A professora de literatura brasileira Ligia Gonçalves Diniz indica cinco produções que atravessam as vontades dos corpos das mulheres na literatura, privilegiando a sensação à reflexão

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Dizer que foi uma mulher que inventou o desejo na literatura deve ser exagero. Mas Safo de Lesbos, na virada do século 7 para o 6 a.C., certamente deu ao amor erótico um lugar privilegiado na poesia, que nunca mais soube existir sem tentar conjurar os tormentos e delícias da paixão física. Um dos fragmentos de poemas mais famosos da poeta, o #31, evoca a sensação complexa que domina a mulher apaixonada ao ver aquela que é objeto de seu desejo voltar a atenção para um (belo) terceiro: “... num átimo, um fogo dispara sob a pele / e, nas vistas, nada diviso; os ouvidos / trovoam...” (na tradução de Tereza Virgínia Ribeiro Barbosa).

A mulher desejanteassume muitas faces nos textos literários, mas há duas constantes que venho observando: algo de profundamente afirmativo, mesmo quando contido ou abafado, e um espalhamento do impulso por todo o corpo. Em um ensaio fundamental, “Usos do erótico”, Audre Lorde escreveu que “o erótico é a medida entre o início do nosso sentido de si e o caos das nossas emoções mais intensas”. Não há como conceituar ou interpretar estritamente o desejo que atravessa o corpo das mulheres na literatura: temos que imaginar e compartilhar o que elas sentem e expressam. Minha seleção privilegia, assim, textos que demandam a disponibilidade dos sentidos dos leitores e escapam das reflexões mais intelectuais.

The Beauty of the Husband

Anne Carson (Vintage Books, 2002)

Ensaísta, poeta e tradutora de poesia e teatro gregos, esta fantástica autora canadense daria conta sozinha de ocupar esta seção com obras suas sobre o desejo. A tese de doutorado de Carson virou um dos livros mais interessantes e bonitos sobre o tema, e eu vou roubar um pouquinho e incluí-lo como uma sub-dica nesta entrada: chama-se “Eros the Bittersweet e parte da ideia central de que o amor erótico “é uma questão de bordas” (“edges”). Não há desejo sem o corte que, ao mesmo tempo que me separa do outro, estabelece entre nós um espaço comum.

De certa forma, “The Beauty of the Husband” materializa essa ideia em um poema narrativo – ou “um ensaio ficcional em 29 tangos”, como se lê na capa. Temos aqui uma mulher que conta a história do fracasso de seu casamento, e sobretudo do aspecto sobrepujante de seu desejo pelo marido. É um livro sobre amor, abandono, ciúme e dor, mas é muitas vezes engraçado e estranhamente leve, pois usa a ironia para tripudiar não dos amantes, mas daqueles que não sabem o que é sofrer esse tipo de aventura. No “tango” 11, a respeito do instante de enamoramento, ela escreve (e traduzo aqui como posso): “Sim um clichê / e eu não peço perdão pois como já disse não foi culpa minha, estava desarmada / frente à existência / e a existência depende da beleza”.

Verão no aquário

Lygia Fagundes Telles (Companhia das Letras, 2010)

Só o título desse romance, publicado pela primeira vez em 1964, já daria material para conversa, remetendo à colisão entre uma força intensa de expansão e um contexto de limitação, por meio de uma imagem muito tátil. Temos aqui, mais do que uma história de uma mulher que deseja, uma história de uma mulher que deseja desejar; uma mulher que vive um caso amoroso que lhe é insuficiente e que busca algo mais radical e absoluto: “Sim, eu o amava mas sem nenhuma fé, com um amor que girava sem sentido como um pião vicioso, um pião que não quer parar porque pior ainda do que o movimento seria o repouso”.

No romance, a jovem protagonista, Raíza, disputa com sua mãe as atenções do “quase padre” André, cuja conquista representaria esse salto para um amor total. Que mais poderia uma jovem querer do que vencer a mãe e Deus de uma só vez? Poderíamos ler então aquela colisão como o embate entre gerações – o verão da juventude sendo contido pelo aquário da madureza, ou entre a livre e moderna Raíza e o “medieval” e indisponível André. No entanto, ao longo das páginas, vamos percebendo que os movimentos contrários existem dentro da própria protagonista, e que sua relação com os homens, e com sua família, é moldada e afetada, afinal de modo trágico, pela ambiguidade de seus próprios desejos e expectativas.

