O jornalista e consultor João Villaverde indica cinco produções de acadêmicos laureados pelo prêmio sueco

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Toda lista nasce incompleta. Essa que virá a seguir não foge à regra. Ela também não é definitiva – eu mesmo vou me arrepender dentro de alguns minutos depois de entregar essa lista ao Nexo por deixar de fora Sir Arthur Lewis e a dupla Esther Duflo e Abhijit Banerjee. Há economistas absolutamente fenomenais, como Paul Samuelson, que estão de fora da minha lista pelo simples fato de que seria impossível escolher um único livro seu: a obra completa têm rigorosamente o mesmo alto nível. Outros ficaram de fora pelo simples fato de eu não ter tido a chance de conhecer suas obras, mas apenas fontes secundárias ou relatos biográficos. Ah, a lista também não traz necessariamente os títulos mais famosos de seus autores.

Incompleta, não-definitiva e meio indie... que lista é essa, afinal? Bem, ela é apenas a minha lista de favoritos neste campo do qual sou apaixonado. Resultado do que li e do que estudei. Me diverti revisitando os livros e espero que ela seja tão agradável de ler como foi de escrever.

Investment in Human Capital: The Role of Education and Research

Theodore Schultz (The Free Press, 1971)

Desde sempre, a economia se preocupa com a formação de capital, sua taxação, a forma ótima de organização do Estado, o desemprego, os fatores condicionantes dos preços, as taxas de juros, a moeda. Ganhador do Nobel em 1979, foi Schultz quem, muito antes de ser modinha, chamou a atenção para o que ele (e Gary Becker) chamaram de “capital humano”. A escola, o ensino superior e o ensino técnico e profissionalizante aumentam nosso capital: ficamos mais produtivos. Em agregado, uma sociedade com pessoas mais produtivas é uma sociedade mais desenvolvida. Quando Schultz começou a falar em educação nesses termos, nos anos 1940, ninguém discutia o assunto. Mesmo nas duas décadas seguintes, enquanto ele aprimorava seu trabalho e chegava a prestigiosa função de chefe do departamento econômico da Universidade de Chicago, o tema ainda não “colava” entre os economistas.

Neste livro, escrito de forma direta ao ponto, Schultz consolida dados, fatos e teoria comprovando que melhores níveis de educação aumentam o bem-estar e a produtividade individual e coletiva. Sem crescimento do capital humano, os trabalhadores estariam condenados a tarefas árduas e basicamente manuais – e a riqueza ficaria ainda mais concentrada com os poucos detentores de imóveis. Para fechar, Schultz era um leitor voraz de literatura: que economista (ainda hoje!) seria capaz de amarram seu tema de pesquisa com William Faulkner?

Instituições, mudança institucional e desempenho econômico

Douglass C. North (Trad. Alexandre Morales, Três Estrelas, 2018)

Instituições importam. Mas a história, e a trajetória histórica das nações também. Neste curto, porém extraordinário livro, Douglass North, Nobel de 1993, traz estudos de casos (do teclado mais popular, modelo QWERTY, ao constitucionalismo ocidental) e amplo substrato literário para embasar seus achados teóricos. “O que acontece quando se impõe um conjunto de regras comum a duas sociedades diversas?” é uma das várias perguntas que North responde na obra originalmente publicada em 1990. Nesse sentido, ele ensina que instituições não podem ser tocadas, sentidas ou mensuradas, porque são constructos sociais. Mas elas cumprem um papel fundamental: são o fator determinante subjacente do desempenho das economias em longo prazo.

North também ensinou neste livro que é possível ser economista e saber escrever bem. Qualquer terráqueo que já tenha se aventurado por um artigo de um economista médio sabe do que estou falando. São raros os estudiosos da área que sabem comunicar adequadamente suas ideias, atingindo um público amplo e difuso (como Keynes sempre ensinou: é preciso sempre convencer as pessoas!). North é um dos que sabiam escrever realmente muito bem.

Nudge: Como tomar melhores decisões sobre saúde, dinheiro e felicidade

Richard Thaler e Cass Sunstein (Trad. Ângelo Lessa, Objetiva, 2019)

Em “Nudge”, o leitor encontra casos práticos de como pequenas alterações – institucionais, processuais, burocráticas – geraram alterações profundas nos cursos da história. A partir do desenho de incentivos que permitem dar um empurrão corretivo, a economia comportamental busca reduzir desperdício e otimizar rotinas e procedimentos. Vale principalmente para a administração pública, mas também para a vida cotidiana das pessoas. Foi um livro especialmente influente durante os anos Barack Obama nos EUA e ainda estava na moda quando estudei em Columbia (antes de Thaler ganhar o Nobel, em 2017). “Nudge” é uma verdadeira “joia”, disse outro Nobel de Economia, o psicólogo (pois é) Daniel Kahneman, cujo “Rápido e devagar” bem poderia estar nesta lista aqui...

Narrative Economics: How Stories Go Viral and Drive Major Economic Events

Robert J. Shiller (Princeton University Press, 2019)

Ter uma boa ideia basta? Bem, se você só dividi-la com seus amigos, não. Eu sei que em tempos de bolhas sociais, presidentes sectários e pregação para convertidos, a própria sugestão de buscar gente que pensa diferente e dialogar parece tão antiquada quanto telefone fixo. Mas no campo da política econômica, em países democráticos, essa ainda é a regra, felizmente. Nobel de 2013, Shiller trata de como são formadas as narrativas e por que elas importam, algo que sabemos desde Aristóteles. “Nós não sonhamos com equações e geometria. Nós sonhamos com histórias”, diz Shiller, que neste livro tão rico ainda envereda por neurociência, mercado financeiro e pesquisas com amplas bases de dados.

O preço da desigualdade

Joseph Stiglitz (Bertrand, 2012)

A pequena cidade de Gary, onde nasceu o Nobel de 2001, só existe porque foi fundada por uma megacompanhia privada do começo do século passado, a United States Steel Corporation. Quando perdeu interesse na produção local, a US Steel partiu e Gary ficou abandonada, com desemprego, pobreza, criminalidade e baixa autoestima generalizada. Stiglitz estudou economia tendo a infância sempre em mente: o mercado simplesmente livre não pode ser a resposta automática para tudo, como se fosse um dogma. Neste livro, Stiglitz aprofunda seus estudos sobre a desigualdade (antes do tema ganhar grande dimensão, dois anos mais tarde, com Thomas Piketty). A imbricada relação entre as elites financeiras e o Estado gera incentivos perversos, que concentram ainda mais a renda – menos impostos para os mais ricos (pense em Trump pagando apenas 750 dólares de imposto de renda), caríssimo e complexo acesso a hospitais, educação desigual, intolerantes distorções étnicas. Stiglitz aponta para os riscos de turbulência política que essa desigualdade crescente em países ricos capitalistas poderia trazer (vide Brexit, Trump, Le Pen). E defende um modelo distinto, de redistribuição e novos incentivos em políticas públicas. Se você souber ler em inglês, a edição original está bem mais barata do que a tradução para o português, da lusitana Bertrand.

João Villaverde é jornalista e consultor. É autor do livro-reportagem “Perigosas pedaladas” (Geração Editorial), sobre o impeachment. Foi pesquisador visitante na Universidade de Columbia, em Nova York. É mestre e doutorando em Administração Pública e Governo na FGV-SP (Fundação Getulio Vargas).

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