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O editor da revista piauí Rafael Cariello indica cinco livros para entender o que é jornalismo narrativo

No jornalismo clássico, diário, a pressa impera em todas as etapas do processo: produção, circulação e consumo da notícia. O tempo do leitor — assoberbado por suas obrigações cotidianas — é precioso, e quem escreve deve ter a humildade de saber que muito provavelmente o seu texto não será lido até o fim. É preciso ir direto ao ponto. Espera-se que a informação relevante, de interesse público ou simplesmente extraordinária dê as caras logo no primeiro parágrafo: a bolsa de valores teve queda recorde, o Flamengo é campeão, o ex-presidente Bolsonaro foi preso.

Tem sido assim desde os tempos em que o lendário soldado Fidípedes saiu em disparada da cidade de Maratona para dar aos atenienses a notícia da vitória dos gregos sobre os persas. Quarenta e dois quilômetros depois, o mensageiro respirou fundo, disse o que importava (deu o lide, diríamos, no jargão) e caiu morto, exausto.

No jornalismo narrativo (ou literário), o procedimento é outro. A hierarquização explícita do conteúdo e da apresentação mais ou menos telegráfica das informações dá lugar a um texto que depende de um arco narrativo (ou seja, que deve ser lido do princípio ao fim para fazer sentido), com tramas e subtramas — à maneira de um conto ou de um romance, embora comprometido com a verdade e com a precisão factual. É como se Fidípedes, dispondo de tempo e fôlego, pudesse descrever a batalha e saciar as justificáveis curiosidades dos atenienses.

O gênero, que ganhou desde meados do século passado prestígio e sucesso comercial em revistas norte-americanas como Esquire e New Yorker, já possui seus clássicos, capazes de serem recitados por todo estudante de comunicação: “A sangue frio”, de Truman Capote, “Hiroshima”, de John Hersey, ou “Filme”, de Lilian Ross. As obras elencadas a seguir são mais recentes. Servem para destacar aspectos e problemas particulares desse tipo de narrativa (questões éticas, escolha da pauta, uso da primeira pessoa, a expressão de opiniões do repórter, qualidade do texto), embora no fim das contas obedeçam sobretudo a um critério de gosto.

O jornalista e o assassino

Janet Malcolm (Trad. Tomás Rosa Bueno, Companhia das Letras, 2011)

O problema ético. Numa espécie de metarreportagem, Janet Malcolm relata a relação de confiança estabelecida pelo jornalista Joe McGinnis com o médico Jeffrey MacDonald, acusado de matar a mulher grávida e suas duas filhas. MacDonald alega inocência, aceita conceder entrevistas a McGinnis e franqueia ao jornalista acesso às reuniões com seus advogados, durante o processo, sabendo que o profissional da notícia pretende transformar o que ouvir e observar numa obra de não-ficção. Os dois trocam correspondências e estabelecem uma relação de amizade, que dura anos a fio. Já condenado, MacDonald recebe na cadeia notícias sobre o livro afinal publicado por McGinnis, no qual o repórter não faz a esperada defesa de sua inocência. Sentindo-se traído, abusado em sua boa-fé, o assassino processa o jornalista.

Para Malcolm, trata-se de uma história exemplar do tipo de relação ludibriosa que os jornalistas inevitavelmente estabelecem com suas fontes. “Qualquer jornalista que não seja demasiado obtuso ou cheio de si para perceber o que está acontecendo sabe que o que ele faz é moralmente indefensável”, escreve a autora logo na abertura do livro. “Ele é uma espécie de confidente, que se nutre da vaidade, da ignorância e da solidão das pessoas. Tal como a viúva confiante, que acorda um belo dia e descobre que aquele rapaz encantador e todas as suas economias sumiram, o indivíduo que consente em ser tema de um escrito não ficcional aprende — quando o artigo ou livro aparece — a sua própria dura lição.”

Malcolm simplifica, a ponto de tornar quase caricatural, uma relação complexa de uso instrumental mútuo entre fonte e repórter. Quem concede uma entrevista (ou se dispõe a ser personagem de um perfil) tem também os seus interesses nessa troca, e raramente é tão ingênuo quanto ela faz crer. Mas é justo e compreensível que a jornalista coloque sobre os próprios ombros, sobre o seu ofício, a cobrança moral mais dura. No fim das contas ela demonstra que o jornalismo, mesmo quando resulta em trechos imprecisos e simplificadores (o que quase inevitavelmente acontece), pode ser também capaz de apresentar problemas complexos — morais, inclusive — e de fazer pensar. Não é pouco.

A jogada do século

Michael Lewis (Trad. Adriana Ceschin Rieche, BestSeller, 2011)

A pauta. Todo jornalista sabe identificar uma pauta, ou seja, um acontecimento ou declaração dignos de ganharem espaço no jornal, site, rádio ou tevê em que trabalha. Grosso modo, elas vêm em dois tipos: algo que, embora pouco surpreendente, tenha inequívoco interesse público — as taxas de inflação e desemprego, a cada mês — ou, alternativamente, o evento extraordinário, que subverte a ordem quotidiana das coisas. Um líder político que critica o próprio partido, uma crise financeira sem precedentes, o craque que perde o pênalti decisivo.

