Foto: Arquivo pessoal

A professora e pesquisadora indica cinco livros para conhecer as mulheres pioneiras da sociologia

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. A maior parte de nossos conteúdos são exclusivos para assinantes, mas esta seção é de acesso livre sempre. Aproveite para experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

Quem estuda sociologia com certeza já se deparou com a tríade obrigatória dos pais fundadores. Karl Marx, Émile Durkheim e Max Weber quase se confundem com a própria definição da disciplina. Eles estão presentes em todos os cursos e manuais introdutórios às ciências sociais, funcionando como uma espécie de credenciamento na área, um ponto de partida comum para o ensino e a socialização no campo. Contudo, há uma questão incômoda: se um dos ensinamentos fundamentais da sociologia é a necessidade de desnaturalizar a realidade social ao nosso redor, por que continua tão naturalizado um cânone em que não há mulheres? Elas estavam realmente ausentes do debate intelectual daquele período?

Em décadas recentes, essas perguntas moveram um intenso trabalho de recuperação da vida e da obra de mulheres ativas nos debates que deram origem à sociologia, mas que foram apagadas da história oficial da disciplina. Graças a novas traduções, reedições e estudos especializados, hoje conseguimos transitar com mais facilidade pelos escritos de pioneiras como a inglesa Harriet Martineau, a franco-peruana Flora Tristan, a alemã Marianne Weber, as afro-americanas Anna Julia Cooper e Ida B. Wells, a indiana Pandita Ramabai, entre outras. No entanto, conforme demonstra a seleção de títulos abaixo — que, infelizmente, conta com apenas uma tradução ao português —, ainda há muito a ser feito.

Essas redescobertas contribuem para uma narrativa mais plural sobre os primórdios da sociologia, mas não se limitam a isso. Ao refletirem a partir de uma perspectiva feminina, essas autoras questionaram pressupostos universalistas e sinalizaram que a produção do conhecimento é influenciada por categorias como gênero, classe e raça. O que está em jogo, portanto, não é apenas a história da sociologia, mas o próprio campo da teoria sociológica e os fundamentos para a interpretação da modernidade.

Fundadoras de la sociología y la teoría social 1830-1930

Ed. Patricia M. Lengermann e Gillian Niebrugge (Centro de Investigaciones Sociológicas, 2019)

Publicado originalmente em 1998, o livro é uma compilação que recupera as biografias e as contribuições científicas de 15 sociólogas pioneiras, selecionadas a partir de sua ligação com a história da disciplina nos Estados Unidos. Os trabalhos reunidos mostram que, entre 1830 e 1930, mulheres já estavam desenvolvendo teorias sobre a sociedade e abordando temas centrais para o campo da sociologia, como metodologia de pesquisa, economia, trabalho, sexualidade, família, política, cultura, relações raciais e desigualdades — a partir de uma perspectiva marcada pela posição social da mulher.

Sociological Theory Beyond the Canon

Syed Farid Alatas e Vineeta Sinha (Palgrave Macmillan, 2017)

Neste livro, os professores da Universidade Nacional de Singapura ampliam as críticas ao cânone sociológico para pensar não só a omissão das contribuições de mulheres, mas também de fontes não ocidentais. O objetivo é deslocar a narrativa de surgimento da sociologia para considerar como as transformações sociais em curso naquele momento foram experimentadas em contextos não europeus. No entanto, a ideia não é excluir autores como Marx, Weber e Durkheim dos currículos acadêmicos. Pelo contrário, argumenta-se em favor de uma nova forma de ler os clássicos que incorpore preocupações teóricas com o eurocentrismo e com o colonialismo — proposta que inclui a introdução de mulheres pensadoras e pensadores não ocidentais ao ensino. Entre as autoras selecionadas, merecem destaque os capítulos sobre as inglesas Harriet Martineau e Florence Nightingale e, principalmente, o que trata da indiana Pandita Ramabai Sarawasti.

União operária

Flora Tristan (Trad. Miriam Nobre, Fundação Perseu Abramo, 2015)

A escritora franco-peruana Flora Tristan participou ativamente dos debates políticos e filosóficos dos anos 1830 e 1840 na França, publicando livros, artigos e ensaios. “União operária”, publicado em 1843, representa um esforço pioneiro de análise da posição social ocupada pela classe trabalhadora francesa. Sua investigação sobre as condições precárias da vida operária é um retrato do desenvolvimento do capitalismo industrial, e produz uma interpretação da modernidade a partir do olhar dos excluídos da história. Destaco a originalidade do capítulo 3, “Porque eu menciono as mulheres”, sobre a posição feminina na classe trabalhadora, que descreve a mulher como “a proletária do proletário”. Com o objetivo de melhorar moral e materialmente a situação dos operários, o livro valoriza a organização política e proclama o princípio da autoemancipação proletária. Qualquer semelhança com a conhecida frase “trabalhadores do mundo, uni-vos”, que encerra o “Manifesto comunista” de Marx e Engels, publicado quatro anos depois, não é mera coincidência.

How to Observe Moral and Manners

Harriet Martineau (Project Gutenberg, 2010)

Harriet Martineau é considerada a autora do primeiro livro sobre metodologia de pesquisa sociológica. Publicado em 1838, “Como observar a moral e os costumes” (tradução livre) busca fornecer um guia para o estudo de fenômenos da vida social, passando pelo trabalho de campo, a sistematização dos dados e a produção de análises e teorias. Segundo a autora, a observação da moral e dos costumes exige treino e uma preparação intelectual prévia: não basta usar os olhos, os ouvidos e a memória para compreender os hábitos de outros povos se o pesquisador não estiver munido de princípios definidos e objetivos claros. Entre os pré-requisitos exigidos, estão a cautela com generalizações apressadas, especulações e preconceitos, além da necessidade de cultivar o “espírito de imparcialidade” e o controle dos vieses da pesquisa. A percepção de Martineau de que a investigação social tem dois lados igualmente importantes — o observador e o observado — é um aspecto muito valorizado na pesquisa sociológica contemporânea. Sua obra mostra a necessidade de uma ciência adequada para a compreensão da vida em sociedade.

Marianne Weber: ensayos selectos

Ed. Maya Aguiluz Ibargüen (Universidad Nacional Autónoma de México/Centro de Investigaciones Interdisciplinarias en Ciencias y Humanidades, 2011)

Marianne Weber foi uma das mais interessantes intelectuais alemãs de seu tempo. Mais conhecida por sua atuação política e por organizar e biografar a obra de seu marido, o sociólogo Max Weber, Marianne tem uma vasta produção própria, composta por mais de 70 artigos e nove livros — infelizmente, nenhum traduzido ao português. Esta coletânea contém uma seleção de textos da autora que abordam temas como o direito, a dominação patriarcal, o casamento, a família, o trabalho e a maternidade. Sua obra articula a produção de conhecimento com a organização política em favor dos direitos das mulheres. Weber toma a experiência feminina como ponto de partida para sua análise sociológica, refletindo sobre temas caros à disciplina com um olhar marcado pelo gênero. A recuperação de seus escritos, junto com os de outras pioneiras da sociologia, é crucial para pensar como a modernidade repercutiu de maneiras distintas na vida de homens e mulheres.

Luna Ribeiro Campos é professora de sociologia no Cefet-RJ (Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca) e doutoranda no curso de ciências sociais da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), na área de estudos de gênero. É integrante do LabGen/UFF (Laboratório de Estudos de Gênero e Interseccionalidade da Universidade Federal Fluminense).

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.