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A professora do Insper Bianca Tavolari recomenda cinco livros para pensar no impacto da pandemia nas cidades

A vida nas cidades foi transformada radicalmente com a pandemia. Cidades são muitas coisas, mas nenhum urbanista negaria que cidades são feitas de aglomerações. Quando aglomerações são um problema, pode parecer que é a própria cidade que desaparece. Listei cinco livros que relacionam, de diferentes maneiras, cidades e pandemia. Alguns são de caráter histórico, olhando para outras epidemias da virada do século. Outros não discutem diretamente os efeitos da contaminação no espaço urbano, mas abrem chaves de leitura importantes para entendermos, a partir da cidade, o momento que estamos vivendo.

Cidade febril: cortiços e epidemias na corte imperial

Sidney Chalhoub (Companhia das Letras, 1996)

É um livro fundamental para entender a relação histórica entre epidemias e conformação do espaço urbano no Rio de Janeiro — e, não à toa, foi vencedor do Prêmio Jabuti em 1997. O primeiro capítulo discute em detalhes a demolição do Cabeça de Porco em 1893, um dos maiores cortiços da cidade. Espaço urbano, pobreza e raça se entrelaçam no discurso higienista para erradicar a febre amarela. O pretexto sanitário encobria outro propósito: a perseguição a este tipo de moradia era uma intervenção na organização das chamadas “classes perigosas”, formadas pelos mais pobres, mas, principalmente, por escravos libertos. O fim da era dos cortiços é, ao mesmo tempo, o início da era das favelas: os despejados sobem o morro para, a partir dos escombros, construir casinhas precárias. Além disso, a aglomeração dos cortiços era vista a partir do “perigo de contágio”, um corpo doente nocivo à sociedade.

O último capítulo do livro trata dessa fórmula perversa no início do século, mas desta vez a partir da varíola e da Revolta da Vacina, um dos principais motins populares vinculados às reformas urbanas de Pereira Passos no Rio de Janeiro.

The Barbary Plague: The Black Death in Victorian San Francisco

Marilyn Chase (Random House, 2004)

Este livro nos transporta para a San Francisco da virada do século, uma cidade em expansão, marcada pela corrida pelo ouro que levou milhares de pessoas para a costa oeste dos Estados Unidos. Em 1900, a cidade começa a ter notícias de casos de febre alta e inchaços pela pele e, logo em seguida, das primeiras mortes. Ainda não havia muito conhecimento científico disponível sobre bactérias, mas isto não impediu que a peste bubônica fosse associada imediatamente com a China e com a chegada da praga por navios diretamente no porto de San Francisco.

Para além de uma história da doença, Chase mostra como o espaço urbano foi um componente decisivo. A fórmula é conhecida: culpar as classes mais pobres pela aglomeração, pela falta de saneamento, pela sujeira e pelos ratos. Mas aqui ainda houve um componente racial e territorial específico: apenas o bairro de Chinatown foi objeto de quarentena obrigatória, formando um enclave na cidade, recortado como laboratório para receber vapores de enxofre e toda sorte de iniciativa de desinfecção. Encarnou, durante muitos anos, o símbolo concreto de todo mal. O livro também avança para discutir as consequências destruidoras do terremoto de 1906 para a cidade — e a volta da peste bubônica com as ruínas.

A cidade inteligente: tecnologias urbanas e democracia

Evgeny Morozov e Francesca Bria (Trad. Humberto do Amaral, Ubu, 2019)

A pandemia atinge as cidades de diferentes maneiras. Mas uma dimensão central certamente é a do uso dos dados. Estamos vendo como dados de geolocalização são fundamentais para medir o impacto de políticas de isolamento, com possibilidade de usos não-anônimos bastante controversos. Neste livro, Morozov e Bria mostram como os dados produzidos por uma cidade — de mobilidade e trânsito, de uso de energia, de protestos no espaço público, de licitações, entre tantos outros — são centrais para toda e qualquer política urbana, seja pré ou pós-pandemia (o pós-pandemia é por minha conta). Os autores mostram como cidades se tornam dependentes de empresas para fornecer dados importantes para o planejamento urbano. Mas também apresentam diversas iniciativas de cidades ao redor do mundo que retomam sua autonomia, ao abrirem seus dados de maneira transparente, com uma gestão democrática passível de verificação e controle da sociedade. Fiz uma resenha do livro em março para a Quatro Cinco Um.

Planeta Favela

Mike Davis (Trad. Beatriz Medina, Boitempo, 2006)

Este não é um livro novo. No entanto, como muitos perceberam a precariedade habitacional que marca as grandes cidades apenas diante de uma pandemia, é um livro que vale a pena ser revisitado. Davis nos leva em uma incursão sistemática por aglomerações de casas e cortiços nas periferias das maiores cidades do mundo. E não estamos falando apenas do que comumente entendemos por favela. Vide a Cidade dos Mortos, no Cairo, onde milhares de pessoas usam sepulturas como módulos habitacionais pré-fabricados — isso, túmulos viram moradia. Milhares de pessoas vivendo em telhados ou antigos poços de ventilação em Hong Kong, outras milhares vivendo em tetos em Phnom Penh, sem-teto em Los Angeles e Mumbai. Os dados e a força descritiva do livro são impressionantes. Qualquer política protetiva séria na pandemia deveria estar olhando para os mais vulneráveis, tanto do ponto de vista da renda quanto da perspectiva do espaço urbano.

Twenty Minutes in Manhattan

Michael Sorkin (Reaktion Books, 2009)

Este não é um livro sobre cidades e pandemia. Entra na minha lista por um motivo muito triste. Michael Sorkin foi um arquiteto e urbanista progressista com forte atuação na formação de estudantes no The City College of New York. Faleceu precocemente de covid-19 no dia 26 de março. Trago um livro de Sorkin para esta lista não só porque ele acreditava que a arquitetura e o urbanismo deveriam servir à justiça social, mas porque ele defendia, de maneira veemente, que isto deveria ser feito no âmbito de uma democracia radical.

Além disso, esse livro entra aqui por ser uma narrativa absolutamente deliciosa, conduzida pelos passos de Sorkin desde sua casa no Village até seu estúdio em Tribeca. Acompanhamos o olhar do autor — descer as escadas do prédio não é apenas mais uma tarefa cotidiana, mas é discutir sobre os diferentes formatos das escadas e história da legislação sobre os degraus. Seus passos na calçada são maneiras de entrelaçar sua perspectiva pessoal com diversos conceitos e teorias urbanísticas, brincando entre diferentes escalas e registros textuais. Sorkin prestava atenção, tinha um olhar atento. Se devemos aprender alguma coisa, é a prestar atenção. E a lembrar dos nossos mortos.

Bianca Tavolari é professora do Insper e pesquisadora do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento). Coordena a seção “As cidades e as coisas” na revista Quatro Cinco Um.

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