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Curadora do Prêmio Oceanos, um dos mais importantes da literatura lusófona, Selma Caetano recomenda cinco títulos para conhecer a produção literária em língua portuguesa dos países africanos

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Conhecer as literaturas africanas de língua portuguesa — no plural, porque a expressão cultural de cada país é singular, embora, muitas vezes, sejam tratadas na homogeneidade —, nos dá ideia da diversidade do continente. É importante lembrar que a luta pela independência dos países africanos foi também uma luta de resgate dessa diversidade.

Sem entrar na pequenez do governo atual, que tenta enfraquecer o caráter multirracial de nossa sociedade, a maioria das políticas culturais do Brasil, de todos os tempos, minimizam a presença do negro e da África na cultura brasileira, quando esta é inseparável da construção e da dinamização de nossa própria identidade.

Lograr uma relação de cinco livros que dê conta de demonstrar essa diversidade não é fácil. Vale tentar, pois é fundamental para o Brasil conhecer e se aproximar da produção literária dos países africanos que, se literariamente muito se inspiraram no Brasil, hoje podem iluminar com suas histórias e trajetórias regionais que ganham universalidade e que buscam a utopia de transformar a sociedade e os homens.

Luuanda

Luandino Vieira (Companhia das Letras, 2006)

A obra do luso-angolano Luandino Vieira foi quase toda escrita na prisão durante mais de uma década, onde cumpriu pena acusado de envolvimento com o Movimento Popular de Libertação de Angola. Entre os livros escritos no cárcere está “Luuanda”, cuja gestação da primeira edição, de 1963, parece inverossímil. Para despistar a polícia política, o livro foi impresso na tipografia do jornal ABC, de Angola, e inscrito ao concurso literário da Sociedade Portuguesa de Escritores, do qual foi vencedor, acarretando o fechamento da entidade e a prisão dos três componentes do júri. Depois disso, o livro tornou-se muito procurado e uma edição à revelia do autor foi feita por dois agentes da Polícia Internacional e de Defesa do Estado de Portugal, e apresentada como sendo uma edição “brasileira”, de uma editora fantasma de Belo Horizonte.

Nas três narrativas que compõem o livro, deve-se destacar a linguagem que utiliza o português falado pelo povo de Luanda e expressões do kimbundo para, com alto nível literário, construir a vida pobre dos bairros periféricos de Luanda, os musseques, e dar voz às pessoas comuns. O primeiro conto, a incômoda estória da “Vavó Xixi e seu neto Zeca Santos”, poderia ter como cenário as favelas ou periferias das cidades brasileiras onde, apesar da ausência de qualquer vislumbre de oportunidade, o povo teima em sonhar. O passar dos anos não tirou a atualidade da obra desse angolano, nascido em Portugal, por isso, dele, qualquer leitura é oportuna. A edição brasileira de “Luuanda”, esgotada, pode ser encontrada em sebos.

Instruções para uso posterior ao naufrágio

José Luiz Tavares (Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2019)

A relevância de José Luiz Tavares para a poesia cabo-verdiana é imensa. Trabalho de 15 anos, a editora abysmo lançou em 2019 sua tradução de 65 sonetos de Camões para o crioulo cabo-verdiano, numa edição bilíngue intitulada Ku ki vos/Com que voz. “Nalguns passos terei traído miseravelmente o grande Camões, mas a língua cabo-verdiana terá ganho um incontornável monumento literário, fecundo solo onde amanhã poderão enraizar-se os poetas cultos e eruditos, e todos aqueles que apostam num porvir de poética resplandecência para a nossa sagrada e maltratada língua materna”, disse o autor no lançamento da obra.

