Foto: Lukas Lademann/Divulgação

A jornalista e ativista pernambucana Adelaide Ivánova indica cinco livros que ajudam a entender o papel da poesia na luta de classes

A frase da poeta portuguesa Matilde Campilho é famosa: “Poesia não salva o mundo, mas salva o minuto”. Errada minha amiga Matilde não estava, pelo contrário. Mas a frase, dita em 2015, se referia a um minuto em um mundo que não existe mais. Hoje, num momento da luta de classes em que a disputa é travada, literalmente, entre a vida e a morte na Terra, salvar o minuto já não basta mais. Em outras palavras: o que pode a poesia quando estamos na beira de uma catástrofe climático-sanitária sem precedentes? Aqui sugiro cinco livros que nos ajudam a entender a contribuição da poesia na luta de classes.

Sem terra com poesia – A arte de recriar a história

Roseli Salete Caldart (Expressão Popular, 1987)

“Sem os processos de significação da realidade, não haveria como organizar uma sociedade”, diz Caldart na página 36 de seu livro, resultado da dissertação de mestrado defendida em 1986 na UFPR (Universidade Federal do Paraná). Aqui, a pesquisadora analisa a produção poética do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) enquanto ferramenta pedagógica para formação e amadurecimento políticos de seus militantes. Esse é um livro fundamental para qualquer escritor/a que se preocupe com a relevância social de sua própria obra, pois fornece insights fenomenais, tanto sobre as limitações da produção poética quanto sobre suas infinitas possibilidades de aglutinação, agitação e restauro existencial (que o MST chama de “mística”).

Chamamento ao povo brasileiro

Carlos Marighella (Org. Vladimir Safatle, Ubu, 2019)

Em tempos em que há um espectro rondando o Brasil — e infelizmente não é o do comunismo — ler o “inimigo número 1” da ditadura empresarial-militar brasileira é da maior importância. O livro reúne ensaios, cartas, manifesto e poemas do comunista e revolucionário nordestino (alguns do quais só circularam clandestinamente) e conta com os prefácios da edição original, de Jorge Amado e Antonio Candido. Um dos aspectos mais bonitos do livro é a forma como a poesia de Marighella é editada, enunciando os textos teóricos. Além do famosíssimo “Liberdade”, o livro traz ainda um dos meus preferidos do autor, “Confraternização”, que diz “As operárias pensando nos filhos com fome/ Depois vieram os soldados,/ Fuzis embalados,/ Defender a propriedade do dono da fábrica/ Mas também tinham filhos,/ Mães, noivas, irmãs/ A fome era a mesma nos seus lares/ também”.

Lutar é crime

Bell Puã (Editorial Letramento, 2019)

A pernambucana ficou mundialmente conhecida como grelo poético das galáxias em 2017, quando foi vencedora do Slam BR — Campeonato Brasileiro de Poesia Falada. No livro “Lutar é crime”, Puã, que é mestra em história pela UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), nos confronta com uma poesia viva, materialmente situada em Recife, mas que podia ser de qualquer cidade da periferia do capitalismo. O livro mistura poemas longos, para serem lidos/performados em voz alta, nos quais ela desenvolve narrativas complexas, com poemas curtinhos, pílulas de consciência de classe, como em “hierarquia”, talvez o meu favorito: “os seguintes funcionários/ oferecem serviços/ de encanador, Zé/ de marceneiro, Ivo/ de mecânico, João/ assinado o síndico/ Antônio Ferreira de Mello Albuquerque”.

Poemas antológicos

Solano Trindade (Nova Alexandria, 2011)

O recifense Solano Trindade foi poeta, militante do movimento negro e do Partido Comunista Brasileiro (como Marighella), além de pintor, ator, teatrólogo e cineasta. Nesta antologia, podemos acompanhar com fluidez as fases de escrita e de vida do autor, desde os poemas mais combativos aos mais idealistas, os de rua e os domésticos. Brutalidade policial, racismo, fome, mas também solidariedade de classe, movimentos sociais, luta organizada, utopia e amor: a vida inteira coube nos poemas de Trindade. Nos versos de “Esperemos” ele confirma sua contemporaneidade: “Eu ia fazer um poema para você/ (...) ia falar do seu corpo/ de suas mãos/ amada/ quando soube/ que a polícia espancou um companheiro/ e o poema não saiu”.

A poética de Maiakóvski

Boris Schnaiderman (Editora Perspectiva, 1971)

Resultado da tese de doutoramento de Schnaiderman sobre Maiakóvski, o livro traz 20 ensaios do poeta russo. Brutalmente atuais, os textos enumeram não somente os desafios do trabalhador-poeta, mas sobretudo os desafios do nosso tempo. Entre outros tópicos, ele defende a ideia de que o poeta é um trabalhador como qualquer outro, nem mais nem menos importante, e que seu sustento material não pode depender de mérito individual. Nesse sentido, a formação política de leitores e a alfabetização, além de políticas públicas de apoio ao leitor e ao poeta, para Maiakovski, seriam processos indissociáveis do fazer poético. Além disso, faz provocações que parecem valer até hoje: “No trabalho poético, o social e o formal estão unidos. (...) Uma obra não se torna revolucionária unicamente pela sua novidade formal”. Maravilhoso.

Adelaide Ivánova é escritora e ativista pernambucana. Desde 2011 vive em Berlim, onde trabalhava como babá e garçonete, até a pandemia se instalar. Tem oito livros, publicados em cinco países. Edita o zine de poesia anticapitalista MAIS NORDESTE, POR FAVOR!. Em 2018, ganhou o Prêmio Rio de Literatura por seu quinto livro, “o martelo”, na categoria poesia.

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