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A escritora Vilma Arêas, ganhadora do prêmio Jabuti 2019 na categoria conto, indica cinco livros e antologias para quem quer conhecer mais a produção contemporânea de prosa e poesia brasileiras

A escolha baseou-se no desejo de informar o leitor. Quanto à poesia, destaquei duas breves antologias. Quanto à ficção, escolhi três livros recentes publicados a partir de 2018. Embora muito diferentes, uma laçada fina os une à nossa condição histórica. Os livros foram pouco comentados e a ideia é a de expor o vigor e variação dessa prosa.

Ciranda de poesia

(Vários volumes, Eduerj)

Esta coleção reúne pares de poetas contemporâneos comentando-se uns aos outros, o que deixa métodos e decisões formais ao alcance do leitor. Assim encontramos Cláudia Roquette-Pinto lida por Paulo Henriques Britto, Leonardo Fróes lido por Angela Melim, Sebastião Uchoa Leite lido por Franklin Alves Dassie etc.

Vinte e cinco poemas

Francisco Alvim e Mariano Marovatto (Luna Parque, 2015)

Este é um dos títulos de uma antologia da Luna Parque Edições. São volumes pequenos, cada um com poemas reunidos de dois poetas. A própria escolha dos pares pelos coordenadores convida o leitor à reflexão. Além de Francisco Alvim e Mariano Marovatto, encontramos Lu Menezes e Augusto Massi, Alice Sant’Anna e Zuca Sardan etc..

A invenção dos subúrbios

Daniel Francoy (Edições Jabuticaba, 2018)

O título vem de “Dom Casmurro”, de Machado de Assis (“Vamos à história dos subúrbios”). Estreante em Portugal com livros de poesia, Francoy nos entrega um texto em prosa taciturno, mas muito atento, que desafia interpretações a partir do gênero. Ficção ou crônica? Ou quem sabe diário? Alguns, com certa tendência à burocracia, ficaram em dúvida.

Para mim trata-se de ficção arguta, tecida por muitos fios, como é comum acontecer, disfarçando a que veio, embebida na poesia que a atravessa. “Branco dentro do branco”. O narrador perambula por “ruas destruídas” durante um ano, composto anarquicamente dos cacos de cinco outros, de 2013 a 2017. O livro começa em 1° de janeiro de 2017 e se encerra em 30 de dezembro de 2015.

Acho que o leitor decifrará a história vivida ou inventada por esse “turista do tédio”, num tempo quebrado que anda para tr��s, obedecendo ao ritmo do país.

O último trem da Cantareira

Antonio Armoni Prado (Editora 34, 2019)

De novo um livro que despertou dúvidas. Ficção ou autobiografia? Entretanto, na excelente orelha assinada por Alberto Martins, a dúvida se dissipa: “misto de ficção e memória”, pois meninice e vida adulta se alimentam do mesmo núcleo subjetivo, “que se mantém coeso graças a uma fidelidade profunda às experiências e aos afetos vividos, que martelam o texto com a força das obsessões e o dotam de uma carga poética muito particular”.

O estopim que atira o narrador à viagem ao passado é a homenagem recebida como acadêmico, o que o acabrunha, ao se lembrar da meninice em brincadeiras de rua com os meninos pobres do antigo Tremembé. O limite desta fase é o suicídio de Getúlio Vargas em 1954, seguindo-se a mocidade universitária, com a experiência do golpe militar de 1964 e seus desdobramentos, que alcançam o jovem militante. O resto é melancolia.

O narrador vasculha esses vários tempos a partir de seus detalhes materiais: ruas, esquinas, brincadeiras, detenção, o escândalo da ditadura. Mas cada fase, pessoa ou sentimento não estão totalmente ao alcance, apenas deixam a marca de uma história invisível que lateja desde a infância com a desigualdade social, sublinhada pela violência, resolvendo-se finalmente na despedida.

Sombrio ermo turvo

Veronica Stigger (Todavia, 2019)

De saída temos de prestar atenção e escutar, porque “daqui dá para ouvir o silêncio”, conforme aconselha um personagem de “A praia”, uma das ficções que compõem este livro. Então me lembrei imediatamente dos “lindos e invisíveis versos” de “Marina, a intangível” de Murilo Rubião. Associo ambos, com liberdade, às assemblages de Farnese de Andrade, sua morbidez, as bonecas mortas — ou vivas? — enfiadas em líquidos transparentes dentro de vasos também transparentes.

O texto é limpo, muito inteligente, sem deixar de ser meio invisível, com uma disposição imensa para a alegria, o riso solto das crianças — apesar das sombras turvas, da solidão vazia do título, do nosso entorno. Sendo fragmentado, deseja imitar a estrutura da Quinta Sinfonia de Beethoven, seus cinco movimentos introduzindo as cinco partes do livro. Não importa que os andamentos estejam alterados, pois as miniaturas, a ironia, a vivacidade, para o bem e para o mal, associados pelos críticos a certa obra de Beethoven estejam também presentes, por mais difícil que seja entender tal paralelo. Será ironia? Remeto o leitor a “O livro”, em que a narradora (Veronica Stigger?) faz uma palestra sobre Veronica Stigger, que “continuava desaparecida”.

O livro se fecha como um anel e no último fragmento (“O fim”) ouvimos soar inaudivelmente “as notas que principiam uma sinfonia só possível de ser tocada às margens escuras e ardentes do Inferno”.

Vilma Arêas é professora de literatura brasileira na Unicamp e escritora. É autora de "Um beijo por mês" (Luna Parque, 2018), eleito melhor livro de contos no Prêmio Jabuti 2019, "Vento Sul" (Companhia das Letras, 2011), "Aos trancos e relâmpagos" (Scipione, 1988), entre outros.

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