A professora de filosofia da UFABC Aléxia Bretas indica cinco livros para conhecer o pensamento da Escola de Frankfurt

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Muito mais que um rótulo ou etiqueta, o nome “Escola de Frankfurt” é digno de atenção, estudo e reconhecimento como uma das principais vertentes intelectuais do século 20.

Cunhada apenas nos anos 1950, a expressão refere-se ao grupo de pesquisadores alemães de ascendência judaica reunidos em torno do Instituto de Pesquisa Social — fundado em 1923 por Felix Weil para levar adiante os estudos de economia, sociedade e cultura a partir de uma perspectiva rigorosamente marxista.

Pensadores como Max Horkheimer, Theodor W. Adorno, Herbert Marcuse e Walter Benjamin são parte do que hoje se denomina “primeira geração” de teóricos críticos. Compõem, portanto, o núcleo histórico que ficou conhecido como Escola de Frankfurt.

Pelo menos desde 1931, o projeto de uma Teoria Crítica da Sociedade tem atuado como alicerce comum a pesquisas interdisciplinares em ciências sociais e humanidades que buscam não apenas entender como a realidade funciona, mas, além disso, como ela poderia ser transformada a partir de suas próprias potencialidades e contradições internas.

Por isso, a orientação para a prática é uma característica marcante em sua elaboração teórica, cada dia mais necessária no combate às aberrações propagadas pelos arautos da anticiência, do obscurantismo e do negacionismo.

Abaixo, indico cinco obras magistrais a serem lidas e relidas como uma pequena — mas suculenta — amostra de seu pensamento.

Grande Hotel Abismo: A Escola de Frankfurt e seus personagens

Stuart Jeffries (Trad. Paulo Geiger, Companhia das Letras, 2018)

Ao lado de “A imaginação dialética” de Martin Jay e “A Escola de Frankfurt” de Rolf Wiggershaus, a biografia plural escrita por Stuart Jeffries é uma excelente pedida para entrar em contato com alguns dos pensadores, ideias e debates que influenciaram de maneira indelével os rumos da pesquisa em humanidades e o papel do intelectual público nas sociedades contemporâneas. Com uma prosa vibrante e afiada, o jornalista britânico reconstitui um panorama circunstanciado da experiência histórica e dialética que acompanhou a Teoria Crítica ao longo de praticamente todo o século 20 e início do século 21. A ascensão nazifascista, o triunfo da tecnociência, a emergência da indústria cultural, bem como a erosão do pensamento negativo e advento da contracultura estão entre alguns dos grandes temas abordados a partir das obras e do diálogo construtivo entre seus principais autores.

A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica

Walter Benjamin (Trad. Gabriel Valladão Silva, L&PM, 2018)

Este é um grande clássico contemporâneo. Escrito e reescrito diversas vezes, foi publicado durante a ascensão do nacional-socialismo na Alemanha e buscou oferecer subsídios para sua destruição, com o aporte de novas categorias estéticas. Segundo Benjamin, as novas técnicas de reprodução teriam criado condições para que a arte pudesse se separar do domínio fetichista da tradição, estando finalmente apta a exercer sua vocação revolucionária. Essa transformação é descrita pelo autor como a “perda da aura”: o processo pelo qual ocorre a obsolescência dos referenciais espaciais e temporais que atestavam, até então, a “autenticidade” de uma obra de arte, distinguindo o original da cópia. Com o advento da fotografia e, principalmente, do cinema, teria enfim chegado o momento em que a “estetização da política” poderia ser combatida e superada pela urgente “politização da arte”.

Eclipse da razão

Max Horkheimer (Trad. Carlos Henrique Pissardo, Ed. Unesp, 2015)

Publicado em 1947, este livro de Max Horkheimer foi escrito diante de um impasse: o progressivo desenvolvimento científico e tecnológico teria sido acompanhado de um implacável processo de desumanização. Em diálogo permanente com Theodor Adorno e Leo Lowenthal, o autor e então diretor do Instituto de Pesquisa Social chama atenção para os desafios inerentes à construção de um pensamento crítico em condições de derrotar a hegemonia da razão instrumental. Esta, em nome da dominação da natureza, teria se voltado contra os próprios homens, tolhendo seu poder de imaginação, sua capacidade de resistir à manipulação e seu juízo autônomo. Portanto, o objetivo dessa obra é investigar o conceito de racionalidade em operação nas sociedades contemporâneas a fim de descobrir se tal conceito não contém defeitos que o tornam vicioso desde as suas origens.

O homem unidimensional: estudos da ideologia da sociedade industrial avançada

Herbert Marcuse (Trad. Robespierre Oliveira, Deborah Cristina Antunes e Rafael Cordeiro Silva, Edipro, 2015)

Uma das obras mais importantes dos anos 1960 e, para alguns, o livro mais “pessimista” de seu autor. Marcuse é normalmente considerado o mais “otimista” dos filósofos frankfurtianos. Nos anos 1950, defendeu, com e contra Freud, a possibilidade de uma civilização não repressiva, baseada na potência de Eros contra os imperativos da produtividade e do desempenho. Na década seguinte, contudo, o filósofo iria rever parte de suas esperanças ao identificar novos dispositivos de dominação e controle sociais surgidos nas sociedades industriais avançadas. Agora os indivíduos “livres” não perceberiam a repressão como tal, passando a desejar e a consumir a “liberdade” como mais uma inócua mercadoria. Ou seja: as forças insurgentes teriam sido integradas ao sistema. Segundo Marcuse, para derrotar o fechamento do universo político com o triunfo do pensamento único torna-se necessário resgatar a potência crítica da negatividade ou da “Grande Recusa”. Sem ela, estaríamos fadados a viver em uma realidade unidimensional, de tácita aceitação das coisas como elas são, sem conflitos, resistência ou saída.

Educação e emancipação

Theodor W. Adorno (Trad. Wolfgang Leo Maar, Paz e Terra, 2008)

Este é possivelmente o livro de leitura mais acessível de Theodor W. Adorno. Composto de palestras e entrevistas radiofônicas, a publicação é uma pérola. Apresenta e discute temas tão importantes, ontem e hoje, como o sentido da formação cultural (Bildung) na experiência de professores e alunos, os efeitos da televisão na “semiformação” de massa e o papel da educação contra a barbárie. Conforme se percebe, algumas das grandes preocupações frankfurtianas encontram-se aí: a reversão do esclarecimento em obscurantismo, o embate com o passado violento e o compromisso com a transformação social pela via do pensamento crítico e da formação emancipadora. Em um dos textos mais interessantes da compilação, “O que significa elaborar o passado”, Adorno afirma: “Considero a sobrevivência do nazismo na democracia como potencialmente mais ameaçadora do que a sobrevivência de tendências fascistas contra a democracia”. À luz da atual conjuntura política mundial, suas ideias sobre a educação devem ser lidas não apenas como um acurado diagnóstico histórico, mas também como uma advertência e um sinal de alerta.

Aléxia Bretas é professora de filosofia na UFABC (Universidade Federal do ABC). É autora dos livros “A constelação do sonho em Walter Benjamin” (Humanitas/Fapesp, 2008), “Do romance de artista à permanência da arte” (Annablume/Fapesp, 2013) e “Fantasmagorias da modernidade” (Ed. Unifesp, 2017). É membro da Rede Nexos: Teoria Crítica e Pesquisa Interdisciplinar vinculada ao Consortium of Critical Theory Programs da Universidade da Califórnia em Berkeley.

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