Nascido em Tarrafal, Ilha de Santiago, Cabo Verde, José Luiz é um dos grandes nomes da moderna poesia cabo-verdiana e já foi traduzido para o inglês, espanhol, francês, alemão, italiano, letão, finlandês, russo, mandarim, neerlandês e galês. A editora brasileira Escrituras dele publicou “Contrabando de cinzas” e “Lisbon Blues”, este último reunindo dois de seus títulos originais (ambos os livros estão esgotados e disponíveis em sebo). Destaco seu último livro, “Instruções para uso posterior ao naufrágio”, com poemas que prenunciam que o verso mente, pois, entre o ver e o verso, há o intervalo que obscurece a realidade. “Busca nos versos a antiga morada?/ Recorda-te que a vida é só pancadas,/ por isso foge tu de tais maçadas,/ recolhe as velas já enfumadas. (...)”

Um rio preso nas mãos

Ana Paula Tavares (Kapulana, 2019)

As 38 crônicas que compõem “Um rio preso nas mãos” ressaltam o conhecimento da autora sobre a diversidade e a política de Angola, e os problemas não resolvidos no pós-independência. Mitologia, literatura, língua, tradição oral, política, resistência e o povo de Angola, sobretudo as mulheres, são alguns dos temas que a angolana Ana Paula visita com muita lucidez e poesia.

“Desafiar o silêncio” reivindica o direito à escola para as mulheres — tanto do campo quanto das cidades: “Os passados mais antigos combinaram-se com os passados mais recentes para tornar a escola uma coisa de homens e mesmo para estes só para alguns”, escreve. “As minhas pedras” fala do aprendizado do esforço de existir num tempo em que “a desordem e a ausência instituiu nas nossas vidas outros sentidos que não os que rotinas mais recentes haviam criado”. “Aprender a falar a língua de Angola” trata dos contatos e das misturas a modificar a língua que “se fez luz e arte e ocupou geografias afastadas que o trabalho escravo cimentou”. Textos poéticos ao tempo dos sonhos e das lutas revolucionárias, mas melancólicos no balanço final, quando, depois de tantos anos de guerras e sangue derramado, a utopia da liberdade foi corrompida por políticas e economias neocoloniais.

Sua Excelência, de corpo presente

Pepetela (Kapulana, 2020)

“Sua excelência, de corpo presente”, finalista do Oceanos 2019, é um livro singular que diz respeito à literatura brasileira, especificamente a “Memórias póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis. Com fina ironia, o angolano Pepetela reconstrói a história política de muitos países africanos e do Brasil, através da voz de um defunto, um militar incompetente que, de artimanha em artimanha, chega à presidência do país.

Em seu próprio velório, o protagonista/defunto/presidente, sem nome, repassa os meandros corruptos do poder, o nepotismo familiar, as traições, o desastre que foi sua gestão pública etc., numa alegoria que muito faz lembrar a tragicômica política brasileira atual.

Pepetela nasceu em Benguela, Angola, e lutou como membro do Movimento Popular de Libertação de Angola nos anos 1960 e 1970. Depois da independência do país, tornou-se vice ministro da Educação. Tem mais de 20 livros publicados e, de sua obra, destaco ainda Mayombe, de 1980, sobre a luta armada da qual fez parte.

Vácuos

Mbate Pedro (Cepe, 2018)

Mbate Pedro nasceu e vive em Maputo, Moçambique. Médico, poeta e editor, dedica-se também ao fomento da literatura em língua portuguesa, em especial a moçambicana e a brasileira.

“Vácuos”, seu quarto livro de poesia, finalista do Oceanos 2018, é estruturado em sete poemas permeados pela angústia diante da morte dos seres e das coisas, e pelo amor. “Há/ sempre no lugar do morto/ um outro corpo novinho/ a reluzir.../ encravado numa morte antiquíssima/ mais antiga que o dilúvio/ e entretanto/ prestes a acender uma vela/ para que o rosto não se afogue/ na caligrafia do medo/ (haverá maior naufrágio?)”

Selma Caetano é gestora cultural e diretora da Oceanos Cultura, que tem como missão criar e incentivar ações culturais transnacionais para as literaturas e artes em língua portuguesa. Desde 2007, é curadora do Oceanos — Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa. Publicou “O livro das palavras – conversas com escritores”, em parceria com José Castello, Editora Leya, 2013, e “Graciliano Ramos - Biografia Ilustrada”, Editora Record, 2014.

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