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A psicanalista Vera Iaconelli indica cinco obras sobre os desencontros e as estranhezas de amar

Amamos — e odiamos — o estranhamente familiar em nós e nos outros. Amamos ser amados e o que supomos que o amado seja — e que nunca o é realmente. Enfim, o amor é desencontro, mas é o melhor que temos para seguir vivendo. Escolhi os livros abaixo por amá-los e só depois me dei conta de que era disso mesmo que eles tratavam. Encontrar o amor, quando menos estamos procurando.

A desumanização

Valter Hugo Mãe (Biblioteca Azul, 2017)

Em “A desumanização”, Mãe nos confronta com universos não usuais. Primeiro, a ação se passa nos fiordes islandeses, região exótica para quem, como nós, vive nos trópicos. O segundo, se refere à descrição do ódio que uma mãe sente pela filha — a heroína de apenas 11 anos —, que sobrevive no lugar da irmã gêmea falecida. O ódio materno, fruto de um luto impossível, raramente encontra expressão tão contundente na literatura. Nesse espaço de desolação geográfica e humana, o autor nos brinda com o amor à língua, na figura da poesia do pai da protagonista, mas também com o amor ao outro, na figura de um jovem estranho. Tema fundamental de toda literatura, o amor à palavra é expresso de forma inesquecível aqui. Amores violentos, trágicos, arrebatadores, segredos terríveis e lutos impossíveis dão a intensidade da obra.

O amante

Marguerite Duras (Trad. Denise Bottmann, Cosac Naify, 2012)

Neste célebre texto de Duras, a questão do estrangeiro — tão cara à psicanálise — se apresenta em vários níveis. O desencontro entre homem/mulher, Ocidente/Oriente, milionário/miserável, jovem/adulto. Na então Indochina Francesa — atual Vietnã —, uma jovem de 15 anos estabelece um romance tórrido com um milionário chinês 12 anos mais velho. O encontro — tão carregado de erotismo, quanto de tristeza — nos revela, para além da diferença étnica e social do casal, o abismo que separa todo e qualquer amante. As figuras da mãe e dos irmãos da jovem ajudam a compor um cenário de desolação afetiva que só o erotismo é capaz de fazer suportar.

A trégua

Mario Benedetti (Trad. Joana Angelica D'Avila Melo, Alfaguara, 2007)

Benedetti, em sua obra mais conhecida, apresenta o diário de Martín Santomé, homem comum, livre de atrativos, cuja vida é de uma banalidade total. Viúvo, com relações empobrecidas e truncadas com os filhos, conta os dias para se aposentar. Mas eis que, diante da oportunidade única de sentir-se realmente vivo, Martín arrisca viver um amor improvável. Obra belíssima, que coloca o amor no lugar menos idealizado e mais potente que se pode imaginar: fazendo frente a desolação de uma vida, até então, burocrática, livre de riscos e, portanto, de sentido.

As horas

Michael Cunningham (Trad. Beth Vieira, Companhia das Letras, 1999)

Obra ganhadora do prêmio Pulitzer de 1999 adaptada para o cinema por Stephen Daldry em 2003, “As horas” faz um jogo intrincado, colocando lado a lado três mulheres em diferentes épocas, submetidas a diferentes níveis de opressão. Três personagens gigantescas — uma Virgínia Woolf, as demais fictícias — revelam desejos femininos na contramão do aceito socialmente. A questão do abandono materno aparece de forma exemplar, pondo em questão o lugar do desejo feminino, para além dos filhos.

Grande Sertão: Veredas

João Guimarães Rosa (Várias edições, 1956)

Como não citar Riobaldo e Diadorim para falar da estranheza do amor? Inoportuno, perturbador, sublime e terrível, o amor de Riobaldo por Diadorim é um dos eixos centrais dessa obra monumental, que dispensa apresentações. Prosa poética — que nos convida a lê-la em voz alta — a obra-prima de Rosa é dos maiores títulos da literatura universal, cujas qualidades não caberiam nesse breve comentário. O romance proibido e casto dos dois jagunços — até que se prove o contrário — é dos textos mais lindos a descrever o inevitável desencontro amoroso. Diante do desencontro inevitável, só nos resta seguir amando.

Vera Iaconelli é psicanalista, mestre e doutora em psicologia pela Universidade de São Paulo, membro do Fórum do Campo Lacaniano, diretora do Instituto Gerar de Psicanálise, colunista da Folha de São Paulo e autora do livro “Mal-estar na maternidade” (Annablume, 2015).

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