Foto: Leila de Souza Teixeira/Divulgação

O internacionalista e pesquisador Paulo Menechelli Filho indica cinco livros que ajudam a entender a China contemporânea

É cada vez maior o interesse pela China. Entretanto, o conhecimento acerca do país asiático ainda não é equivalente à sua crescente inserção internacional, e tanto a língua quanto a cultura tradicional chinesas ainda são desconhecidas por boa parte da população brasileira. Por isso, escolhi cinco livros que podem contribuir para um entendimento mais amplo da cultura, da história e do idioma chineses, ajudando assim a compreender um pouco melhor a China contemporânea.

O problema dos três corpos

Liu Cixin (Trad. Leonardo Alves, Suma, 2016)

Em seu livro “To Seek Out New Worlds: Science Fiction and World Politics” (2003), Jutta Weldes, professora de relações internacionais da Universidade de Bristol e uma das maiores pesquisadoras acerca das relações entre ficções científicas e política mundial, afirma que a ficção científica sempre aborda temas políticos do mundo atual, como tecnologia e mudanças sociais, e os confronta com alternativas possíveis. Nesse sentido, a obra de Liu Cixin, um dos mais aclamados escritores contemporâneos da China, oferece material de sobra para se pensar a sociedade chinesa do passado, do presente e do futuro.

“O problema dos três corpos” é o primeiro volume da trilogia “Remembrance of Earth's Past” (os outros dois volumes, “A floresta sombria” e “O fim da morte”, também foram lançados em português pela editora Suma), uma obra de fôlego incrível, que começa no período turbulento da Revolução Cultural na China e perpassa os séculos para acompanhar a expansão da humanidade pelo cosmos. Não por acaso, a obra venceu o prestigiado Prêmio Hugo em 2015 (pela primeira vez dado a um escritor asiático) e recebeu elogios de personalidades tão distintas como Barack Obama e George R. R. Martin. Ao fantasiar sobre possíveis reações dos terráqueos diante do contato com civilizações alienígenas, o autor faz com que olhemos para nós mesmos e pensemos sobre o que constitui a natureza humana, o que mantém o tecido social e como tudo isso é tão frágil diante da grandeza do universo. Vale a pena aventurar-se pelo universo de Liu Cixin, mesmo que você não seja fã de ficção científica.

A Relational Theory of World Politics

Yaqing Qin (Cambridge University Press, 2018)

Yaqing Qin começa seu livro com um belo poema de Su Shi (1037-1101), conhecido poeta chinês: “Eu vejo uma cordilheira de um lado e um pico de outro/ Tenho visões diferentes de cima ou de baixo, de longe ou de perto/ Eu não consigo capturar a verdadeira face do Monte Lushan/ Simplesmente porque dentro da montanha eu mesmo estou” (tradução livre).

Na sequência, Yaqing destaca que, assim como uma pessoa em uma montanha não consegue ver toda a montanha, todo cientista social é um observador que está localizado dentro da sociedade e que só pode ver um dos lados dessa sociedade por vez. Por isso, uma perspectiva diferente é significativa, pois ela possibilita que as pessoas possam enxergar uma imagem que elas não veriam por outros ângulos. E exatamente por isto, conclui o professor da China Foreign Affairs University, que a cultura é tão importante: ela fornece diferentes ângulos de observação e diferentes perspectivas para compreensão. Assim, a obra de Yaqing Qin, apesar de ser, a princípio, um estudo sobre relações internacionais, pode ajudar-nos a construir mais perspectivas de análise sobre a China e o mundo.

Hollywood Made in China

Aynne Kokas (University of California Press, 2017)

Quando foi a última vez que você viu um vilão chinês em um filme de Hollywood? Se você não lembra, talvez isso não seja coincidência. Em seu premiado livro, Aynne Kokas argumenta que, conforme o mercado interno de cinema da China cresce (o país é hoje o segundo maior em valor de bilheteria do mundo, atrás somente dos EUA), cada vez mais os filmes de Hollywood são feitos mirando o público chinês. E, como na China o governo tem grande controle sobre tudo o que é produzido, filmado ou exibido no país, os estúdios hollywoodianos não têm mais aprovado conteúdos que podem de qualquer forma melindrar os chineses. No livro, a professora de estudos de mídia da Universidade de Virginia mostra que blockbusters como “Homem de Ferro 3”, de 2003, por exemplo, tiveram seus roteiros alterados para serem veiculados na China.

