Foto: Dora Villela Oksman/Divulgação

A professora de criação literária indica cinco livros para sofisticar o modo de ler e escrever

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Aos poucos, o mercado brasileiro, os escritores e leitores começam a entender para que servem, afinal, os guias de escrita. Ao contrário do que o próprio nome sugere, esses livros não são um compilado de “faça isso”, “não faça aquilo” — uma fórmula mágica boa demais pra ser verdade — mas o olhar de um leitor sofisticado sobre os recursos da língua e seu uso como ferramenta artística. Essa seleção responde em parte o que faz um texto ser literário ou apenas um compilado de histórias.

Sem trama e sem final: 99 conselhos de escrita

Anton Tchékhov (Trad. Homero Freitas de Andrade, Martins Fontes, 2007)

Uma grande aula de escrita em um livro curto e objetivo. Tchékhov recebia de amigos e conhecidos originais para serem avaliados. Depois de lê-los, opinava a respeito e, ao fazer isso, discorria sobre veracidade, os burocratas da língua, as sentimentalidades excessivas, lugares-comuns e outros temas fundamentais.

Uma amostra grátis de como ele definia o papel do escritor:

“Escritor não é confeiteiro, nem maquiador, nem bufão. É pessoa empenhada, contratada pelo sentimento de seu dever de consciência. Quem entra na dança tem que dançar, e, por mais horrível que lhe pareça, deve vencer a própria repulsa, emporcalhar a própria imaginação com a lama da vida.”

Truques da escrita: Para começar e terminar teses, livros e artigos

Howard S. Becker (Trad. Denise Bottmann, Zahar, 2015)

O título não faz jus ao conteúdo. Não há truques, mas uma discussão madura sobre as armadilhas dos ensaios. Posta em segundo plano — porque o senso comum diz que o importante é a ideia e o argumento do autor — a narrativa é um pesadelo para o leitor, que é obrigado a passar pelas páginas mais chatas sobre as quais alguém já se debruçou. A frase complexa, a construção elíptica, a falta de clareza, as expressões prontas são balaústres narrativos que não fazem o autor mais culto ou mais inteligente e ainda diminuem muito o alcance do livro. Becker discute essa escrita automática e propõe o que a academia americana já entendeu: que não há propagação de conhecimento se ninguém tem vontade de ler o que foi escrito.

Apenas para ilustrar, um mau ensaísta na fórmula de Becker apresentaria o “Truques da escrita” desta forma:

“No âmbito da complexidade da escrita, a obra discorre sobre as questões diacrônicas da narrativa e problematiza os conceitos dessa manifestação ensaística nas obras contemporâneas. São proposições prementes que devem ser dialogadas com todos que contribuem com o pensamento intelectual no século 21.”

Para ler como um escritor: Um guia para quem gosta de livros e para quem quer escrevê-los

Francine Prose (Trad. Maria Luiza X. de A. Borges, Zahar, 2008)

Uma delícia de livro. Claro, inteligente, bem escrito e com bons argumentos. A autora discute a construção de frases, parágrafos, personagens,entre outros temas. O ponto alto é o capítulo sobre diálogos. Ela defende que toda a conversa envolve uma sofisticação multitarefa que deve ser transposta para o texto. Além do que está sendo dito, há as entrelinhas, a impressão que o sujeito quer passar,o que ele quer esconder, a postura corporal, a entonação da voz. Na escrita, o autor tem que resolver tudo isso usando as palavras: vale muito a leitura mesmo pra quem não tem pretensões literárias.

Sobre a escrita: A arte em memórias

Stephen King (Trad. Michel Teixeira, Suma, 2015)

Stephen King é um sujeito mal humorado. Vai direto ao ponto, não tem paciência para os críticos e, como todo autor, tem as suas implicâncias. As dele são os advérbios (“acredito que a estrada para o inferno esteja pavimentada com advérbios”) e a voz passiva (“a voz passiva empresta autoridade, talvez um quê de majestade. Livre-se desse pensamento traidor”).

Um dos grandes méritos de “Sobre a escrita” é sair das esporas dos críticos e não ter medo de interpretar a literatura como algo muito mais abrangente do que os nomes consagrados. Stephen King tem muito a dizer e diz, dando de bandeja para o leitor a sua trajetória pavimentada.

Estilística da língua portuguesa

Manuel Rodrigues Lapa (Martins Fontes, 1992)

O efeito desse livro é imediato: saímos dele mais sensíveis às nuances da língua. Além da descoberta de que somos uma caixa ambulante de clichês narrativos, há outro capítulo importante sobre os arcaísmos, ou seja, as palavras que estão mortas ou à beira da morte e ainda são usadas como atestado de boa literatura.

Vanessa Ferrari é professora do curso de pós-graduação de formação de escritores do Instituto Vera Cruz.

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