Foto: Nana Moraes/Divulgação

O escritor carioca indica cinco livros de poesia que fazem refletir sobre política

A poesia é fundamental para dar voz àqueles que são silenciados e torná-los importantes agentes políticos não só da história coletiva, mas também de suas próprias histórias individuais. Essa transformação propicia o desenvolvimento de uma visão mais crítica e engajada sobre o mundo, em todos os sentidos. Apoiado nesse pensamento, selecionei cinco livros de poesia que levam o leitor a refletir sobre a política que o circunda, dentro e fora do país.

A rosa do povo

Carlos Drummond de Andrade (Companhia das Letras, 2012)

O compromisso com a poesia da verdade transborda neste livro de Carlos Drummond de Andrade, publicado em 1945. O poeta mineiro, que não era alheio às questões ideológicas e políticas, alinhavava seus versos com as cicatrizes de seu tempo. Destaco o poema “A flor e a náusea”, no qual o autor expõe suas dores e agonias, mas, ao descrever o nascimento de uma flor no meio da rua, faz transcender sua percepção sobre o mundo. De certa forma, a flor o encoraja, porque ela é capaz de romper o que parece imutável, como as mazelas humanas e o asfalto.

Poema sujo

Ferreira Gullar (Companhia das Letras, 2016)

Esta obra foi escrita no exílio de Ferreira Gullar em Buenos Aires, em 1975, após anos passados em Moscou, Santiago e Lima. Nela, o poeta maranhense eleva suas memórias e a brevidade do tempo aos planos metafísico e filosófico. Por outro lado, ele não esconde também o medo de viver recluso em outro país, por conta da ditadura militar que imperava no Brasil desde o golpe de 1964. Gullar temia ser preso em solo argentino, porque agentes da ditadura brasileira tinham autorização para capturar exilados políticos em outros países. “Decidi, então, escrever um poema que fosse meu testemunho final, antes que me calassem para sempre”, explicou em vídeo gravado à Companhia das Letras, em 2016, por ocasião dos 40 anos da publicação original do livro.

Poemas

Wisława Szymborska (Trad. Regina Przybycien, Companhia das Letras, 2011)

A poeta polonesa vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 1996 inscreve neste livro suas percepções filosóficas e políticas. No poema “Filhos da época”, Szymborska defende que “versos apolíticos também são políticos” e que “não precisa nem mesmo ser gente/ para ter significado político” no mundo. Já em “Ocaso do século”, a escritora lamenta que o século 20 era para ter sido melhor do que os demais, mas que “agora já não tem mais jeito”, porque erros e desgraças do passado ainda persistem em nosso presente.

Que país é este? e outros poemas

Affonso Romano de Sant’Anna (Rocco, 2010)

A pergunta que dá título à obra e ao poema homônimo do escritor mineiro Affonso Romano de Sant'Anna ainda está sem resposta, porque os problemas que marcavam a realidade do Brasil na década de 1980 — época em que o texto foi originalmente publicado, na primeira página do Jornal do Brasil — permanecem praticamente inalterados: a caça aos índios e operários, a queimada de árvores, o estupro de mulheres e a ameaça à liberdade de expressão. “Vivo no século vinte,/ sigo para o vinte e um/ ainda preso ao dezenove/ como um tonto guarani/ e aldeado vacum”.

Os invisíveis: tragédias brasileiras

Carlos Nejar (Bertrand Brasil, 2019)

O experiente poeta gaúcho Carlos Nejar faz uma radiografia dos recentes desastres que ocorreram no Brasil. Os rompimentos de barragens em Mariana e Brumadinho, localizadas em Minas Gerais, o incêndio do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, e o desmatamento da Amazônia integram os cenários político e social de seus versos. Nejar dá voz aos invisíveis, desalojados, desaparecidos e seus familiares que sobrevivem como espectros.

Carlos Cardoso é poeta e engenheiro carioca. Seu livro mais recente, “Melancolia” (Record, 2019), foi eleito o melhor na categoria poesia pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes) em 2019. Também é autor de “Sol descalço” (2004), “Dedos finos e mãos transparentes” (2005) e “Na pureza do sacrilégio” (2017), que serão republicados pela editora Record em breve.

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