A poeta, escritora, jornalista e editora Elizandra Souza indica cinco produções contemporâneas de negras brasileiras, africanas e na diáspora

Nos últimos 18 anos tenho me dedicado a pesquisar de forma autônoma a produção literária de escritoras negras brasileiras, africanas e na diáspora. Nesta seleção será apresentada a poesia de mulheres negras, escrita desde 2013. No período, esse gênero foi um dos mais difundidos nos saraus e slams espalhados pelo Brasil.

Conforme constata a pesquisadora Regina Descaltagné em artigo que analisa os romances brasileiros produzidos entre 1990 e 2004, as mulheres negras são invisibilizadas na ficção contemporânea. São substituídas por vozes hegemônicas que buscam falar por elas de forma estereotipada, sem referências que promovam a diversidade. Por isso, é necessário conhecer o trabalho destas autoras.

Pretextos de Mulheres Negras

22 autoras (Coletivo Mjiba, 2013)

Idealizada pelo Coletivo Mjiba, “Pretextos de mulheres negras” é inspirada no livro “Oro Obírin”, uma homenagem à antropóloga Lélia Gonzalez publicada pela ONG Criola em 1998. A antologia reúne a poesia de 20 mulheres negras atuantes nos saraus periféricos de São Paulo, além de textos da costarriquenha Queen Nzinga Maxweell e da moçambicana Tina Mucavele. Também traz homenagem a escritora Maria Tereza falecida em 2010. Por meio de textos, imagens e perfis biográficos, as poesias contêm subjetividades representando diversos valores das africanidades e da diáspora: resistência, memória, pertencimento, ludicidade, corporeidade, musicalidade, religiosidade. Você pode encontrar o livro aqui.

Morada

Catita (Feminas, 2019)

Primeiro livro de Catita publicado pela Feminas, a obra é composta por capítulos que passeiam pelos elementos da sua casa poética: paredes, janelas, portas e teto. As poesias desenham novos lugares e ressignificam os que já existem, criando novos espaços para romper com as invisibilidades enfrentadas por mulheres negras dentro e fora da literatura. Catita, que é professora e pesquisadora, se define uma “escrivinhadora”, pois sua prosa e poesia andam germinadas e entrelaçadas. A autora diz que escreve porque dói. Mas também porque serena.

Pulsares

Lilian Almeida (Caramurê, 2019)

Poesias de Lilian Almeida, baiana de Salvador, professora na Universidade do Estado da Bahia. No primeiro poema do livro, “Crisálida”, a autora anuncia a gravidez e o parto de si mesma (a interpretação é de Rita Santana, no prefácio). Depois seguem mais, divididos nos capítulos “Pulsares”, “Siderações” e “Eclipse”. Poesias como águas, deságues, ventos, silêncios, encontros e abismos. Este livro é vencedor do Edital Caramurê de Literatura de 2019. A autora também publicou o livro de prosa “Todas as cartas de amor”, pela Quarteto (2014).

Poesias pós-parto

Priscila Obaci (Editora Oralituras, 2020)

Poesias de maternância (a maternidade não romantizada). Priscila Obaci traz 40 textos simbolizando os dias do puerpério, mostrando que quando nasce uma criança nasce também uma mãe. A edição foi desenhada com cores vibrantes: laranja contrastando com o roxo. E o formato foi pensado para caber em uma única mão, enquanto a outra segura o bebê.

Narrativas Pretas

30 autoras (Sarau das Pretas, 2020)

É o primeiro livro do coletivo Sarau das Pretas, que desde 2016 pauta o protagonismo, o empoderamento, a construção e o fortalecimento de espaços de escuta, fala e autocuidado para mulheres pretas através da arte da palavra.

Ao todo, o livro reúne narrativas de 30 mulheres pretas. Vinte são autoras contempladas no Concurso Literário Narrativas Pretas, voltado para mulheres autodeclaradas negras e/ou negras LGBTQIA+. Além delas, a obra reúne textos das avaliadoras do concurso, de autoras homenageadas e das poetas integrantes do sarau.

“Narrativas Pretas” é uma antologia poética que expressa o alinhamento do coletivo Sarau das Pretas com as pautas de gênero e etnia, com a promoção da liberdade e da diversidade em todos os aspectos. Também expressa as dores, anseios, lutas e conquistas de todas as autoras publicadas, que encaram a escrita como um ato político de amor e (r)existência.

Elizandra Souza é poeta, escritora, jornalista, editora do Coletivo Mjiba, integrante do Sarau das Pretas e aromaterapeuta. É autora dos livros de poesias Punga (2007), em co-autoria com Akins Kintê, Águas da cabaça (2012) e Filha do fogo: 12 contos de amor e cura (2020).

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