Foto: Rodrigo Valente/Divulgação

A poeta mineira Ana Martins Marques recomenda cinco livros para pensar a relação entre fotografia e literatura

A incorporação de imagens fotográficas na literatura é um procedimento que parece estar se tornando cada vez mais frequente. As fotografias podem funcionar no texto como um poderoso elemento narrativo, capaz de articular passado e presente, desencadear processos de memória e indagações sobre a identidade, o tempo, o esquecimento... Elas também trazem para o centro da cena a questão da relação do texto com a realidade, fazendo com que se voltem também para ele as perturbadoras indagações sobre o estatuto da imagem fotográfica.

Os livros citados a seguir, ao associarem texto e imagem, levantam reflexões sobre memória, história, autobiografia, sobre o que acontece com a fotografia — em geral considerada como um índice do mundo — quando ela é acolhida num espaço ficcional, e sobre como essa inserção pode tensionar a própria ideia de literatura...

Nadja

André Breton (Trad. Ivo Barroso, Cosac Naify, 2007)

Lançado em 1928, o livro gira em torno dos encontros de André Breton com uma mulher misteriosa, que se identifica como Nadja. Sua trama sinuosa é guiada pelo itinerário errante do casal pelas ruas de Paris, de seu encontro casual, na Rue Lafayette, até a internação de Nadja em um hospício. Em torno do registro dos encontros e desencontros, reúne-se uma gama heterogênea de materiais: entradas de diário, anedotas, digressões, memórias, reflexões. Já à primeira vista, “Nadja” chama a atenção pela presença significativa de imagens fotográficas, que retratam lugares em que a ação se desenvolve, pessoas, objetos, fachadas de edifícios...

No texto que faz as vezes de prefácio (introduzido na edição de 1963), Breton relaciona a “abundante ilustração fotográfica” de “Nadja” com o objetivo de eliminar as descrições e de conferir à narrativa um caráter de “registro”, o que revelaria que a obra obedece a imperativos “antiliterários”. No entanto, uma rápida leitura já permite verificar que os efeitos da inserção de fotografias no livro não se restringem àqueles sugeridos por Breton: as imagens em “Nadja” podem em alguns casos ser redundantes em relação ao texto, mas podem, também, ressaltar aspectos secundários do relato; elas também parecem exercer funções simbólicas ou metafóricas. Sobretudo, a materialidade das figuras, sua força sugestiva e evocativa acabam por abrir outras linhas de leitura.

A câmara clara

Roland Barthes (Trad. Júlio Castañon Guimarães, Nova Fronteira, 2018)

Livro extremamente influente de teoria e crítica da fotografia, “A câmara clara” é uma reflexão sobre a imagem fotográfica, uma tentativa de estabelecer o traço distintivo da fotografia entre as imagens, ou ainda, como sugere um ensaio de Geoffrey Batchen, “uma outra pequena história da fotografia”. É, também, um livro que inclui numerosas reproduções fotográficas, para contar uma história que é, afinal, uma história de luto.

Como uma espécie de curador, Barthes seleciona, identifica, analisa, legenda e comenta 25 fotografias, de épocas diferentes. “A câmara clara” é um livro de teoria, uma meditação sobre o tempo e a morte tal como se mostram na fotografia, mas é também uma espécie de romance sobre o luto e a aventura de uma busca (por uma imagem).

Austerlitz

W. G. Sebald (Trad. José Marcos Mariani de Macedo, Companhia das Letras, 2008)

Lançado em 2001, este livro narra os encontros de Jacques Austerlitz com um narrador não nomeado, em vários lugares da Europa e ao longo de várias décadas. Como “Os emigrantes” (outro título de W. G. Sebald), “Austerlitz” explora as relações entre identidade e exílio — trata-se, aqui, de um caso extremo de perda (da família, da pátria, do passado, do nome próprio e até da própria língua). O texto é acompanhado de várias fotografias em preto e branco, não legendadas, que parecem tiradas de um álbum de família e estabelecem com o texto ligações imprevistas, oblíquas ou mesmo insólitas.

A vida descalço

Alan Pauls (Trad. Josely Vianna Baptista, Cosac Naify, 2013)

“A vida descalço” é um livrinho de gênero pouco preciso: memórias de veraneio, ensaio cultural sobre o espaço da praia com inflexão autobiográfica, mini-romance de formação. O caráter limiar da praia, do litoral, estende-se ao livro. O texto é acompanhado por nove fotografias (oito na edição brasileira, que deslocou para a capa a primeira foto da edição argentina), que trazem sempre a imagem de um ou dois meninos, contra o fundo do céu, do mar e da areia.

Em sua relação com o texto, as fotografias presentes em “A vida descalço” expõem a importância das imagens na construção da memória, o caráter sempre mediado (e talvez cada vez mais midiático) da recordação, o trabalho conjunto da lembrança, da imaginação e do pensamento e o gesto de montagem, seleção e arranjo que estão por trás de todo exercício autobiográfico.

Parque das ruínas

Marília Garcia (Luna Parque, 2019)

A poesia de Marília Garcia sempre estabeleceu uma relação forte com a imagem: referências a obras de arte, artistas plásticos, filmes, etc., são recorrentes em seus livros anteriores. Em “Parque das ruínas”, porém, pela primeira vez as imagens — de fato — dão entrada no livro. Composto por dois poemas longos e um P.S., além de um posfácio de Joana Matos Frias, o livro se inicia com uma “epígrafe em forma de imagem” e se encerra com duas imagens do Museu Nacional reproduzidas no colofão. Entre essas imagens, que abrem e fecham o livro, encontram-se fotos de lugares, detalhes de obras de arte, frames de filmes, cartões-postais...

Como lembra Joana Matos Frias no posfácio, a fotografia, como a ruína, é um traço, um resto: fotografia e ruína são signos de algo passado com o qual mantiveram uma conexão. Por isso não surpreende, afirma Matos Frias, que as fotografias emprestem ao livro certo “princípio documental”. E, de fato, “Parque das ruínas”, além de incorporar uma reflexão sobre o olhar, sobre a relação entre texto e imagem, também se volta para questões como a imigração, o terrorismo, a crise enfrentada pela Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro)...

Assim como emprega citações de diversos autores, Marília Garcia se vale aqui das fotografias como de um material entre outros a ser manejado (como ela mesma nos conta que dizia Montaigne sobre o ensaio: nele deve-se pensar com as mãos).

Ana Martins Marques é poeta de Belo Horizonte. Publicou, entre outros, “A vida submarina”, “O livro das semelhanças” e “O livro dos jardins”. Formada em letras pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), tem doutorado em literatura comparada pela mesma instituição.

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