Foto: Rogério Alves/Divulgação

O escritor pernambucano indica cinco livros que mostram o que Recife tem de melhor e pior

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A primeira lembrança que tenho da cidade, do Recife, é de um Carnaval. Eu, muito menino, preso em um carro que corria pela praça Maciel Pinheiro desviando dos foliões, ia para o Hospital Português onde meu avô convalescia. Certamente que não foi nessa hora que compreendi, mas nesse momento passei a conviver com uma urbe de contradições, alegrias e tristezas, sonhos e desilusões.

Vivendo no interior, a cidade me chegava pelo relato dos cronistas, dos escritores. Um deles falava da Estrada dos Remédios cercada por mangueiras. E fui descobrindo os segredos vividos sob os telhados seculares dos sobrados, a miséria oculta pelas folhas dos mangues, pelas paredes precárias dos mocambos, a glória da piedade resvalando nas grossas paredes das igrejas.

Mecanismo vivo e contraditório, Recife tinha, e ainda tem, poesia. Lêdo Ivo fala de uma mulher à beira-mar, Ascenso Ferreira das assombrações do cais, Mauro Mota das mocinhas iludidas pelos soldados em guerra, dando razão a Carlos Pena Filho: “Recife, cruel cidade, / águia sangrenta, leão. / Ingrata para os da terra, / boa para os que não são.” Carlos, no entanto, foi desmentido por João Cabral, que trouxe o sertanejo para o Recife e o deixa nos mangues, frente à morte incessante, e, ainda assim, com a esperança do monólogo do mestre carpina.

Sempre que ali desembarcava — e até hoje isso acontece — batia-me a sensação de pertencimento. “Sou do Recife com orgulho e com saudade”, solfejava Antônio Maria em meus ouvidos. Quando, enfim, cheguei para viver na cidade, na Boa Vista, já conhecia a intimidade dos mistérios de suas ruas. Tudo me chegara pela literatura, pelos relatos históricos e ficcionais, mas caminhando por suas vielas e avenidas, atravessando os rios, as pontes, descobri que um mistério nunca se revela plenamente.

Foi tentando desvendar a esfinge que a transformei em cenário para o romance “Não me empurre para os perdidos”. Um escritor estrangeiro, em junho de 1924, percorre as ruas da cidade procurando os sentidos da modernidade que os intelectuais tanto discutem no Café Continental, na esquina da Lafayete.

Mesmo depois de todo trabalho, o Recife continua em mim como algo onírico. Sim, ele é coisa de se pegar, é concreto, mas para ser pleno é preciso vivê-lo.

A emparedada da rua Nova

Carneiro Vilela (Cepe, 2013)

Um dos romances míticos da literatura pernambucana, talvez nosso maior clássico. Foi publicado originalmente entre 1886 e como folhetim, entre 3 de agosto de 1909 e 27 de janeiro de 1912, no Jornal Pequeno. Nunca chegou a ter divulgação nacional, apesar de servir recentemente de base para uma minissérie de televisão.

O enredo fala de um caso trágico. Em um sobrado da rua Nova, a jovem Clotilde, solteira e grávida, é emparedada viva pelo próprio pai, Jaime Favais, que também mata o amante da moça, o sedutor Leandro. Com o gesto Jaime pensa limpar a honra da família. Com todos os ingredientes de uma tragédia — ódio e amor, ciúme e paixão, intrigas e verdades — o romance faz um rico inventário da sociedade burguesa recifense do século 19.

Até hoje não se sabe se esta é uma história real, mas há quem garanta ouvir os gritos de socorro de Clotilde quando ainda hoje passa pela rua Nova.

O moleque Ricardo

José Lins do Rego (José Olympio, 2008)

Em seu quarto romance, José Lins do Rego conta a maturidade de Ricardo, o moleque da bagaceira do engenho Santa Rosa, cria do coronel Paulino. Buscando uma vida melhor, Ricardo migra para o Recife. O romancista trabalha com a paisagem suburbana, onde a miséria e a desigualdade gritam mais alto. São lugares insalubres, infestados de tuberculose e fome. É obra de um tempo de indignação, por isso se volta às lutas políticas, com líderes oportunistas e toda uma classe social usada como instrumento de ascensão ao poder. Ricardo, sacrificando as próprias pequenas conquistas, se rebela e se transforma num revolucionário visceral.