No caso do jornalismo literário, a pauta exige atenção a um outro aspecto da notícia. Além dos critérios utilizados cotidianamente na profissão, o repórter precisa ser capaz de identificar um arco narrativo, uma série de acontecimentos que se relacionem organicamente, com início, meio e fim. A dificuldade é essa: diferentemente do autor de ficção, ele não cria a história; ele deve identificar, na confusão dos fatos do mundo, algo que se assemelhe a uma história. Michael Lewis faz isso em “A jogada do século” (adaptado para o cinema como “A grande aposta”). Os fatos econômicos e políticos relacionados à crise financeira de 2008 já haviam sido estampados pela imprensa em toda parte quando ele afinal descobriu um grupo de personagens capazes de apresentar aquele acontecimento de forma narrativa, com uma estrutura semelhante à de um romance: os poucos investidores que haviam sido capazes de apostar contra a opinião quase unânime do mercado financeiro antes da crise e, assim, lucrar com ela.

Queda livre — Ensaios de risco

Otavio Frias Filho (Companhia das Letras, 2003)

Primeira pessoa. O uso da narrativa em primeira pessoa é comumente banido dos relatos jornalísticos tradicionais. Afinal, o que interessa é o fato, a notícia, que o repórter deve descobrir e descrever tão objetivamente quanto possível. Seria intolerável se Fidípedes, ao chegar a Atenas, começasse a narrar suas agruras de soldado, ou sua façanha de primeiro maratonista, antes de informar quem havia vencido a batalha.

Essa regra não vale — ou não vale sempre — para o jornalismo narrativo. Às vezes a experiência do autor importa — e então cabe o relato em primeira pessoa. Em “Queda livre”, Otavio Frias Filho escreve sete reportagens sobre experiências-limite a que se submeteu: um salto de paraquedas, o consumo da ayahuasca, uma viagem de submarino, a experiência como ator, percorrer o caminho de Santiago, frequentar casas de swing e, finalmente, encarar a morte e o suicídio como voluntário do CVV, o Centro de Valorização da Vida. Como o último item já revela, as experiências de Frias Filho serviram não apenas para testar os seus próprios limites físicos e psicológicos, mas como pretexto para explorar temas e sentimentos definidores de qualquer subjetividade (o medo, a alucinação, o prazer, a consciência da finitude etc.). Para que o experimento funcionasse, ele teve que lançar mão de uma dose incomum de franqueza e honestidade intelectual na descrição das próprias reações e pensamentos. É um exercício de equilíbrio: se não fosse capaz de tratar a si mesmo e a suas experiências com a mesma objetividade e rigor com que tratava outras pessoas e fatos — ou pelo menos tentar fazer isso —, a narração em primeira pessoa perderia força e cumpriria de maneira manca o seu papel no relato jornalístico.

Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo

David Foster Wallace (Trad. Daniel Galera e Daniel Pellizzari, Companhia das Letras, 2012)

Opinião. Não há apenas reportagens nesse livro, e mesmo as reportagens que há são incomuns. Talvez a mais famosa delas seja “Pense na lagosta”. David Foster Wallace foi convidado por uma revista de gastronomia a visitar a tradicional Feira de Lagostas do Maine e relatar suas impressões. É isso que ele faz, mas de uma maneira que talvez não fosse exatamente aquilo que os editores tinham em mente quando encomendaram o trabalho. Ouvi falar de pessoas que desistiram de consumir carne animal depois da leitura desse texto, em que o escritor norte-americano expõe sua opinião sobre o sofrimento dos crustáceos ao serem cozidos ainda vivos.

Nos jornais, artigos de opinião e reportagens costumam estar claramente demarcados. Ou se faz uma coisa, ou se faz outra. Num longo texto narrativo de não-ficção, os dois registros muitas vezes se confundem. Nos melhores casos, como nesse artigo, o que o autor pensa sobre determinado assunto estará sujeito ao mesmo tipo de escrutínio dedicado às opiniões de terceiros. Pode-se dizer que dar uma opinião ou escrever em primeira pessoa, num texto de jornalismo narrativo, são opções retóricas similares, cujo melhor aproveitamento depende do mesmo tipo de honestidade.

A estratégia que Foster Wallace usa para se fazer ainda mais convincente é a de ir apresentando as dúvidas que enfrenta sobre as próprias ideias, ainda em formação — além de propor, constantemente, que o leitor faça o mesmo.

Tempos instáveis

Org. Fernando de Barros e Silva (Companhia das Letras, 2016)

Qualidade do texto. Cito o livro que reúne histórias publicadas na revista piauí para poder recomendar uma leitura em particular: “A baleia branca de Rodolfo Landim”, escrita por Luiz Maklouf de Carvalho, que morreu em maio de 2020. A reportagem de 2011 narra a obsessão do engenheiro Rodolfo Landim por ver reconhecido, inclusive financeiramente, seu papel na construção do império empresarial de Eike Batista — um império que ruiria poucos anos depois. Maklouf consegue reunir histórias e informações suficientes para fazer de Eike e de Landim personagens que, embora donos de uma ambição às vezes patética, prendem o leitor em seus embates até a última linha. Uma narrativa sobre um episódio do mundo empresarial que se lê como uma aventura trágica. Foi depois de conhecê-la que passei a querer colaborar com a piauí e, quem sabe, poder fazer algo parecido.

Rafael Cariello é jornalista, formado em história pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Trabalhou na Folha de S.Paulo entre 2001 e 2012, onde foi repórter de política e de cultura, correspondente em Nova York e editorialista. Desde 2012, escreve e edita textos para a revista piauí.

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