Foto: Leonardo Aversa/Divulgação

Biógrafo de Aldir Blanc, o jornalista Luiz Fernando Vianna indica cinco livros da pouco conhecida obra literária do letrista, morto por covid-19 na segunda-feira (4)

Além de versos de canções, Aldir Blanc escreveu poemas, contos e literatura infantil, mas o gênero em que mais se destacou foi a crônica. Seus dois primeiros e marcantes livros são reinvenções dos seus tempos de criança, encharcadas de humor e carioquice. A capacidade de misturar realidade e delírio, também marca de sua produção musical, firmou sua identidade como cronista, admirado por Luis Fernando Verissimo, Millôr Fernandes, Ivan Lessa e outros, embora com obra dispersa. Blanc morreu no dia 4 de maio, vítima da covid-19, com um reconhecimento menor como escritor do que merecia.

Rua dos Artistas e arredores

Aldir Blanc (Mórula, 2016)

Reúne crônicas publicadas por “O Pasquim” entre 1975 e 1978, ano de lançamento do livro pela Codecri, a editora do jornal. O primeiro texto, “Fimose de Natal”, já mostrava que, para Blanc, tudo era passível de escracho. Tendo vivido até os 11 anos na Rua dos Artistas, na fronteira entre Vila Isabel e Maracanã (Zona Norte do Rio), usou figuras reais da região, inclusive seus familiares, para compor cenas fictícias pontuadas por literais filosofias de botequim. A Mórula relançou este e outros títulos de Blanc entre 2016 e 2017, para marcar os 70 anos do artista.

Porta de tinturaria

Aldir Blanc (Mórula, 2017)

Continuação do livro anterior, lançada em 1981, compila mais crônicas lançadas em “O Pasquim”. Os leitores já conheciam melhor personagens como Lindauro, o rei da boçalidade; Penteado, o gozador; e Esmeraldo Simpatia-é-quase-amor, cujo apelido virou nome de bloco de carnaval no Rio. O primeiro texto era novamente sobre Natal, o nada cristão “Hô, hô, hô!”.

Vila Isabel, inventário da infância

Aldir Blanc (Mórula, 2017)

Obra memorialística em outro registro, publicada originalmente em 1996, abre espaço, em meio ao humor habitual, para vários momentos líricos. Seus avós Noêmia e Antônio, que o criaram, são apresentados com carinho e saudade comoventes. “Vila Isabel foi uma febre” é a primeira frase do livro, que recorda a infância entre quintais, quaradores, caramanchões e afetos. Mas o cronista, com personagens novos e antigos, marca inconfundível presença.

Um cara bacana na 19ª

Aldir Blanc (Record, 1996)

Concebido para marcar os 50 anos de Blanc, em 1996 (e hoje fora de catálogo), trata-se de um apanhado de contos, crônicas e poemas, além de algumas letras de música. Sem eixo firme, é um livro que espelha a diversidade da obra do autor. Vale destacar os poemas, alguns com estocadas divertidas, outros dilacerantes. É o caso de “Choro pra bandolim”, que fez pensando nas filhas gêmeas que morreram no dia do parto prematuro, em 1974.

O gabinete do doutor Blanc

Aldir Blanc (Mórula, 2016)

Em 2000 e 2001, o compositor e cronista foi convidado para escrever sobre jazz e literatura no site Notícia e Opinião, também conhecido como No Ponto. Seu amplo conhecimento sobre os assuntos abriu nova frente em sua trajetória, mas só virou livro em 2016, na coleção Aldir 70, da Mórula. A devoção a artistas como Miles Davis e Dashiell Hammett não o impedia de se divertir e divertir os leitores. É um título sem par em sua bibliografia.

Luiz Fernando Vianna é jornalista e autor de “Aldir Blanc – Resposta ao tempo” (Casa da Palavra, 2013).

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