Há uma curiosidade literária em torno do romance. Graciliano Ramos era entusiasta do texto, mas fazia uma ressalva. Numa passagem o autor classifica um urubu como pássaro. E o mestre Graça esbravejava: “Esse Zé Lins é um irresponsável. Já cansei de dizer a ele que urubu é abutre e ele não corrige aquilo lá.”

Deus no pasto

Hermilo Borba Filho (Bagaço, 2010)

A primeira edição do romance é de 1972 e encerra a tetralogia “Um cavaleiro da segunda decadência”, onde Hermilo narra venturas e desventuras da geração que, em meados da década de 1930, começou a fazer a história pernambucana, marcada por um novo processo de decadência da cultura açucareira. Neste volume, ambientado no final dos anos 1950 e toda a década seguinte, o protagonista volta de uma temporada em São Paulo e tenta sobreviver e reativar as artes cênicas do Recife.

Entre a luta pela sobrevivência e a militância política, experimenta a dissolução de um casamento e o surgimento de uma nova e arrebatadora paixão, além da volta ao catolicismo e da discussão em torno de um teatro popular e da defesa da literatura erótica como uma forma de arte culta e meritória. Enfim, uma visão pessoal do Recife artístico, cultural e revolucionário. Uma cidade adaptada à condição de metrópole regional.

A rainha dos cárceres da Grécia

Osman Lins (Companhia das Letras, 2005)

Um professor secundarista encontra o texto de um romance escrito pela já falecida Julia Marquezim Enone. Nele, a história de duas mulheres: Maria de França, perdida na burocracia da década de 1970 ao tentar conseguir uma aposentadoria por invalidez, e Ana, uma delinquente que, no período de Nassau, vive fugindo e voltando para a prisão. Histórias e épocas se fundem numa narrativa em forma de diário, com o professor contando de suas leituras.

Um livro híbrido e inovador, onde a verdadeira personagem é a literatura e suas possibilidades.

A minha alma é irmã de Deus

Raimundo Carrero (Record, 2009)

Uma cidade degradada, não só no seu aspecto urbano, mas sobretudo em sua estrutura social e humana. Esse é o Recife que surge da prosa de Raimundo Carrero na tetralogia “Quarteto áspero”, que fecha com este volume. Aqui se fala de Camila, uma jovem que sonha ser santa e que, unida a Leonardo, o líder e pastor da seita Os Soldados da Pátria por Cristo, percorre as ruas do Recife em pregações inúteis, convivendo com uma sociedade de degradados.

Carrero faz a metáfora de uma vida. A busca incessante do paraíso leva as pessoas a crenças deturpadas e até à loucura e à miséria. Camila chega ao ponto de não ter onde morar e vive solta e solitária pelas ruas do Recife. E o autor nos conta isso com uma prosa forte e límpida, que dialoga com toda tradição literária ocidental.

Maurício Melo Júnior é jornalista, crítico literário e escritor. Trabalha na TV Senado onde apresenta e dirige, desde 2001, o programa “Leituras”, dedicado à literatura brasileira. Dirigiu para a emissora vinte documentários, entre eles “Mortes e vidas do poeta Ferreira Gullar” e “O homem que viu Zé Limeira”, além da série “Histórias de acadêmicos”. Escreve resenhas para o jornal Rascunho. Tem vinte e cinco livros publicados entre crônicas, novelas, infanto-juvenis, infantis e romances. Escreveu para o teatro as peças “Volta à seca”, “Depois da guerra” e “Günter”. O romance “Não me empurre para os perdidos”, que está lançando pela Cepe, recebeu menção honrosa no Prêmio Sesc de Literatura de 2016.

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