imagem de uma Virgem negra — em uma impressionante jornada pelos séculos, que vai da Idade Média até a Guerra Civil Espanhola. E ainda mergulha Conde em um turbilhão de inquietudes, provocadas pelas frustrações de sua geração e pelas consequências da crise econômica em seu país.

Carlos Marcelo é jornalista e escritor. Diretor de redação do Estado de Minas, é autor da biografia “Renato Russo: o filho da revolução” (Planeta), do livro-reportagem “O fole roncou: uma história do forró” (Zahar) e do romance policial “Presos no paraíso” (Tusquets), publicado em 2019 na França pela editora Gallimard. Escreveu também o ensaio “Crimes sem fronteiras: deslocamentos no romance policial” (Revista Z Cultural, UFRJ, 2015). Seu próximo romance, “Os planos”, será lançado em 2021 pela editora mineira Letramento.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.