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O escritor Ricardo Terto indica cinco obras com protagonistas cuja excentricidade provoca reflexões sobre o que é considerado ‘normal’

Neste momento, em que se voltou a querer impor o que é normal, resolvi listar cinco livros que usam a excentricidade de seus personagens para refletir sobre a nossa sociedade. Estranhos, paranóicos, bizarros e até fantásticos, os protagonistas destas narrativas, através de comportamentos deslocados ou absurdos, estão sobretudo nos fazendo pensar sobre nossas relações com o trabalho e com a sociedade. Provocam questionamentos filosóficos e existenciais comuns ao nosso tempo, para nos fazer concluir que, assim como eles, somos tão estranhos quanto reais.

Festa no covil

Juan Pablo Villalobos (Trad. Andreia Moroni, Companhia das Letras, 2012)

Extraordinário romance de estreia desse escritor mexicano, o livro nos apresenta o universo lúdico e cruel de uma criança que vive isolada da sociedade, tendo contato apenas com parceiros de trabalho do seu pai, um narcotraficante. A linguagem do livro demonstra, com um senso de humor incrível e algumas vezes perturbador, o ambiente exótico construído para manter a criança em um mundo fantasioso, feito para esconder a realidade extremamente violenta ao seu redor, em que até a morte é transformada em uma alegoria infantil.

A máquina de Joseph Walsher

Gonçalo M. Tavares (Companhia das Letras, 2010)

Joseph Walsher vive uma rotina mecânica e entediante, trabalhando como operário de máquinas e vivendo de interações artificiais em uma cidade apreensiva pela proximidade de uma guerra. Em certo momento, um acidente desloca sua personalidade e o leva para uma série imprevista de acontecimentos. Existencial, cruel e intrigante, o livro do português Gonçalo M. Tavares, tido por muitos como um sucessor natural de José Saramago, é um exercício filosófico sobre a mente humana, o estresse do cotidiano e nossa relação com o trabalho e a imprevisibilidade da vida.

Obra completa

Murilo Rubião (Companhia das Letras, 2016)

Murilo Rubião é um gênio da nossa literatura. Primeiro escritor destacado no gênero fantástico no Brasil, deixou-nos 33 contos, reescritos inúmeras vezes ao longo de sua vida e reunidos em "Murilo Rubião – Obra completa". Tratam-se de algumas das mais notáveis criações da literatura fantástica brasileira, em que o absurdo é recheado de comentários atemporais sobre a sociedade humana, nossas falhas e grosserias, mas também nossa fragilidade e delicadeza. O legado do escritor mineiro, falecido em 1991, é amplamente estudado na academia e merece ser conhecido pelo grande público tanto quanto seus pares latino-americanos, como Jorge Luis Borges.

O deserto dos tártaros

Dino Buzzati (Trad. Aurora Fornoni Bernardini, Nova Fronteira, 2017)

Um clássico único em que o estranhamento não se faz através de imagens mirabolantes, e sim do percurso fatigado e sem sentido da nossa relação com o tempo e a memória. Escrito durante a Segunda Guerra Mundial, o livro narra a vida de Giovanni Drogo, um aspirante militar enviado para um forte longínquo, guardado por soldados convictos de que há um trabalho muito valoroso a ser executado. Por mais que todos os sinais indiquem que se trata apenas de um lugar esquecido e sem propósito, todos vivem em inabalável negação sobre a futilidade de seus ofícios, enquanto observam os anos passarem diante de um deserto que nunca responde às suas angústias.

O vendido

Paul Beatty (Trad. Rogério Galindo, Todavia, 2017)

Um dos autores negros mais celebrados da atualidade, Paul Beatty traz em “O vendido” um personagem tão excêntrico quanto representativo da sociedade ocidental contemporânea. Escrito com humor ácido e ritmo frenético, cheio de referências e aforismos, o livro nos conduz através de um protagonista chamado apenas de Eu, um rapaz negro que tem sua personalidade sarcástica influenciada por diversos experimentos raciais bizarros feitos na infância por seu pai. Na vida adulta, ele enfrenta o julgamento pelo crime de possuir um escravo. Temas como racismo, segregação, pobreza, apropriação cultural, entre outros, são martelados na cara do leitor sem nenhum pudor ou medo de causar desconforto.

Ricardo Terto é autor dos livros "Marmitas frias" (crônicas, ed. Lamparina Luminosa, 2017) e "Os dias antes de nenhum" (contos, ed. Patuá, 2019). Também é roteirista e produtor de podcasts.

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