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A corroteirista e apresentadora do podcast de ciências e livros ‘Vinte mil léguas’ indica obras que encontram inspiração literária em fenômenos naturais

Os temas dos cinco livros selecionados são: os animais brasileiros, os legumes, os humanos do interior da Inglaterra, os cupins da África do Sul e os seres esquisitos que existem por toda parte. Mas dizer isso é dizer quase nada. Porque os cinco livros escolhidos aqui não se reduzem aos temas — seus autores são observadores do mundo e artesãos da língua em igual medida. Escrevem sobre fenômenos naturais fazendo deles matéria para a criação literária. Como, aliás, fazia o próprio Charles Darwin em muitos momentos de inspiração, como nos trechos finais de “A origem das espécies” ou nas descrições dos países por onde passou em seu “Diário do Beagle”. Embora os livros de Darwin não entrem nesta lista, sua presença se faz sentir por trás do pensamento de cada um dos autores abaixo.

Terra Papagalorum

Paulo Vanzolini (Ils. Gerda Brentani, Imprensa Oficial, 2020)

Os que conhecem os sambas de Paulo Vanzolini, e sabem de cor o refrão “reconhece a queda e não desanima/ levanta, sacode a poeira/ e dá a volta por cima”, muitas vezes não imaginam que ele foi um dos maiores zoólogos do Brasil. Do outro lado, os que conhecem sua carreira de cientista, professor e diretor do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo, às vezes esquecem que Vanzolini foi um dos maiores sambistas do país, já que sua contribuição como pesquisador é tão relevante que pouca coisa mais parece caber. Esse livro póstumo, publicado depois de 40 anos no prelo, junta as duas pontas de sua vida. São pequenos verbetes em verso que dão nome e personalidade aos bichos brasileiros (o livro é bilíngue, com o texto todo vertido para o inglês pelo próprio autor). Textos que descrevem pássaros, insetos, peixes, anfíbios, répteis, quadrúpedes como por exemplo o gambá: “Ladrão de/ galinheiros e ébrio notório […] Há/ setenta milhões de anos não/ muda de fisionomia e é cada/ vez mais abundante”. Os verbetes foram feitos a partir das ilustrações de Gerda Brentani, uma das artistas plásticas que acompanhava Vanzolini em suas expedições científicas. Espécie de bestiário da nossa fauna, elenca bichos e mais bichos numa escalada de maravilhamento, até concluir: “Chega uma hora em que a/ realidade cansa./ Aplique seus próprios nomes”.

A fabulosa história dos legumes

Évelyne Bloch-Dano (Trad. Luciano Vieira Machado, Estação Liberdade, 2011)

Um livro sobre legumes é uma coisa engraçada. Mas um livro de histórias fabulosas sobre legumes é uma coisa que, além de engraçada, nos faz gostar mais do mundo. Évelyne Bloch-Dano é uma escritora versátil: jornalista e crítica literária, é reconhecida por suas biografias de mulheres (entre outras, da mãe de Proust, da mulher de Émile Zola, e da militante Flora Tristan). Esse seu livro é um objeto insólito. Narra histórias sobre determinados legumes como se fossem pessoas, pessoas muito interessantes: a alcachofra afrodisíaca adorada por Freud; a esquecida pastinaca, antiga companheira inseparável da cenoura; as ervilhas cultivadas desde 6000 a.C... Intercalada a essas histórias, há uma série de receitas, tanto da própria autora quanto, por exemplo, “os aspargos em forma de ervilhas” de Alexandre Dumas, autor de “Os três mosqueteiros”. O livro é também costurado por pinturas que retratam legumes e trechos de livros e poemas dedicados a eles, de diversos autores da literatura mundial (os franceses são a maioria). A introdução amarra o todo em uma discussão histórica, cultural e política sobre o que é o gosto.

Silas Marner: O tecelão de Raveloe

George Eliot (Trad. Julia Romeu, José Olympio, 2017)

Muitas autoras do século 19 assumiram pseudônimos masculinos para serem publicadas. Não foi bem o caso de George Eliot (nascida Mary Anne Evans). Considerada, ainda em vida, a mulher mais inteligente da Inglaterra, julgou que seu nome verdadeiro já era conhecido demais por ser ensaísta, crítica, editora e tradutora — e por viver com um homem com quem não era casada. Quis ver sua ficção livre da carga polêmica que sua figura arrastava.

