Foto: Arquivo pessoal

A escritora indica cinco livros que transportam o leitor diretamente ao universo da infância

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A criança narradora de um livro nem sempre, e não necessariamente, é uma criança comum ou a criança que fomos. O leitor não precisa olhar para o menino brincando ao seu lado e concluir que ele poderia mesmo ser esse narrador. O que importa é que dentro do livro aquela criança falando conosco esteja inteiramente ali, completamente existente, como criança e como narradora, ainda que mais nenhuma no mundo venha a ser como ela.

Em muitos livros, os protagonistas já cresceram e contam seu passado, emulando suas experiências e percepções infantis com uma linguagem mista, adulta e ao mesmo tempo ingênua. Mas, nesta seleção, priorizei cinco livros narrados por crianças e jovens que nos transportam diretamente ao seu universo e sua visão.

Festa no covil

Juan Pablo Villalobos (Trad. Andreia Moroni, Companhia das Letras, 2012)

Nesse breve romance, ganhamos insólita intimidade com um chefe do narcotráfico mexicano a partir dos relatos do seu filho, um garotinho que tem os luxos e caprichos de um rei, mas vive uma infância muito violenta e dolorosa sem se dar conta disso. Quanto menos ele percebe o absurdo do seu cotidiano, mais nos condoemos. Encantado e obcecado com algumas palavras, muito do que nos conta é mesmo “sórdido”, “pulcro”, “nefasto”.

A elegância do ouriço

Muriel Barbery (Trad. Rosa Freire de Aguiar, Companhia das Letras, 2008)

Uma das narradoras é uma menina rica de 12 anos, um tanto pernóstica, desencantada e filosófica, que promete um suicídio aos 13 se continuar sem encontrar um sentido para a existência. Aqui a intenção é causar um ruído entre a idade da garota e suas reflexões dignas de um idoso exausto de tudo e todos. Não há exatamente uma voz infantil: a adolescente fala como uma grande intelectual erudita, e a graça é sentir e imaginar esse tipo de grandiloquência em embate com o repertório emocional que se espera de uma pessoa dessa idade. “Por isso, é claro, tenho pensamentos profundos. Mas nos meus pensamentos profundos faço de conta que sou, hã, afinal, uma intelectual (que debocha dos outros intelectuais). Nem sempre isso é muito glorioso, mas é muito recreativo.”

Um, dois e já

Inés Bortagaray (Trad. Miguel del Castilho, Cosac Naify, 2014)

Espero ansiosa que alguma editora traga de volta esse pequeno deleite, traduzido pela Cosac Naify e já esgotado. Aqui, uma criança narra minuto a minuto uma despretensiosa viagem de carro em família, apertada no banco de trás com os irmãos. Vamos tão para junto dela que quase ficamos tontos nas curvas que a enjoam. A menina ora nos leva para dentro das reflexões obsessivas de criança, ora para intrigas típicas de irmãos e jogos de estrada. “De modo que estou na janela, mas não posso me iludir, porque daqui a duzentos quilômetros vou para o meio, que é o meu lugar, de onde eu nunca deveria ter saído. Escolhi ir atrás do meu pai, do lado esquerdo do banco. Acredito que assim posso protegê-lo. Cuido para que ele esteja atento, tranco sua porta e rezo na nuca dele, pedindo que não bata, porque ninguém quer que a gente bata, nem eu. Meu irmão, que viaja do meu lado, está com certo cheiro. Não quis tomar banho antes de sair, e agora sou eu que sinto o cheiro dele.”

Arquivo das crianças perdidas

Valeria Luiselli (Trad. Renato Marques, Companhia das Letras, 2019)

Tive o privilégio de escutar este livro em áudio, narrado em inglês pela própria autora e seus filhos. Os narradores crianças desse romance contam suas histórias a partir de uma viagem de carro, com importantes reflexões sobre imigração. São crianças privilegiadas e cheias de curiosidade — a camada de dor trazida pela visão infantil é diferente daquela a que estamos habituados sobre os mesmos temas. Ao mesmo tempo, a leitura é gostosa e afetiva. Mesmo as crises do casal no banco da frente reverberam de outra forma, cômica aos olhos infantis. E a aventura final nos deixa ainda mais exasperados justamente pela escolha desses narradores.

A vida pela frente

Romain Gary, sob o pseudônimo Émile Ajar (Trad. André Telles, Todavia, 2019)

Nosso menino narrador aqui também nos conduz sempre na fronteira do encanto e da brutalidade, como em “Festa no covil”. O ambiente é uma espécie de creche-orfanato improvisada, aos cuidados de uma senhora sobrevivente de Auschwitz, que vai ficando mais e mais doente. A decrepitude de Madame Rosa é descrita pelo menino com repulsa, mas também com genuíno amor e desespero de enfrentar o que ele ainda não calcula. O prédio tem seis andares, não há elevador, e cada vez mais o menino é o único caminho entre ela e o mundo.

Mariana Salomão Carrara é escritora e defensora pública em São Paulo. Tem publicados um livro de contos (“Delicada uma de nós”, Off-Flip, 2015), e os romances “Idílico” (EI, 2007), “Fadas e copos no canto da casa” (Quintal Edições, 2017), e “Se deus me chamar não vou” (Editora Nós, 2019, entre os dez indicados ao Prêmio Jabuti 2020, na categoria de Romance Literário). Por contos e poemas, recebeu prêmios nacionais como Off-flip (2012), Sesc-DF, Felippe D’Oliveira (2015 e 2016), Sinecol, Josué Guimarães e Ignácio de Loyola Brandão. Recebeu o segundo lugar no Prêmio Guiões (Portugal, 2019) pelo roteiro de longa-metragem “É lá que eu quero morar”.

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