O jornalista e editor da revista Poder Fábio Dutra recomenda cinco livros para conhecer a história da imprensa brasileira

Definitivamente não faltam livros fundamentais sobre a imprensa brasileira. A maioria, inclusive, foi escrita pelos protagonistas dessa história ou mesmo por testemunhas oculares dos grandes movimentos da indústria. A pequena seleção aqui exposta tem o objetivo de se ater ao seu desenvolvimento, desde as origens tardias até o seu apogeu às vésperas da popularização da internet. Passando, claro, por sua era de ouro: a segunda metade do século 20.

História da imprensa no Brasil

Nelson Werneck Sodré (Civilização Brasileira, 1966)

Militar, jornalista e comunista, num tempo em que esse arranjo era possível, Nelson Werneck Sodré nos apresenta nessa obra fundamental uma história crítica e bem ilustrada sobre a imprensa brasileira. Da iniciação tardia a seu desenvolvimento, capilarização regional e posterior consolidação como indústria, passando pelo ápice da imprensa carioca dos anos 1920 aos 1940 — quando qualquer jornalista talentoso angariava colegas e admiradores e abria seu pasquim da noite para o dia —, Sodré faz um belíssimo apanhado dessa evolução até o tempo da obra. Ou seja, até o golpe militar de 1964.

A partir do método marxista, o livro demonstra como o avanço técnico da indústria gráfica foi cada vez mais subindo o sarrafo para a entrada de novos empresários do jornalismo. Se nos anos 1920 o desafio era angariar bons profissionais para ter um jornal de sucesso, nos anos 1960 passou a ser necessário investimento suficiente para montar um parque gráfico — o que só os publishers consolidados, um grande empresário ou um banqueiro de outra área seriam capazes de fazer.

Chatô — O rei do Brasil

Fernando Morais (Companhia das Letras, 1994)

Chateubriand, fundador dos Diários Associados e responsável por trazer a televisão para o Brasil em 1950 — muito antes de alguns países europeus desenvolvidos. Figura dúbia, jamais explicada por premissas maniqueístas, chegou a balear um credor que ousou lhe executar a dívida e também usou seu poder de assassinar reputações para obrigar empresários da época a pagar por obras de arte para o recém-fundado, por ele, Museu de Arte de São Paulo. Ou até aviões para a recém-fundada, por ele também, e também precoce no mundo, Força Aérea Brasileira. Um grande precursor das fake news que nos assolam — com um pouco mais de sofisticação.

O livro tem momentos impagáveis. A relação com Getúlio Vargas é um caso à parte. Grande entusiasta do movimento tenentista, Chatô foi parte importante do apoio à Revolução de 1930, mas acabou se desentendendo com o governo Vargas porque entendia que deveria levar o grosso das verbas e que o governo deveria ajudá-lo em seus anseios de exterminar seus adversários. Passado pouco tempo, seus jornais já eram oposição, e sua pena era ácida nos artigos subscritos por si diariamente. “Chatô” é uma leitura deliciosa e indispensável.

Os irmãos Karamabloch

Arnaldo Bloch (Companhia das Letras, 2008)

A biografia da pessoa jurídica Manchete, escrita pelo jornalista Arnaldo Bloch (sobrinho-neto de um dos irmãos do título), narra a saga, com toques de epopeia, da família de gráficos imigrantes. Os irmãos Bloch, herdeiros de uma pequena gráfica, eram três: Arnaldo, Oscar e Adolpho. Digladiaram-se pelo poder, tendo Arnaldo morrido muito cedo e Oscar, o mais velho, perdido a disputa. Adolpho, a partir dos anos 1960, virou o dono da Manchete, para todos os efeitos.

Extremamente excêntrico, ele é o protagonista e também o mais impagável personagem do livro. Sua personalidade era tão benéfica aos negócios, por sua extrema capacidade de articulação — financeira, comercial, política —, quanto maléfica, por suas idiossincrasias, que afetavam muito a família e atrapalharam a profissionalização da empresa.

Do ponto de vista da história da imprensa brasileira, a leitura tem dois pontos altíssimos: entender a concepção do formato de revistas semanais de variedade, que ninguém fez melhor que a editora Manchete até hoje, e entender os leilões de segunda geração das concessões de televisão do final dos anos 1970 ao final dos 1980, com destaque para a atuação de Roberto Marinho para definir quem poderia ter canal aberto. Silvio Santos e os Bloch, sim. Os Civita, da Veja, não. Fica a recomendação da leitura, dessas de gargalhar.

Minha razão de viver

Samuel Wainer (Record, 1988)

O livro começa com Samuel indo, de teco-teco, ao encontro de Getúlio Vargas na fazenda de São Borja em 1949. Então deputado, o ex-presidente sequer tinha frequentado as sessões do parlamento e estava autoexilado no Rio Grande do Sul. A partir da entrevista de Wainer publicada por O Jornal, a campanha “volta, Vargas” emplaca e culmina com a eleição do Getúlio democrático do “Petróleo é nosso!” para tomar posse em 1950. Daí ao suicídio, muita coisa passa por debaixo do Catete, e Wainer funda o seu Última Hora, jornal que marcou época.

O veículo ficou marcado pela defesa da legalidade do Marechal Henrique Lott para garantir a posse de Juscelino Kubitschek, pela defesa do direito de João Goulart assumir em 1961 após a renúncia de Jânio Quadros e pela denúncia do golpe de 1964. Nesse processo, Wainer acabou preso por um período, acusado de ser dono de jornal sem ser brasileiro nato, um crime. Os udenistas garantiam que ele teria nascido na Bessarábia, ainda que documentos oficiais provassem o contrário.

Apesar de ter inovado estética e culturalmente e de ter marcado época, o Última Hora tinha cheiro de ancien régime e não obtinha recursos para se manter após o golpe militar — apesar do grande leitorado que detinha. Sobreviveu mais algum tempo, aos trancos e barrancos, tendo enfim se associado à Folha de S.Paulo no final, o que lhe garantiu alguma sobrevida. Ficam a história e estórias de Samuel, assim como seu legado para imprensa nacional, que ressoa até os dias de hoje.

Notícias do Planalto

Mario Sergio Conti (Companhia das Letras, 1999)

Diretor de redação da revista Veja entre 1991 e 1997, Mario Sergio Conti publicou em 1999, pouco depois de rescindir com a editora Abril, uma obra-bomba que desnuda a relação entre imprensa e poder nos anos agitados da famigerada República das Alagoas. Não só os protagonistas, como o próprio Collor, PC Farias ou Zélia Cardoso de Melo, mas também os figurantes e o outro lado da reportagem, os profissionais de imprensa, têm sua atuação esmiuçada por uma pesquisa robusta e por um sem-número de informações de bastidores obtidas por sua posição privilegiada em um dos principais grupos de comunicação da época (há quem repute a queda de Collor à entrevista-denúncia com Pedro Collor, irmão do presidente, conduzida pelo jornalista Lula Costa Pinto e publicada na Veja).

Os interesses políticos e econômicos da época estão expostos na obra com um grau de detalhe de fazer qualquer daqueles atores corar as bochechas. Se não aumentou seu rol de amigos após publicação do livro, pelo menos Conti pode se orgulhar de ter publicado um livro essencial para explicar um período folclórico e maluco da história nacional. E o índice onomástico é magistral, dos melhores que já vi. Passeando por essas páginas, é muito interessante notar que os nomes do noticiário mudaram pouco em 30 anos. Muito pouco.

Fábio Dutra é jornalista, diretor do Grupo Glamurama e um dos editores da revista Poder.

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