O peso e a graça

Simone Weil (Trad. Leda Cartum, Chão da Feira, 2020)

Talvez a escolha deste livro para esta lista seja tão estranha quanto o livro em si. Organizada por um amigo após a morte da filósofa francesa Simone Weil, em 1943, “La Pesanteur et la grace” (no original) é uma coletânea de pequenos ensaios, ou mesmo anotações, em que transparece a ânsia profunda por uma relação com Deus – ou, talvez, com o cosmo, com a existência – não corrompida pela materialidade da identidade pessoal, do “eu”. Atravessa os 39 capítulos uma ansiedade radical por um modo de existir que seja direto, total, não mediado pela interferência de emoções mesquinhas nem do conhecimento racional do mundo.

Weil concebe uma ideia de vazio profundo que devemos deixar se abrir em nós para que a graça divina possa penetrar e vencer o peso terreno (no francês, “pesanteur” significa tanto gravidade quanto peso). Não se trata, assim, de um livro sobre o desejo sexual, mas sim, de uma reflexão, apaixonada, sobre a própria natureza do desejo, que ela localiza justamente no “meio”: “toda separação é um elo”, ela escreve, e daí a qualidade irreversivelmente contraditória e aporética dos desejos e, por extensão, da experiência humana. Em um capítulo que levou o título “Contradição”, Weil formula isso perfeitamente, em uma das passagens mais incríveis que já tive a sorte de ler: “A grande dor do homem, que começa na infância e continua até a morte, é que olhar e comer são duas operações diferentes. A beatitude eterna é um estado em que olhar é comer”.

A amiga da juventude

Alice Munro (Trad. Elton Mesquita, Biblioteca Azul, 2014)

Aparentemente, canadenses são boas nisso de falar de desejo feminino – ao menos, do heterossexual. Alice Munro, vencedora do Nobel de Literatura em 2013, é conhecida por tratar de relações familiares e afetivas em narrativas microcósmicas. Meu conto preferido dela chama-se “Wild Swans” (“Cisnes selvagens”) e está em um livro que, salvo engano, não foi traduzido no Brasil (“The Beggar Maid”). Nele, a jovem Rose, em sua primeira viagem de trem sozinha, é abusada por um pastor que se senta ao lado dela. Munro concebe de modo brilhante a confusão e contraditoriedade de sentimentos, ideias e sensações que Rose experimenta, enquanto mantém os olhos na paisagem da janela.

Nos contos de “A amiga da juventude”, de 1990, a autora retoma a relação ambígua das personagens com os homens e sua sexualidade impositiva. No conto que dá título ao volume, a narradora relembra uma história da juventude da sua mãe a respeito de duas irmãs cujas vidas foram marcadas pelos atos de um mesmo homem, primeiro noivo de uma, depois marido da outra. Ouvindo a história de modo distante em dois graus de seus protagonistas, a narradora fica perplexa com os poucos detalhes sobre essa figura masculina tão crucial quanto silenciada.

Gosto muito, em Munro, de como suas personagens são fascinadas pela masculinidade, tanto positiva quanto negativamente – como esse outroabsoluto. É constante, nelas, a admiração por cheiros, tons de voz, músculos, pelos, etc. Nesse sentido, é exemplar a descrição que a personagem de outro conto, “Five Points”, faz do ambiente portuário em que seu amante trabalha.

No bosque da noite

Djuna Barnes (Trad. Caetano W. Galindo, Códex, 2004)

Já está mais do que na hora de alguma editora brasileira reeditar a bela tradução que Caetano W. Galindo fez deste romance modernista (em edição esgotada, de 2004). Nele, a composição imagética das personagens, o ritmo que vai do onírico ao desesperado, a atmosfera ora fantasmática, ora circense, tudo contribui para evocar o sentimento de absurdo em que nos lançam certas paixões.

Publicada em 1936, a obra irradia-se em torno da figura de Robin Vote e dos amores que ela desperta em duas mulheres: a predatória Jenny e a devota Nora Flood. Inapreensível, Robin é uma figura presa à sua “imobilidade fixa”, sobre a qual se projetam os desejos das outras mulheres.

Em uma carta, Djuna Barnes contou a uma amiga que escreveu o romance – que é tão irônico quanto trágico – com o seu próprio sangue, “enquanto ele ainda corria”, referindo-se ao fim de seu relacionamento amoroso com a escultora Thelma Wood.

Tão inesquecíveis quanto o primeiro contato que temos com Robin, dormindo “como se o sono fosse uma degenerescência que a pescasse de sob a superfície visível”, são as torturadas noites que Nora passa à sua espera ou à sua procura, resumidas na observação de um personagem: “Lá vai a arrasada – o Amor caiu de seu muro. Uma mulher religiosa”.

Ligia Gonçalves Diniz é doutora em Literatura pela UnB e realizou pós-doutorado em Estudos Literários na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Seu livro “Imaginação como Presença: o corpo e seus afetos na experiência literária” foi lançado neste ano (Ed. UFPR). Atualmente, é professora de literatura brasileira na UnB (Universidade de Brasília).

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