Entender essas dinâmicas também é relevante para o Brasil, uma vez que nossas salas de cinema são largamente ocupadas por filmes dos EUA. Se, como argumenta Kokas, os filmes de Hollywood forem cada vez mais produzidos para a China, visando ao mercado interno daquele país e sujeitando-se aos censores chineses, isso pode impactar não só no modo como os EUA veem a China, mas como o Brasil vê o país asiático. Por isso, obras como a de Annye Kokas são tão relevantes neste momento.

A Billion Voices: China's Search for a Common Language

David Moser (Penguin Specials, 2016)

É amplamente sabido que o idioma chinês é a língua mais falada do mundo. Mas você sabia que o mandarim como língua oficial é uma criação do século 20 e que, em 2014, cerca de 30% da população da China (ou aproximadamente 400 milhões de chineses) não se comunicava nesse idioma? Em sua pesquisa, David Moser faz uma análise brilhante sobre a busca por uma língua comum na China, passando por debates e conferências desde a década de 1910 e que, de certo modo, duram até hoje. Ao longo desse percurso, passamos por reflexões sobre a importância do idioma para a coesão nacional e para o fortalecimento da identidade de um país, além de debates sobre como a língua pode ser usada para projeção de seu poder — e como isso pode estar relacionado inclusive com a facilidade (ou dificuldade, no caso do mandarim) em se aprender e difundir o idioma. Trata-se de um livro breve, que serve de porta de entrada para interessantíssimas reflexões.

Os analectos

Confúcio (Trad. Giorgio Sinedino, Coleção Folha Grandes Nomes do Pensamento, 2015)

Confúcio é uma referência inescapável para quem quer compreender a China, seja sua longa história, seja o período mais contemporâneo. Isso porque o pensador, que viveu entre 551 e 479 a.C., é referência constante nos debates sobre o país e nos discursos dos líderes chineses. Não por acaso, é ele que dá nome ao Instituto Cultural oficial de ensino do mandarim, o Instituto Confúcio — que, em 16 anos de existência, já conta com 500 unidades em 140 países do mundo (11 delas estão no Brasil).

A edição de “Os analectos” publicada pela Folha de S.Paulo traz a tradução do então diplomata brasileiro Giorgio Sinedino, a primeira realizada diretamente do chinês arcaico original. Além disso, Sinedino buscou também manter a tradição de explicar o texto confuciano a partir dos principais comentaristas chineses, especialmente Zhu Xi (1130-1200). Isso é relevante principalmente por dois motivos. O livro que apresenta os pensamentos de Confúcio não foi escrito por ele, mas por seus discípulos, que registraram conversas e comentários do mestre, nem sempre conectados e concatenados entre si. Ademais, a concisão da língua chinesa antiga também pode parecer um tanto enigmática, especialmente para leitores ocidentais. Essas questões conferem ainda maior importância ao trabalho dos comentaristas, que, ao longo dos séculos, buscaram analisar e interpretar a obra confuciana. Trata-se, portanto, de uma excelente oportunidade para um delicioso e embasado mergulho nas ideias do mais conhecido pensador chinês.

Paulo Menechelli Filho é doutorando e mestre em relações internacionais pelo Instituto de Relações Internacionais da UnB (Universidade de Brasília) e bacharel em direito pela USP (Universidade de São Paulo). Trabalhou como assessor para assuntos internacionais da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo e como consultor do Ministério da Cultura do Brasil, em projeto visando à internacionalização da cultura brasileira. Sua pesquisa tem como foco a diplomacia cultural da China, em especial o uso do cinema como instrumento do soft power cultural chinês.

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