Foto: Carla Araraki/Divulgação

O repórter do UOL Esporte indica cinco livros escritos a partir de notícias publicadas na imprensa

Pode ser que eu tenha me tornado um viciado em notícias. Tudo começou há exatos dez anos, quando eu resolvi levar a sério a ideia de me tornar um jornalista e ouvi de uma mestra da profissão que todo mundo que se arriscasse na área deveria ler não apenas um, mas os três principais jornais do país. O que era para ser apenas parte de uma obrigação profissional se tornou regra inescapável do meu cotidiano.

Desde então, tem sido tão difícil ficar longe do noticiário quanto seria ficar sem tomar banho. As notícias são onipresentes e invadem o meu dia em forma de textos, vídeos, áudios e notificações no celular. Elas chegam, produzem o efeito que quiserem produzir, e vão embora dando lugar à próxima notícia. E, em tempos turbulentos e distópicos, vêm embaladas em descargas de ansiedade, angústia e indignação.

Mas minha dependência de notícias pode estar pintando um quadro muito sombrio sobre elas. Às vezes, uma notícia pode ser o primeiro passo de uma jornada inimaginável. Uma jornada que pode conduzir a um universo novo e me deixar, por algumas horas, um pouco longe do noticiário.

Os livros a seguir são histórias que nasceram quando alguém olhou para um fato que apareceu na imprensa e decidiu investigar um pouco mais. São histórias surpreendentes, emocionantes, às vezes revoltantes, que nos contam sobre a natureza humana e sobre o que está por trás das aparências. E por mais incríveis que pareçam, são todas histórias reais.

O último abraço

Vitor Hugo Brandalise (Record, 2017)

“Idoso mata a mulher em asilo e tenta se suicidar”. Esse foi o título de uma notícia de sete parágrafos na Folha de S.Paulo, em 30 de setembro de 2014. Na zona leste da cidade, o aposentado Nelson Golla entrou com uma bomba amarrada ao corpo no asilo em que a esposa Neusa estava internada. A bomba explodiu: Neusa morreu, Nelson não. A partir desse acontecimento insólito, o repórter Vitor Hugo Brandalise reconstituiu a história de amor e desespero do casal septuagenário, um “Romeu e Julieta” da terceira idade. E contou como Nelson passou a ser acusado pelo homicídio da mulher com quem foi casado por 54 anos.

Garotas mortas

Selva Almada (Trad. Sérgio Molina, Todavia, 2018)

Em 26 de novembro de 1986, Selva Almada tinha 13 anos e observava o pai fazendo um churrasco quando ouviu no rádio a notícia da morte de Andrea Danne. A adolescente havia sido assassinada em sua própria cama, na cidade de San José, apenas 20 km distante de onde Selva vivia. “A notícia da garota morta me chegou como uma revelação”, conta a escritora argentina. “Minha casa, a casa de qualquer adolescente, não era o lugar mais seguro do mundo. Você podia ser morta dentro da sua própria casa.”

Nos anos seguintes, a escritora seguiu acompanhando pela imprensa a morte de mulheres no interior da Argentina, todas vítimas do machismo e da misoginia persistentes. “Garotas mortas” é o relato da investigação particular que Selva fez sobre os motivos e as consequências do assassinato de três dessas mulheres, a cuja memória a autora presta sua homenagem.

Ricardo e Vânia

Chico Felitti (Todavia, 2019)

Se você estava na internet em outubro de 2017, provavelmente foi impactado pela história de Ricardo Correa da Silva, uma das reportagens que mais viralizaram em anos recentes no Brasil. Ricardo era um artista de rua conhecido como “Fofão da Augusta” — um apelido que odiava — por causa de diversas injeções de silicone que remodelaram seu rosto. Ele era uma espécie de lenda urbana, comentada em fóruns de redes sociais, até que o jornalista Chico Felitti resolveu conhecê-lo melhor.

Depois que mais de um milhão de pessoas acessaram a reportagem, publicada pelo site Buzzfeed Brasil, Chico se dedicou a investigar uma parte ainda mais interessante da biografia de Ricardo: seu relacionamento com a maquiadora Vânia, o grande amor de sua vida. “Ricardo e Vânia” é um livro desses para ler em um fim de semana e para lembrar por muito tempo.

Relato de um náufrago

Gabriel García Márquez (Trad. Remy Gorga Filho, Record, 2017)

A imprensa colombiana dedicou dezenas de páginas à história impressionante do marinheiro Luis Alejandro Velasco, que sobreviveu após ser lançado ao mar durante uma tempestade e passar dez dias à deriva. Em 1955, o país vivia sob o comando de uma ditadura militar, que logo alçou o sobrevivente à condição de herói nacional, promovendo entrevistas e discursos no rádio e na televisão. Quando a notícia ficou velha, Velasco bateu às portas da redação de “El Espectador” anunciando que gostaria de contar a verdadeira história de sua queda no mar.

O jornal incumbiu o jovem repórter Gabriel García Márquez para entrevistá-lo. Nos dias que se seguiram, o jornalista descobriu que a história de Velasco era bem diferente daquela que as autoridades colombianas vinham promovendo. O acidente que avariou o destróier Caldas, de cuja tripulação Velasco fazia parte, não havia sido causado por uma tempestade e, sim, pelo excesso de carga, que se soltou e arrastou ao mar oito marinheiros. E mais: tratava-se de carga contrabandeada. A denúncia foi publicada no jornal e anos depois viraria o livro “Relato de um náufrago”, do jornalista que depois ficaria mais conhecido por seus romances.

A luta

Norman Mailer (Trad. Cláudio Weber Abramo, Companhia das Letras, 2011)

A luta entre Muhammad Ali e George Foreman, no Zaire, em 1974, pode ser considerada o maior evento esportivo do século 20. Norman Mailer foi um dos repórteres escalados para cobrir as últimas semanas de treinamento e o combate em si. O resultado é uma reportagem profunda, e muito bem-humorada, sobre a personalidade, os gestos e os dramas desses dois homens, tão diferentes entre si, mas em alguns aspectos muito semelhantes.

O próprio Mailer não se furta a relatar como sua presença ao lado dos atletas afeta a reportagem. Um dos capítulos mais memoráveis da história da crônica esportiva é a descrição de uma corrida matinal entre Ali e Mailer, o jornalista de ressaca após uma noite de bebedeira no bar do hotel. O livro é tão bom que já ouvi que existem dois tipos de pessoa que vão amar o conteúdo de “A luta”: aquelas que têm algum interesse por esportes de combate e aquelas que não têm.

Adriano Wilkson é repórter do UOL Esporte e autor de “A grande luta” (Todavia).

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