Isso é parte da história. A outra parte, igualmente relevante, é que George Eliot/Mary Anne Evans não queria que seus romances fossem vistos como “literatura de mulher”. Ela condenava a pieguice dos livros assinados por autoras, que faziam sucesso em sua época. Os romances de Eliot fazem experimentos — muito inspirados em Darwin — para investigar um aspecto específico da natureza: a natureza humana. Ela observa, como se por uma lupa, a maneira como os indivíduos se adaptam ao meio. Sua obra-prima, “Middlemarch”, foi traduzida por Leonardo Fróes e está fora de catálogo, disponível apenas em alguns sebos a preços exorbitantes. O recém-editado (em ótima tradução de Julia Romeu) “O tecelão de Raveloe” investiga o que acontece com um homem que se vê expulso de seu ambiente de origem. O livro é uma preciosidade sobre a ambição e a paternidade, e nos deixa, como muitos de George Eliot, em estado de graça.

The Soul of the White Ant

Eugène Marais (A Distant Mirror, 2009)

O poeta e etólogo autodidata Eugène Marais nasceu em 1872 numa fazenda na África do Sul. Ficou viúvo muito cedo e, em luto, decidiu morar sozinho no alto das montanhas. Lá, se dedicou a observar dois extremos da cadeia dos seres vivos: os babuínos e os cupins. Queria entender o todo que conectava as partes, a ponte que uniria a psiquê dos primatas à dos insetos. Nesse livro — que é também trabalho de luto do autor, convivendo dia após dia com criaturas tão alheias à sensibilidade humana — Marais afirma que o cupinzeiro funciona como um só organismo, e que cada cupim individual dá sentido a algo maior.

Marais era um darwinista num momento em que, nos centros do pensamento científico, Darwin tinha ficado fora de moda. Mas ele estava à margem, e não precisava se preocupar com a moda. Sua ideia sobre os cupinzeiros passou despercebida, até voltar recentemente à vanguarda do pensamento biológico. O livro foi publicado em africâner, língua que quase nenhum europeu sabia ler. Exceto quem lê bem holandês. Como era o caso do belga Maurice Maeterlinck.

Maeterlinck copiou a ideia central e trechos de “Die Siel van die Mier” (“A alma do cupim” é uma tradução livre) e o publicou em francês. Marais soube do plágio e tentou chamar atenção para o fato — mas ele era um sul-africano desconhecido e ninguém lhe deu ouvidos. Maeterlinck ganhou o Nobel de Literatura. Eugène Marais se suicidou com um tiro de espingarda.

Seus livros são comoventes e meticulosos. Existe uma editora australiana que os imprime, em inglês; há também versões digitais disponíveis em inglês e outros idiomas. Marais ainda não foi publicado no Brasil (como tampouco foi outro grande entomólogo e ensaísta que o inspirou, o francês Jean Henri Fabre).

O sorriso do flamingo

Stephen Jay Gould (Trad. Luís Carlos Borges, Martins Fontes, 2004)

Paleontólogo e professor na Faculdade de Geologia de Harvard, Gould publicou mais de 20 livros e centenas de ensaios, nos quais trata do tempo, do espaço, do clima e das criaturas. Os dois temas centrais desse seu livro, coletânea de artigos publicados na revista Natural History, são, segundo Gould, “o sentido das coisas e a esquisitice das coisas”. Um não exclui o outro. Seus ensaios vão sempre de uma esquisitice particular em direção a um sentido maior: o bico do flamingo é invertido porque a seleção natural rege as mudanças das espécies. Gould parte da observação dos detalhes da natureza e chega em razões que inserem esses detalhes numa trama de sentido e vida. É um escritor que parece ter encontrado a chave para fazer funcionar todo ensaio que escreve, e funciona sempre. Mais do que isso, Gould trabalhou para criar a própria chave, porque não parece haver nada de fortuito no estilo dos seus textos; sua escrita é feita de clareza, inteligência, bom humor e trabalho. A quantidade de trabalho visível na superfície de cada capítulo é espantosa — mas nunca nos oprime. Uma pena que a tradução para o português não acompanhe a beleza nem as piadas do livro.

Sofia Nestrovski é corroteirista e apresentadora (ao lado de Leda Cartum) de “Vinte mil léguas: o podcast de ciências e livros, cuja primeira temporada é dedicada a Charles Darwin. Mestre em Teoria Literária pela Universidade de São Paulo, assinou, de 2016 a 2018 a seção “Léxico”, do jornal Nexo. É autora da HQ “Viagem em volta de uma ervilha” (com Deborah Salles, editora Veneta).

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