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O escritor e jornalista soteropolitano Flávio VM Costa indica cinco livros para tentar entender a cidade de Salvador, capital da Bahia

Salvador é berço e sarcófago, como já disse o poeta Luís Antonio Cajazeira Ramos. Terceira maior cidade do Brasil e lar da maior população negra fora da África, é um lugar de contradições aberrantes e de um racismo que resiste a qualquer propaganda oficial.

Mas a chamada Roma Negra, primeira capital do país, também pode se dizer a terra da alegria, da música, do carnaval, das cores, onde se ri à larga nas ruas quase sempre esburacadas. Não é falso considerá-la uma das mais belas cidades da América, apesar de toda a pobreza que abriga.

Para compreender Salvador é preciso vivê-la e sobreviver nela. Porém a literatura sempre é um meio eficaz para se alcançar um certo entendimento.

Seguem abaixo cinco livros que conseguem captá-la em todo seu esplendor e miséria.

A morte e a morte de Quincas Berro D'Água

Jorge Amado (Companhia das Letras, 2008)

Eis aqui uma obra-prima da narrativa brasileira e o melhor retrato das mentalidades de Salvador. Uma novela que se transmuta na contraparte debochada, mas não menos profunda, de “A morte de Ivan Ilitch”, de Tolstói.

Setembro não tem sentido

João Ubaldo Ribeiro (Objetiva, 2012)

Mais do que um flagrante de certa intelectualidade e da Salvador dos anos 1960, às vésperas do golpe militar, a estreia do melhor prosador baiano do século 20 já revela seu invejável domínio da língua portuguesa. As sementes que explodiriam em “Viva o povo brasileiro” foram plantadas neste romance.

Um defeito de cor

Ana Maria Gonçalves (Record, 2006)

O épico de mais de 900 páginas sai da África, passa pela Bahia, pelo norte do país, pelo Rio, São Paulo, retorna ao continente africano, mas nenhum local tem tanto espaço — nem aparece descrito com tanto carinho —, quanto a Salvador do século 19 que a narradora Kahinde/Luisa abraça como lar por algumas décadas.

Ladeiras, vielas & farrapos

Tom Correia (Coedições, 2015)

Essa coletânea de contos revela a Cidade da Bahia em toda sua contradição: triste e solar, violenta e acolhedora, generosa e cruel. Uma prosa precisa e límpida que, ao mesmo tempo, consegue retrabalhar o falar soteropolitano, sem ceder ao mero registro ou ao estereótipo.

Ingresia

Franciel Cruz (Edição do Autor, 2018)

Trata-se aqui da primeira reunião de crônicas de um grande estilista da prosa soteropolitana, apesar de sua origem sertaneja. Marcado pelo humor que alcança todos os registros e tons, cada texto forma um mosaico que pode ser lido como um romance em formação ou diário de educação sentimental.

Flávio VM Costa é escritor e jornalista. Nasceu em Salvador em 1983. Estreou na ficção com os contos de "Caçada russa" (Penalux, 2016), um dos vencedores do Prêmio Bunkyo de Literatura. Na Itália, seu conto "Tenente Marcus" venceu o Prada Feltrinelli Prize, em 2016. Lançou recentemente o segundo livro de contos, "Você morre quando esquecem seu nome” (Bissau Livros, 2020). Mora em São Paulo, onde trabalha como repórter do portal UOL.

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