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A historiadora indica cinco livros para entender as experiências negras nas Américas

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Temos acompanhado debates e protestos denunciando o racismo antinegro nas Américas, como aqueles nos Estados Unidos em virtude dos trágicos episódios de assassinato que motivaram a criação do movimento autônomo Black Lives Matter. No Brasil temos o Mães de Maio e Mães de Manguinhos, coletivos de mães, parentes e ativistas que denunciam o assassinato de jovens negros. São apenas dois exemplos, que poderiam ser replicados para cada um dos estados da federação.

É sabido que episódios de extermínio e agressão a corpos negros — e indígenas — dão conta de uma experiência compartilhada em todo continente. Essa experiência é extremamente complexa e tem na violência uma de suas expressões mais cruéis. No entanto, reduzir a experiência negra a essa crueldade que a atinge é tão cruel quanto. A história tem buscado constantemente rever e disputar narrativas que deem conta de tamanha complexidade sem perder de vista os protagonismos negros em tempos de liberdade. Mas bem antes a literatura já trilhava esse caminho, ficcionalmente ou não. Essa lista bastante breve — pelo menos desde o ponto de vista de uma historiadora — busca explicitar alguns desse importantes exemplos vindos da literatura, que se conectam e são parte do pensamento de mulheres negras e homens negros nas Américas.

Pregão de Marimorena

Virginia Brindis de Salas (Trad. Eliane Marques, Figura de Linguagem, 2020)

A poeta afro-uruguaia Virginia Brindis de Salas (1908-1958) foi empregada doméstica durante parte de sua vida e possivelmente teve parentesco com o renomado violinista cubano Claudio Brindis de Salas. A coletâneade poemas foipublicadaem 1946 e é considerada o primeiro livro do gêneropublicado por uma mulher negra no sul do continente. No entanto, esses não sãoos primeiros poemas públicos daautora, que antes ocuparam páginas dos periódicos negros uruguaios ao ladode poetas como Pilar Barrios. O livro tem como fio condutor as culturas e a experiência de pessoas negras — homens e mulheres — na diáspora africana pelas Américas, articulado com discussões sobre raça, classe e gênero vistos como marcadores sociais da diferença.

Negrada

Maria Helena Vargas da Silveira (Grupo Editorial Rainha Ginga, 1995)

Em “Negrada” acessamos escritas de vivências negras na sociedade sulina, historicamente silenciadas. Assim,Maria Helena Vargas da Silva (1950-2009) explicita a importância de contar histórias sobre as mulheres e os homens negros do Sul, contrapondo o silenciamento e fortalecendo uma narrativa contra-hegemônica. Histórias de famílias, receitas típicas (como o prato de mocotó), textos destinados a alunos e professores sobre um modelo de educação que hoje identificaríamos como antirracista. Uma miríade de relatos que fazem do livro uma afirmação da existência negra. Destaque ainda para a linguagem visual, com fotografias como a da família Centeno, que ilustra a capa.

Adeus, Haiti

Edwidge Danticat (Trad. Geraldo Galvão Ferraz, Agir, 2010)

Publicado originalmente em 2007 sob o título “Brother, I’m Dying”, esse é o primeiro (e único) livro de Edwidge Danticat (1969) traduzido para o português. Nascida em Porto Príncipe, migrou ainda criança para os Estados Unidos e se tornou uma escritora de ficção bastante premiada.“Adeus, Haiti”, por sua vez,é um livro de memórias. Focada na história da família da autora entre o Haiti e os Estados Unidos, é uma obra sobre imigração, amor, dor, acolhimento e família. Embora seja o motivo de deslocamentos ou permanências, não é o trabalho que define os personagens, mas sim os laços e cuidados que mantêm entre si apesar das distâncias. Uma narrativa, portanto, assentada em uma subjetividade que é reflexo objetivo das existências de pessoas negras. Tudo isso sob o pano de fundo (e na linha de frente) tanto da história recente do Haiti quanto da imigração nos EUA.

Reyita, sencillamente: Testemonio de una negra cubana nonagenaria

Daisy Rubiera Castillo (Prolibros, 1997)

Narrativa testemunhal da afro-cubana María de los Reyes (1902-1997), a Reyita. O nome de batismo e o apelido são uma referência à data do seu aniversário, seis de janeiro, dia de Reis no calendário católico. Por meio de relatos à filha Daisy, esta mulher negra nos dá a conhecer uma experiência vivida integralmente em Cuba, marcada pela pobreza que simultaneamente informa e é informada pela raça e pelo gênero. Ainda que não deixe de narrar sua vivência durante o auge do movimento revolucionário que chegaria ao poder em 1959, Reyita nos apresenta um panorama bem mais amplo do colorismo e do racismo, sob a vida rural e urbana no pais ao longo de um século. O livro, disponível aqui, recebeu Menção no Prêmio Casa das Américas em 1997 e é complementado pela obra potente de Georgina Herrera (1936), cujos poemas dão abertura a todos os capítulos.

Autobiografia de um ex-negro

James Weldon Johnson (Trad. Robertson Frizero, 8Inverso, 2010)

Para finalizar a lista e romper o padrão de autoras mulheres, eis o primeiro romance da literatura afro-americana escrito em primeira pessoa. O pioneirismo não está só na forma do relato, mas também na potência do seu conteúdo, que inaugura uma longa tradição de pensamento negro produzido por mulheres negras e homens negros nas Américas. O afro-americano James Weldon Johnson (1871-1938) teve seu romance confessional publicado pela primeira vez em 1912, sem indicação de autoria — que só veio a ser divulgada na segunda edição, em 1927. O livro apresenta os conflitos e angústias inerentes à experiência de um homem negro nos Estados Unidos não só na época, como em pleno 2020.

Fernanda Oliveira é professora-adjunta de história na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), coordenadora nacional do Grupo de Trabalho Emancipações e Pós-Abolição da Associação Nacional de História e idealizadora do Atinuké – Coletivo e Curso sobre o pensamento de mulheres negras.

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